Katielle Silva Fonseca é natural de Belo Horizonte (MG), tem 40 anos, é casada, mãe de três meninos, formada em Educação Física, pós-graduada em Educação Física Escolar pelo Centro Universitário Claretiano/SP e pedagoga – pela Universidade Federal de São João Del Rey/MG.
Atualmente é diretora da Escola Estadual “Professor Michel Haber”, no Jardim Paulistano, em Franca, e juntamente com a comunidade escolar, as famílias dos alunos, os moradores do bairro e outros parceiros, vem proporcionando importantes vivências para a conscientização e valorização da cultura afro-brasileira.
Com experiências que enriquecem o ambiente escolar, mas também fortalecem a visão de quem está fora dos muros da escola, o Projeto Afrodescendentes, do qual Katielle está à frente, conta com o poeta Carlos Assumpção como patrono e tem proporcionado transformações significativas, de olhar, de postura e de conhecimentos.
Neste domingo, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, Katielle destaca os bons resultados conquistados pelo projeto e o seu ponto de vista sobre a data. “Um assunto tão amplo e rico não pode ser trabalhado em um único dia do ano. As ações precisam ser planejadas, ter intencionalidade, propósito e objetivos bem definidos. Na minha opinião, ações isoladas nos subdividem, fragmentam, segmentam e distanciam, enquanto precisamos caminhar juntos, respaldados em relações de amor, respeito, empatia e consciência da diversidade e da pluralidade”, afirma.
Como surgem os planos de ser professora?
Sempre fui ligada ao esporte, o sonho de me tornar professora surgiu aos 7 anos de idade, quando já auxiliava a minha técnica de Ginástica Artística nas aulas. O sonho se intensificou quando iniciei a prática de atletismo, competindo provas de 400, 800 e 1500 metros. Sempre me imaginei como professora e técnica de esporte, estar na área da educação foi algo inesperado, devido ao fato de ser aprovada no Concurso Público em 2006, onde ingressei na Secretaria Estadual de Educação como educadora física e permaneci por 12 anos.
Em quais escolas você já atuou?
Em Franca, trabalhei por 12 anos como professora de Educação Física na Escola Estadual Professora Lizete Paulino Teixeira, no bairro Santa Terezinha. Fui coordenadora e técnica responsável pela Ginástica Artística na AFAGO (Associação Francana de Ginástica Olímpica) e também atuei como técnica da mesma modalidade na cidade de Patrocínio Paulista por quase 11 anos.
Como e quando surgiu a oportunidade de ser diretora da Escola “Michel Haber”?
O interesse de me tornar diretora surge pelo ideal de acreditar em uma Educação diferenciada, utilizando-se do esporte, da arte e da cultura como meios de auxílio na formação integral do aluno. Tive uma diretora que me marcou de forma negativa, era rude, autoritária, tradicional, não nos dava oportunidade de explorar os talentos, habilidades, capacidades e potencialidades dos alunos, fazia da nossa escola um espaço silenciado, sem vida e sem brilho. Vivenciar isso foi frustrante e ao mesmo tempo encorajador para uma vida e uma carreira nova. Isso foi o meu maior incentivo para ser diretora!
A escola integra o PEI, Programa de Ensino Integral, desde 2020, quais os diferenciais a unidade de ensino apresenta?
O Programa de Ensino Integral tem como objetivo a formação de um aluno protagonista, autônomo e solidário. Além de ampliar o tempo de permanência na escola (9h), ele traz propostas (Projeto de Vida, Tutoria, Pedagogia da Presença, Clube Juvenil, Eletivas, Acolhimento…) que ampliam nossas possibilidades de trabalho, contato com o aluno e formação continuada do docente. A escola disponibiliza mais tempo, materiais e espaço para atividades diferenciadas e inovadoras. Conseguimos oportunizar uma escola viva e em movimento, onde o aluno é mais atuante, sendo o verdadeiro protagonista.
Dentro do PEI, vocês realizam desde 2018 o Projeto Afrodescendentes. Como nasceu essa iniciativa e com qual objetivo?
O Projeto Afrodescendentes surge em 2018, ano do meu ingresso na instituição, época em que a escola ainda era de tempo regular, oferecendo os três períodos: manhã, tarde e noite. As primeiras ações que inspiraram o Projeto surgiram do Curso sobre a Lei 10639/03 realizado na Unesp, idealizado pela Prof Ms. Marley Morais, com o apoio da Diretoria de Ensino.
Mesmo estando formada há alguns anos, nunca tinha estudado sobre a Lei, mas logo percebi que sua implantação seria fundamental para superarmos os problemas de autoestima, identidade, convivência e interação social no nosso ambiente. Na época, observava que a comunidade escolar, por ser periférica, enfrentava vários pré-conceitos, era estereotipada, desacreditada e rotulada negativamente.
A Lei 10639/03 inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências, já a Lei 11645/08 inclui a obrigatoriedade da História e Cultura Indígena. Ambas têm o intuito de promover a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos citados, visando disseminar a importância do negro e do índio na construção da nossa História.
Comentamos que vocês transformam a escola em um grande laboratório para explorar e valorizar a cultura afrodescendente. Que balanço você faz do projeto nas cinco edições que foram realizadas?
Vejo que o projeto despertou em toda comunidade escolar os sentimentos de pertencimento e corresponsabilidade por tudo aquilo que somos e fazemos. Trouxe identidade histórico-cultural, empoderamento e consciência de que podemos ser o que quisermos. Além disso, melhoramos o ambiente escolar, que se tornou mais humanizado, harmonioso e acolhedor. No decorrer das atividades propostas, utilizamos o esporte, a arte e a cultura como meios de aprendizado, além disso, promovemos a inter e a transversalidade entre as disciplinas, o foco não é só uma educação antirracista, promovemos a Educação Interdimensional, trabalhamos o Currículo, mas não só ele. Nossos resultados vão além dos muros da escola! Ao meu ver, o subtema “A Beleza e a Riqueza de Ser o que Somos”, resume bem a amplitude e a abrangência do nosso trabalho e das nossas ações.
O senhor Carlos Assumpção é patrono do projeto. Qual a importância de tê-lo junto à comunidade escolar e do bairro neste trabalho?
Senhor Carlos de Assumpção é a história viva, é inspiração, conhecimento e aprendizado, ele traz muito da nossa ancestralidade. Tê-lo conosco nos fortalece pois, a cada visita, a cada conversa, é um aprendizado novo. O Sarau Protesto e as rodas de conversa desencadearam e facilitaram o início do trabalho. Só o fato de o ter presente já é algo grandioso, quando ele acompanha, elogia, participa e aprova o que estamos fazendo, é algo que credencia e certifica que mesmo havendo muito a se fazer, estamos no caminho certo!
Até comitivas de estrangeiros vocês já receberam. Como é a participação do público nesta iniciativa?
O evento é aberto a toda comunidade, o convite é estendido a representantes da comunidade negra, instituições, gestores educacionais, universitários, artistas, estudiosos, pesquisadores e especialistas na temática étnico-racial e cultura afro-brasileira. Em 2020, tivemos pela primeira vez a participação do Prof Dr. Dagoberto José Fonseca, que é um dos principais estudiosos do Brasil na causa étnico-racial. Após observar a intencionalidade e a seriedade do Projeto, propôs estabelecer uma parceria entre a Escola e a Unesp. Desde então, através desse apoio e respaldo, conseguimos ampliar e intensificar nossas ações. A parceria escola e universidade amplia nosso olhar e credencia nosso trabalho. Esse vínculo nos traz respaldo, segurança e suporte no que é feito! Em maio recebemos franceses e africanos da África do Sul. A efetividade do Projeto nos tornou um “laboratório de estudos, análises e observações”, agora em novembro recebemos um angolano e abrimos nosso espaço para rodas de estudo e formação. O que fazemos não é um show, um evento ou espetáculo, o que fazemos é aula, é aprendizado, é Educação de forma viva e em movimento, tendo o aluno como protagonista.
De que maneira projetos como esse podem contribuir com a inclusão de pessoas negras e luta contra o racismo?
Nosso trabalho se dá de forma leve, sutil e constante. Não costumo me referir a isso como uma luta, pois penso que é preciso haver amor, persistência, serenidade, leveza e união. A temática étnico racial e a cultura afro-brasileira são grandiosas, amplas e trazem algumas questões que são complexas, se não houver preparo, formação continuada junto com essa tranquilidade, segurança, persistência, acabamos por subdividir o grupo e cometer os mesmos erros do passado. O trabalho que propomos é para todos e envolve todos, não considero uma militância ou um ativismo. Me classifico como agente cultural em busca de promover uma escola cada vez mais humanizada, acolhedora, rica, diversa e plural, convicta do seu propósito: Sim, nós podemos!
Katielle, existem mais projetos que você planeja implantar na escola, voltados aos afrodescendentes?
As metas, os objetivos e propósitos do Projeto mantêm sua essência. Anualmente o que fazemos é trazer novas temáticas e trabalhar personalidades e referências que nos inspiram e trazem ensinamentos. Esse ano o tema foi “A Arte Produzida na Periferia”, nossas inspirações e personalidades de estudo foram Carolina Maria de Jesus, Elza Soares e Emicida. E assim seguimos, a cada ano inovando no assunto, mas sem perder o foco e sem deixar de promover conhecimento, arte, cultura e esporte. Ver duas questões do ENEM contemplando Carolina Maria de Jesus foi um sinalizador de que estamos conectados com o contexto sócio-histórico-cultural, ao mesmo tempo em que comprova que nosso Projeto dialoga com a atualidade e cobranças acadêmicas.
Que avanços você ainda acredita que são necessários para cumprimento das leis 10.639 e 11.625?
Mesmo com a lei prestes a completar 20 anos, poucas instituições e profissionais a conhecem ou a cumprem efetivamente. Atualmente a Educação Antirracista começou a ser vista como uma necessidade, como algo urgente, fundamental e indispensável. Há algum tempo se alegava falta de material ou de conhecimento; essas desculpas não são mais aceitáveis, pois precisamos difundir, incentivar, respaldar e promover a formação continuada dos profissionais, mostrando que não é somente os professores de Geografia e História que têm esse compromisso e responsabilidade. A atuação deve ser de todos, todas as disciplinas têm meios e caminhos para trabalhar as leis, conectando ao conteúdo e às propostas do currículo, mas para isso, se fazem necessários estudo, inovação, criatividade e muitas vezes ousadia e coragem de fazer diferente e sair da zona de conforto.
Qual a sua opinião sobre o Dia da Consciência Negra?
Particularmente, não gosto da expressão porque, no meu ver, restringe a verdadeira intencionalidade da proposta. Não pode ser voltado somente para o povo negro, nem focar somente em ações pontuais, isoladas ou desconexas. O dia 20 de novembro é o dia da morte de Zumbi dos Palmares e nos traz a reflexão da importância de ações que visem a reparação, o reconhecimento, a valorização, a história, a cultura e a importância do nosso povo na construção da nossa História. Mas um assunto tão amplo e rico não pode ser trabalhado em um único dia do ano. As ações precisam ser planejadas, ter intencionalidade, propósito e objetivos bem definidos. Na minha opinião, ações isoladas nos subdividem, fragmentam, segmentam e distanciam, enquanto precisamos caminhar juntos, respaldados em relações de amor, respeito, empatia e consciência da diversidade e da pluralidade.
Katielle, tem mais alguma consideração que você gostaria de acrescentar?
Quero ressaltar que tudo é processo! Inicialmente podemos apresentar sentimentos de incerteza ou insegurança, mas o acreditar e buscar formação, orientações e parcerias são fatores que nos encorajam, motivam e fortalecem. Tudo que fazemos na Escola “Michel Haber” é fruto de um trabalho coletivo, que envolve todos os funcionários, colaboradores e parceiros. A figura e o apoio do gestor é fundamental e imprescindível, mas busco caminhar junto com todos, mantendo o foco na nossa prioridade: o aluno, o seu processo de ensino-aprendizagem e a sua formação integral para a vida.