Tenho questionado há algum tempo o modelo de negócios da educação, principalmente no que diz respeito à sua proposta de valor.
Nesta semana, a convite de uma mentorada, tive a oportunidade de falar para um grupo de pesquisadores, alguns deles docentes em uma universidade particular, com doutorado ou pós-doutorado em suas áreas, uma turma muito qualificada e restrita. Para se ter ideia de quão restrito, de acordo com uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o grupo de pessoas que concluíram este nível de graduação é de apenas 0,2% da população brasileira.
Além do público seleto, a relevância do tema me deixou muito empolgado, falamos sobre a aproximação do meio acadêmico ao mercado.
De um lado temos demandas diversas, escassez de mão de obra qualificada e ausência de metodologia e, do outro, grupos de pesquisadores procurando resolver problemas da sociedade. E aí começa um debate incrível.
O primeiro ponto é que, culturalmente, os projetos desenvolvidos pelos pesquisadores tendem para o lado social com muito romantismo e pouca prática. São teorias interessantes, mas sem a devida validação do mercado. Projetos sociais podem não visar lucro, mas precisam se sustentar e, para isso, alguém tem que aportar capital.
Depois disso precisamos lidar com profissionais altamente qualificados, muito técnicos e sem grande experiência fora do meio acadêmico. Daí vem a dificuldade de fazer a conexão com possíveis parceiros e investidores.
Por fim, o “limbo”, quando o almejado título é conquistado, as bolsas de pesquisas se findam e, uma iniciativa que poderia ser relevante para a sociedade, se torna mais uma linha em um currículo robusto, ganha capas duras e segue para as prateleiras de uma universidade. O melhor que pode acontecer neste momento é que renda algumas publicações, mas dificilmente será aplicada.
Estamos pensando a educação como algo compulsório! Quer o emprego? Me dê um diploma. Se você quer um título defenda uma tese. Até quando isso vai ser assim? Não faz mais sentido.
Sobre o emprego, as novas gerações já entenderam que não precisam, necessariamente, de um diploma, mas sim de habilidades. E buscam isso nas instituições de ensino, inclusive esta foi uma das perguntas mais bacanas que fizeram neste sentido.
“Você acha que as universidades vão acabar?”
Minha resposta: Depende. Algumas delas podem não se adequar à necessidade de seus clientes e podem sair do mercado, mas as que conseguirem atender este público não precisam se preocupar.
Um estudo do Observatório de Educação revela que o pico da evasão escolar acontece quando os alunos estão com idade entre 15 e 18 anos e, entre os motivos principais, estão: gravidez, falta de conexão dos conteúdos escolares com os interesses e desejos dos estudantes, necessidade imediata de geração de renda para apoiar a família. Alguém se surpreendeu?
Novamente estamos falando da necessidade de aliar a força do meio acadêmico à demanda pulsante do mercado.
Outra questão levantada no encontro com os pesquisadores me mostrou o quanto estamos condicionados à polarização. Questionar o modelo de negócios da educação não significa que sou contra a educação. Presencial ou on-line, a educação não deixa de ser a base de uma sociedade. O questionamento é sobre como atrair os clientes, diante de uma mudança de comportamento, como gerar valor percebido.
Me surpreende que as pessoas não consigam pensar em modelos híbridos e sustentáveis.
Se temos o Uber, um dos maiores players de transporte não tem carros em sua operação, e o Airbnb entre os maiores do mercado de hotelaria sem ter, sequer, um quarto de hotel, o que nos impede de ter entre as maiores universidades uma instituição sem sala de aula?
Falamos também sobre inclusão social e digital, sobre as dificuldades de engajamento dos alunos em sala de aula e em projetos extracurriculares. Conversamos ainda sobre os desafios e as responsabilidades dos docentes em entenderem a amplitude de seus trabalhos e o impacto gerado em nossos jovens, mas sobretudo, o quanto as propostas das universidades precisam estar alinhadas com os propósitos de seus alunos. Ou continuaremos gerando volumes incríveis para as prateleiras das universidades.
Talvez alguns deles nem querem mais ouvir falar em meu nome, mas se o que eu falei servir para um, apenas um deles, missão cumprida!
Jean Dunkl
@jeandunkl
CEO da CPD Consultoria e da Espacio de Color, mentor em Gestão Estratégica de Negócios, gestor da Impera e voluntário da Singularity University