Ao validarmos um modelo de negócios, uma das primeiras perguntas a ser respondida é: “qual o problema que o seu produto resolve?”. Se uma empresa vier ao mercado apenas para oferecer mais do mesmo ou se não tiver um propósito bem definido, muito provavelmente sua viabilidade estará comprometida. Gerar valor percebido pode parecer romantismo da atualidade, mais um termo da moda, mas não é. Estamos falando de como seu produto vai ser percebido pelo mercado, quanto sua solução vai impactar na vida dos seus clientes e se isso é suficiente para que eles paguem pelo produto.
Peter Drucker, o guru do marketing, falava em converter a necessidade em demanda, ou simplesmente, dar às pessoas o que elas querem. E isso já fez muito sentido, quando o mercado era comprador e o domínio estava nas indústrias fornecedoras, quando suas estratégias estavam em garantir alta produtividade. Mas, mesmo nesses tempos, já havia divergência sobre este comportamento. Henry Ford tem uma frase muito conhecida neste sentido: “se eu perguntasse aos meus clientes o que eles queriam, teriam dito que era um cavalo mais rápido”.
As pessoas se adaptam facilmente às diferentes situações. Uma mancha na parede que incomoda apenas nos primeiros dias, um defeito no carro que logo aprendemos a lidar, as famosas gambiarras, que não resolvem o problema, mas escondem.
Esse poder de adaptabilidade, por um lado, gera um ambiente favorável para a inovação incremental, onde as melhorias para as soluções existentes acontecem mais facilmente, como, por exemplo, a evolução da lâmpada desde seu primeiro modelo incandescente até as atuais de LED que vemos hoje.
A cada nova geração de lâmpadas, problemas como aquecimento, gasto energético e iluminação foram melhorados. Esta evolução ilustra bem o sentido da proposta de valor: se o problema for a eficiência energética, um novo modelo gera valor percebido ao ter um consumo mais baixo, uma capacidade de iluminação maior e mais durabilidade, com custo acessível.
A inovação incremental, bem como a evolução da lâmpada e de tantos outros produtos, é muito importante. Mas, tão importante quanto, é desenvolvermos o hábito do questionamento. Não fosse isso, estaríamos andando em cavalos superdesenvolvidos hoje em dia.
É deste questionamento, desta inquietude, que surgem as inovações disruptivas, aquelas que tornam as soluções anteriores obsoletas e que rompem os conceitos anteriores, os “pré-conceitos”.
A Netflix, em seu primeiro modelo de negócios, era uma empresa que entregava lançamentos em DVD pelos Correios e trabalhava para um público bem restrito. Com o passar do tempo, percebeu a oportunidade de melhorar seu modelo de negócios e fazer sua entrega através de um canal de mídia de streaming, não mais apenas os lançamentos para um pequeno público, mas uma biblioteca extensa – inclusive com produções próprias – para um público bem amplo. Hoje, quem não conhece a Netflix?
Mas, como fizeram isso? Ao perceberem que os problemas que resolviam não eram apenas de um grupo restrito, que buscava por lançamentos, e sim da grande maioria das pessoas que locavam filmes, eles entenderam que poderiam escalar a solução. A entrega estava validada, porém tinha o custo logístico que, para o público anterior, não era um problema, pois havia valor percebido, mas não era viável em larga escala.
Daí a entrega por streaming, que possibilita a escalabilidade da solução, com custo diluído. Ponto de atenção para a monetização: se antes pagamos por título assistido, hoje assinamos a solução, o que significa recorrência da receita, o sonho de qualquer empreendedor.
Quando a Apple lançou, simultaneamente, o iPod e o iTunes, automaticamente mudou a maneira de consumo de músicas e aposentou os MP3 players e os CD players por definitivo, revolucionado o mercado musical.
E você, acha que é seguro colocar seu dinheiro em um banco digital? Pensar em colocar nossos recursos em um banco que não tem agência física, em que todo o relacionamento é feito através de um smartphone, parece temerário, mas ainda mais assustador é enfrentar filas e pagar altas taxas em uma agência bancária. Os bancos digitais estão aí para nos mostrar que existem usuários – e não são poucos, que o valor percebido na experiência de relacionamento digital sobrepõe o receio de não ter um gerente à disposição, em uma agência na avenida mais próxima de sua casa.
Assim como estes, existem diversos outros casos que evidenciam os benefícios da inovação disruptiva, como fruto de indagações e provocações de empreendedores que caçam oportunidades nas perguntas não realizadas.
Geralmente, quando vemos uma solução e nos questionamos “como eu não pensei nisso antes?”, a resposta é: que você não deveria ter pensado antes e, sim, ter perguntado antes. Mas não desista! Posso garantir que temos muitos questionamentos a serem feitos e, quem sabe, uma de suas indagações não resulte em uma inovação fantástica.
Jean Dunkl
@jeandunkl
CEO da CPD Consultoria, mentor em Gestão Estratégica de Negócios, gestor da Impera (Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de Franca) e do MKBZ Studio, voluntário da Singularity University