É nos momentos difíceis que encontramos as maiores oportunidades. Com essa máxima começo nossa conversa de hoje e acredito que todos nós possamos debater esse tema com um pouco mais de propriedade do que há alguns meses.
Como bom estrategista, gosto e preciso acompanhar pesquisas, avaliar as tendências e entender as estatísticas, mas o que mais me prende a atenção é refletir sobre os impactos gerados e suas motivações.
Uma pesquisa recente, realizada pela Secretaria de Desenvolvimento de Franca/SP, revela que aproximadamente 1000 novas empresas foram registradas na Junta Comercial da cidade no primeiro semestre deste ano. Claro que uma pequena parte pode representar ajustes de empresas que precisaram se organizar diante de um cenário caótico, não sejamos inocentes, mas é importante olhar um outro dado: neste mesmo período foram gerados cerca de 5000 novos empregos.
Diante destes números é impossível não pensarmos o quanto somos empreendedores. Seja por oportunidade ou seja por necessidade, o francano buscou alternativas. Claro que estamos falando de uma cidade no interior de São Paulo, o Estado mais rico do país, mas buscando mais informações é nítido que este comportamento não é exclusivo da cidade do calçado.
Nesta altura vale reforçar os conceitos de empreendedorismo por oportunidade, quando o empreendedor encontra uma brecha, uma lacuna no mercado, e por necessidade, quando ele precisa buscar meios para sobreviver.
Para ilustrar estes conceitos trago dois exemplos recentes.
O primeiro de oportunidade, caso real de um empreendedor que no início da pandemia percebeu a oportunidade, desenvolveu fornecedores, cuidou da logística e criou um e-commerce de máscaras descartáveis. Muitos podem pensar: “e agora, o que ele vai fazer”? Eu sei a resposta. Ele vai apurar o lucro obtido no período, encerrar a atividade desta operação e desenvolver outro negócio, simples, dinâmico e sem apego. É verdade que isso não é para qualquer um, mas não podemos negar que existem empreendedores com essa pegada “que seja eterno, enquanto dure”. Esse é um exemplo de negócio de ciclo curto, mas é bem possível termos casos de oportunidade com ciclos mais longos.
Pensando em um exemplo de empreendedorismo por necessidade, me lembrei de um case do vendedor de morangos de Curitiba, que nesta semana teve diversos vídeos divulgados na internet. O comerciante percebeu que o maior gargalo em suas vendas estava relacionado ao tempo que tinha para oferecer o produto, negociar e concluir a venda e à forma de pagamento, uma vez que seu “ponto de vendas” é um semáforo. Entendidas as objeções, veio a solução: leve a caixa de morangos e faça um PIX quando puder. E aí vieram as surpresas: primeiro, em relação à honestidade dos compradores, a inadimplência é muito baixa e, depois, o aumento exponencial em suas vendas.
Conceitos reforçados e exemplificados, preciso falar de outro dado que me chamou a atenção nesta pesquisa: no mesmo período, a média de cadastro de MEI (Microempreendedor Individual) no Portal do Empreendedor foi de 300 novos por mês. A busca pela formalização cresceu consideravelmente, mas não apenas isso, muitas pessoas perderam seus empregos e decidiram começar um novo negócio. A economia criativa vem ganhando espaço neste cenário, passo importante para o desenvolvimento de qualquer cidade e ótimo exemplo para quem ainda insiste na informalidade.
Se você tem vontade de empreender e não sabe bem por onde começar, comece identificando um problema. Entenda se este é um problema em comum para um grupo de pessoas, qual o tamanho deste grupo e quanto isso os incomoda. Depois, pense nas soluções possíveis e veja se dentre as suas melhores habilidades existe alguma que possa ajudar a resolver este problema. Se não tiver é uma boa hora para somar talentos, busque ajuda, ouça as pessoas.
É importante entender se as soluções propostas atendem às necessidades daquele grupo, veja também se a solução é funcional, se tem custos e se estão dispostos a pagar por isso. Validada esta etapa, chegou a hora dos testes: convide algumas pessoas para testar sua solução, colha os feedbacks e resolva os problemas, isso pode acontecer em alguns ciclos. Tudo resolvido? Chegou a hora de escalar: busque mais usuários e cuide para que a entrega aconteça conforme planejado. Ajustes são sempre necessários.
Jean Dunkl
@jeandunkl
CEO da CPD Consultoria e da Espacio de Color, mentor em Gestão Estratégica de Negócios, gestor da Impera e voluntário da Singularity University