Criar um filho não é tarefa fácil. Garantir que eles absorvam os melhores ensinamentos é ainda mais complicado e, juntando isso à nossa expectativa enquanto pais, a conversa fica boa.
Nasci e cresci numa família de empreendedores e, sendo o primeiro filho e neto, logo o primeiro herdeiro na linha sucessória das empresas, meu destino já estava definido. Sempre houve cobranças sobre meus estudos e meu comportamento, afinal, desde criança eu deveria entender que seria um executivo, um empresário engravatado e fazer os negócios prosperarem.
Comecei cedo, aos 14 anos já saía da escola e seguia para uma das empresas. Aprendi muito sobre os diversos departamentos e rotinas, conhecimento que trago e aplico até hoje em minha vida, como por exemplo: não criar expectativas e esperar que meus filhos escolham suas profissões, sem que sejam induzidos por ninguém.
Outro aprendizado que não vemos em nenhuma escola é a vivência. Começar cedo me deu parâmetros para que hoje eu faça minhas escolhas. Foi incrível, pois na fase da vida em que eu mais precisava aprender sobre responsabilidade, respeito e consequências de nossos atos, eu pude ver isso na prática.
Falando em escola, o que tem acontecido com as nossas? O mercado evolui dia após dia, novas tecnologias, modelos de negócios inovadores, áreas de atuação inéditas e, enfim, a chegada das profissões do futuro. Por que então as escolas continuam preparando nossas crianças para as profissões tradicionais?
O modelo de negócios para o segmento da educação está ficando para trás. Tivemos com a pandemia uma ótima oportunidade para pensar nisso e o que vemos é tudo voltar ao que era antes: alunos sentados em suas carteiras, para uma formação em longo prazo.
Se você é pai e sonha em ver seu filho se formar na faculdade, eu tenho uma notícia para você. Talvez você não realize este sonho. Simplesmente pelo fato de que já existem profissões em que um adolescente de 15 anos já pode atuar, mesmo com pouca bagagem e sem experiência profissional.
Ah, mas com essa idade eles não têm dinheiro para abrir um negócio. Talvez não para um modelo tradicional, mas apenas com um celular mediano e relativamente barato já é possível ser Youtuber, TikToker, videomaker, DJ ou levantar uma grana fazendo Reels no Instagram. Mas isso não é profissão… Balela! Não era na minha época, que nem existiam esses canais e o telefone era feito para falar.
Pensando em um investimento um pouco maior, com um notebook um adolescente aprende a programar e pode se tornar um desenvolvedor. Hoje o mercado tem alta demanda para este profissional, por isso é possível ver garotos com menos de 20 anos faturando valores acima dos cinco dígitos. O mais interessante é que existem plataformas e tutoriais ensinando gratuitamente diversas linguagens de programação, a certificação é on-line e a duração do curso vai de acordo com o comprometimento e disponibilidade do aluno. É possível estar certificado em uma linguagem de programação em 10 ou 15 dias.
Não posso deixar de falar sobre os pro players (jogadores profissionais) que ganham a vida jogando games ou jogos de PC mesmo. Durante o ano passado mentorei uma startup que surgiu para resolver demandas dos jogos de Poker on-line, e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a estrutura criada para os times que, em alguns casos, passam de 300 jogadores. Isso pode ser tema para outro papo.
Além de preparar as próximas gerações para o mercado, nós precisamos estar preparados para vê-los se desenvolver em profissões que, até alguns dias atrás, nem existiam ou eram mais tratadas como um hobby.
É preciso entender também que o conceito de carreira mudou e, se antes o objetivo era estabilidade, hoje é ser feliz, se sentir realizado. Deixamos de “ser” para “estar” e por isso é comum reconhecermos alguém por uma atividade e, pouco tempo depois, esse alguém já está em outra. Nada impede que o CEO de uma startup decida vendê-la e se arriscar em outro segmento saindo do zero para se realizar.
Precisamos, de uma vez por todas, romper este paradigma de que a nossa missão é estudar para arrumar um bom emprego, constituir uma família de comercial de margarina e pensar na aposentadoria – o quanto antes ela possa acontecer.
Primeiro porque a nossa expectativa de vida é muito maior hoje. Depois porque o mercado é muito mais dinâmico e livre, qualquer um de nós pode descobrir uma nova atividade que nos realize após os 70 anos, o que deve ser cada vez mais comum com o surgimento de tantas novas profissões e a valorização da experiência de vida. E este é o principal desafio das instituições de ensino: preparar para a vida e não apenas para uma profissão, e fazer isso de forma rápida, pois em cinco anos uma atividade pode deixar de existir.
Estudar é indispensável, a questão é como e quando o mercado da educação vai se adaptar a essa realidade. Como integrar o meio acadêmico e o mercado fazendo com que as diversas teses de mestrado e doutorado saiam das prateleiras das bibliotecas e se tornem úteis para o ecossistema, sejam funcionais e aplicáveis.
Todos os meus testes vocacionais apontavam para cursos relacionados à administração de empresas, alguns chegaram a apontar uma carreira no direito. Talvez por esses testes traduzirem um pouco de como eu me sentia no momento em que os fiz, mas eu nunca me vi desenvolvendo a carreira de executivo como esperavam e ainda menos nas áreas que o direito pode proporcionar. Agora como um teste vocacional pode apontar carreiras que ainda não existem? Vou além, como podemos predestinar o que um jovem de 18 anos vai fazer para o resto de sua vida?
Para fugir do que haviam definido para mim, tentei publicidade (durou três meses), depois cursei arquitetura por quatro anos – um verdadeiro peixe fora d’água – e, por fim, voltei para a área da gestão onde atuo hoje, mas nem de longe como um executivo. Nenhum teste vocacional apontou a mentoria para startups ou para consultoria em gestão estratégica, nem poderia.
Preparar as crianças desde cedo se torna ainda mais importante. Nossa missão na orientação das próximas gerações é desafiadora e, ao mesmo tempo, motivadora. O mais importante é a troca de experiências, pois temos muito a ensinar e também muito o que aprender com eles.
Jean Dunkl
@jeandunkl
CEO da CPD Consultoria e da Espacio de Color, mentor em Gestão Estratégica de Negócios, gestor da Impera e voluntário da Singularity University