Nelise Luques
Palestrante motivacional há 22 anos, Leila Navarro esteve em Franca no dia 3 de outubro para compartilhar suas experiências com um público formado por 500 mulheres durante o 9º Fórum da Mulher Empreendedora. O evento foi promovido pelo CME-ACIF (Conselho da Mulher Empreendedora da Associação do Comércio e da Indústria de Franca), no Espaço Cedro.
Prestes a completar 70 anos de idade, Leila é alto astral, sorridente e irreverente. Para a palestra “A Ousadia, o Talento e a Força da Mulher”, ela se apresentou com uma capa de luzes de LED, coroa e descalça. De forma muito natural e espontânea, nos palcos em que se apresenta, ela arranca risadas do público, mas também propõe reflexões muito pertinentes.
Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Verdade, ela comenta o cenário nas empresas após a pandemia, a presença da mulher no mercado de trabalho e seu ponto de vista sobre a automotivação.
Leila Navarro é fisioterapeuta, mas desde 2000 fechou o consultório e se dedica exclusivamente a palestrar, uma de suas grandes paixões. A agenda dela contém em média 120 palestras por ano, realizadas no Brasil e exterior, em países como Espanha, Chile, Uruguai, Panamá, Japão, México, Portugal e Dubai.
Ela integra o ranking dos 20 maiores palestrantes do Brasil, segundo a Revista Veja. Mais de 1,7 milhão de pessoas já assistiram às suas palestras. Ela conquistou o 23º prêmio Top of Mind de RH 2020 na categoria Palestrante, a maior premiação de reconhecimento da área de Recursos Humanos, a única mulher a conquistar o prêmio, essa foi sua 2ª vitória.
Leila, o que você destaca das suas experiências profissionais?
Eu sou fisioterapeuta de formação e é interessante que eu sou da segunda turma da USP de fisioterapia, naquela época fisioterapia nem era profissão. A gente não mudava de namorado para não ter que explicar para o namorado o que era a fisioterapia porque nem a gente sabia direito, e eu estou falando de quase cinquenta anos atrás, o que é uma coisa maravilhosa, como passa o tempo. E hoje a fisioterapia é uma profissão tão interessante, tão aberta, tão múlti. Eu acho que tudo virou muito múlti no mundo inteiro. Então eu sou fisioterapeuta de formação. Há 22 anos que eu sou palestrante, escrevo livros e viajo o mundo todo. Outro dia me falaram, Leila, mas você continua fisioterapeuta? Eu falei, não, imagina, eu sou palestrante, nem tenho mais o Conselho Regional de Fisioterapia, nem pago mais, aí a pessoa falou assim, é porque você alonga e massageia nossos corações. Achei isso maravilhoso. Eu fui a primeira fisioterapeuta a trabalhar em Unidade de Terapia Intensiva, que estava começando naquela época, e é muito interessante porque eu sempre sou muito novidadês, eu gosto de coisas novas, avante do nosso tempo. E na terapia intensiva acabei tendo oportunidade de ir para os Estados Unidos porque – eu até eu conto isso na palestra – meu casamento acabou, dei uma virada na minha vida e pude fazer um curso de método Rolfing e voltei com o método, daí que apareceu a palestra. Quando eu voltei para o Brasil, começaram a me chamar para falar sobre o Rolfing, a gente estava na época da LER, que é lesão por esforço repetitivo, e eu falava de um jeito tão divertido, tão irreverente, tão fora da caixa, que começaram a me chamar para dar palestra e, naquela época, estava começando a ter esses esses trabalhos de palestrantes no Brasil. Era aquele começo que tinha só o Roberto Shinyashiki, isso em 1998, 97, para mim, eles já estavam antes no mercado. E eu nem sabia o que era ser palestrante, porque eu era de outra área e, de repente vi que era um negócio interessante, mas aconteceu tudo de forma muito natural e foi daí que eu me tornei palestrante, no ano 2000 eu deixei meu consultório e virei só palestrante. Então, fui empresária, fui rolfista, porque eu trouxe o método de lá, fiquei sete anos com o método, e depois virei palestrante, essa experiência tão interessante e tão múltipla.
E como você vê iniciativas como a do Fórum da Mulher Empreendedora, realizado em Franca nesta semana?
Vejo de um jeito muito interessante, porque vou falar uma coisa para você, eu nasci no século passado, eu gosto de lembrar disso porque eu esqueço às vezes. A gente vive muito o aqui e agora. Mas quando eu era menina, é interessante porque a gente ia em dentista homem, médico homem, professor homem, professor de piano, professor de violão, tudo era homem, não tinha nada mulher. E hoje o mundo mudou tanto que a minha ginecologista é mulher, minha terapeuta é mulher. Eu acho que a mulher encontrou um espaço, tudo bem, a gente buscou o nosso espaço, mas tem uma coisa que eu acho que é a mais importante, é que nós mulheres começamos dar espaço para as mulheres, nós começamos a respeitar as mulheres, nós começamos a confiar nas mulheres, porque a gente era muito machista. A gente achava que o homem era melhor, o homem fazia, a gente veio dessa cultura que parece que a gente não fazia bem, mas eles faziam. E eu acho que hoje o mundo mudou e eu vejo essa transformação toda desse caminho. Por isso que eu acho que iniciativas como a do Fórum é para concretizar esse histórico. Eu estava ouvindo algumas palestras aqui e eu vejo que elas contam esse histórico de como elas foram buscando espaço e criando espaço para a mulher realmente assumir, porque embora mudou muita coisa de lá pra cá, ainda nós temos muita falta de espaço. E eu vou dizer uma coisa para você, eu não acho que é culpa deles ou de qualquer outro, eu acho que é nossa mesmo, nós é que temos que assumir e abrir esse espaço e mostrar a que aqui viemos. Eu sempre digo que se o presidente da Rússia e o presidente da Ucrânia fossem mulher, com certeza não estaria tendo essa guerra. Poderia puxar o cabelo uma da outra, ficar careca, mas com certeza não ia estar fazendo uma guerra como essa. É muito interessante de ver que por mais que nós copiamos o modelo masculino, tem coisas que não tem sentido fazer. Agora o que nós temos que fazer é criar um modelo feminino e não copiar um modelo masculino.
Leila, o que você acha que as mulheres têm que traria uma conduta diferente numa situação tão extrema como uma guerra, aproveitando o exemplo que você citou?
Eu vou falar uma coisa interessante, é que nós temos as emoções básicas e não existe ruim nem bom, mas a raiva é uma emoção de foco, direta, de força, que eu tenho que ir pra frente, que eu tenho que ir à luta, que eu tenho que defender a minha tribo, eu tenho que defender a minha família e eu acho que a raiva, que é essa emoção que impulsiona, ela é mesmo muito valorizada no homem, então ele está sempre se colocando, impulsionando, tendo que resolver, tendo que fazer e às vezes sozinho, ele nem quer saber do outro. E eu acho que justamente a emoção da mulher é a emoção da ternura, é a emoção da entrega, do aconselhado, agregar, envolver, do vamos junto, ela tem um outro lugar. Só que é um perigo, porque nós temos esse outro lugar, mas a gente ficou copiando muito o jeito do homem. Então eu, na minha na minha tese, vou falar o seguinte, para gente assumir o nosso feminino e isso não faz a gente perder a nossa força, mas muda o olhar, muda o lugar onde está, não precisa ser melhor que ninguém e que se a gente não for junto, não tem sentido. Quando a gente faz tudo isso junto, não é um só que vai ganhar, um só que vai resolver, então essa liderança hoje, que é uma liderança mais moderna, que é uma liderança mais horizontal, ela é uma liderança muito mais feminina do que a masculina. Porque a mulher, ela aguenta ficar atrás, é lógico que a gente tem vaidade, tem ego, mas eu nunca vi harém de homens. Eu vejo harém de mulheres. Lógico, isso é uma brincadeira, mas uma maneira de dizer que a gente consegue dividir, compartilhar. E eu acho que isso é muito mais fácil para a gente. O que eu acho é que, como eu te falei, nós estamos num aprendizado porque o nosso modelo era muito masculino, muitas mulheres para chegarem em um lugar de destaque, elas precisaram se vestir de homens. Na história, muitas mulheres mudaram o nome para nome de homens para poder ter um espaço na sociedade. Então, veja o que foi e hoje não precisa mais ser assim. Você vai ver que na minha palestra, eu sou uma palestrante que eu chego de plumas, paetês e LEDs, completamente absurdo, pareço uma drag queen e você me pergunta, mas por que você se veste assim? Sei lá, porque eu gosto de me vestir, porque é o jeito que eu quero estar naquele lugar. Aliás, eu copio a Hebe Camargo porque ela dizia o seguinte, que quando ela estava lá, ela respeitava o público dela e ela ia toda maravilhosa. E eu vou toda maravilhosa respeitando o meu público. Mas eu acho assim, que é você sentir isso de dentro para fora, sabe? Eu acho que a gente às vezes se veste de terninho, de um jeito mais masculino não porque a gente escolheu, é porque parece que estão esperando que a gente faça assim e a gente tem que fazer isso. Só recentemente foi liberado nos tribunais que as mulheres pudessem ir de saia. As mulheres tinham que vestir calças, tinham que estar como homens. Então é uma censura muito grande. Eu acho que as coisas estão mudando. Por isso um evento como esse é importante, a gente está valorizando esse jeito da mulher. Eu pensei o seguinte, se todas as mulheres votassem na Simone Tebet para presidente, a gente ganhava essa eleição e não ia ter o segundo turno, com dois homens brigando lá, dois machos alfa se digladiando e a gente ter que passar por isso. Não estou falando da política, estou falando da energia que cria essa disputa de dois machos alfa, que para mim, na minha maturidade, no meu nível de ser,, já era. Eu acho que a gente pode ser a doçura, isso não te enfraquece. Você não precisa gritar para ser forte. Não, você precisa ter consistência, ter fundamento.

Já comentamos um pouco sobre a conquistas das mulheres, mas é nítido que ainda há muito que avançar. Na sua opinião, quais são os pontos prioritários a serem trabalhados para maior valorização das mulheres no âmbito profissional, para fortalecimento delas?
Que pergunta difícil! Porque você percebe que estamos em uma era de transição? E a era de transição envolve áreas difíceis porque você ainda vem com muitos paradigmas do passado e daí você vem com gente que está muito avançada e outras nem tanto, porque o mundo está muito louco, mudou muita coisa. E eu sou uma mulher muito moderna. Você sabe que eu daqui dez anos faço 80 anos, eu estou fazendo 70 anos agora em dezembro e eu gosto de falar para acreditar, porque nem eu acredito nisso, como passou de pressa! Mas, estou dizendo para você ver que eu estou aqui há 70 anos, vejo como mudou. Hoje a coisa que mais me incomoda é quando eu tenho que preencher uma ficha e coloca lá ‘sexo’: feminino ou masculino. Por que o que define eu ser homem ou eu ser mulher, eu te pergunto, o que define isso? Nós ainda temos esse cartesianismo. É homem ou é mulher! Outro dia eu estava conversando com um cara muito interessante, na Espanha, conversando da vida, do sucesso, do trabalho e tal e, no meio da conversa, ele perguntou se eu estava sozinha ou em algum relacionamento. Gente, pensei eu na minha cabeça, porque é rápido, o que a conversa que nós estamos tendo aqui tem a ver com essa pergunta? O que que vai mudar se eu tenho um relacionamento, se eu estou sozinha ou se eu estou acompanhada? E não era um cara que estava querendo alguma relação comigo. Eu pensei e na hora eu não tive resposta, não respondi, só soltei um ‘hahaha’, porque quando você não tem resposta, você faz ‘hahaha’. Mas depois me veio a resposta, eu falei para ele assim, olha, voltando à sua pergunta, vou te falar, eu tenho um relacionamento com mulher, por isso que eu não quis te falar, mas tenho um relacionamento muito liberal, porque a minha companheira é a vida. Eu acho assim, que a minha grande relação, meu grande compromisso é com a vida, com o meu crescimento, com o meu desenvolvimento como ser humano. Não existe mais isso, ser homem, ser mulher, ser fisioterapeuta. Quando você pergunta a minha profissão, se eu falar que sou fisioterapeuta, tem sentido? Hoje a coisa pior para mim é quando eu vou preencher as fichas e é para falar se eu sou homem ou mulher, que eu acho terrível, quando tem a opção, eu ponho ‘outros’. Por quê? Porque eu sou da vida. Aí tem que falar profissão. Por que o que que eu sou, gente? Eu sou Leila Navarro. Eu sou uma somatória de tantas coisas. Colocar empresária? Colocar palestrante? Escritora? Startupeira? Atriz? Mãe? Vó? Investidor anjo? É tão engraçado isso, porque você é uma somatória de tantas coisas, não sei aonde que nós vamos chegar, mas acho que nós vamos começar a mudar esse jeito de ser. Cada vez mais é mais importante o que você é do que os diplomas que você tem. O currículo é uma coisa do passado, que você já fez na vida, não interessa o que você já fez, já morreu, o que interessa é o que você tem disponível daqui para a frente. Eu não tenho retrovisor, eu conto isso na palestra, eu uso os espelhos laterais para olhar com quem eu estou, porque é importante saber com quem você está. E eu olho para frente, porque nós temos que ir juntos, ninguém vai sozinho para frente. E sobre as conquistas, eu acho que o lugar de mulher é onde ela quiser e eu admiro muito essas mulheres que podem estar nesse lugar de liderança, de gestão, de comando, com o olhar feminino. Assim, eu acho que nós temos que começar a ocupar mais cargos de liderança e poder, não é para ser melhor ou pior, não é mandar em homem, ninguém está acima de ninguém, mas é estar do lado e poder mostrar um outro olhar. Eu sinto falta de mais executivas, de mais dirigentes, de mais presidentes, de mais prefeitas mulheres. De mais mulheres que possam estar tendo um papel de determinação, realmente de transformação no momento que nós estamos vivendo, mas lado a lado com todas as outras pessoas. Mas nós não temos esse lugar, no fim é tudo meio decidido pelos homens ainda.
Você diz que as empresas passam por processo de “transformação nocauteante”. Especialmente após a pandemia, vimos mudanças marcantes, algumas, como o trabalho híbrido, já eram até previstas para o futuro, mas acabaram antecipadas. Como avalia o cenário empresarial atual?
Eu acho assim, que nós temos que estar abertos às mudanças que estão acontecendo. Então eu digo que a gente tem que ter cabeça de Waze. E o que é ter cabeça de Waze? Saber onde está, aonde vai chegar, saber mais ou menos, porque pode mudar. Mas se entre um ponto e outro, não deu certo, recalcula a rota, recalcula a rota, recalcula a rota. Recalcular a rota é a coisa mais importante que nós temos que ter hoje, mas fazer isso com leveza. Não pode ficar chorando, nossa, mas eu investi tanto nesse negócio e não vai servir para nada. Não, não vai, vamos ver se serve para outra coisa, se não servir, deixa pra lá. Então, a mentalidade de startup, que é o seguinte, se não está funcionando, vamos pivotar. Não adianta você ficar lamentando, se gastamos errado, vamos ver se dá para levar para alguém, vamos para frente, temos que virar a página, nós temos que ter essa velocidade e capacidade de mudança. Ressignificar é muito importante. E a gente já nasceu ressignificando, uma criança com 4 anos de idade, quando ela quebra um brinquedo, o que ela faz? Se a mãe estiver olhando, ela chora, se não estiver, ela ressignifica, o caminhão que quebrou vira duas casinhas, duas carroças ou ela vai brincar de outra coisa. É muito natural na gente ver o que eu posso fazer com o que não deu certo, criar outra coisa. Então, nós temos essa capacidade de ressignificar e nisso nós precisamos ter essa velocidade também.
Isso vem muito ao encontro de uma outra fala sua, que diz que ‘não é preciso entender o caos, mas usá-lo ao seu favor!’
Isso, é isso aí. Nós estamos vivendo num momento caótico e é no caos que nós temos que aprender, aprender a navegar nas incertezas. Mas na verdade isso não é novidade, nós sempre vivemos no caos, o caos foi a criação do mundo e, internamente, a nossa biofísica é caótica. No fundo, a verdade é que nada tem garantia de nada.
Outro ponto você aborda sempre é a automotivação. Como praticá-la?
Não existe motivação, a gente sempre quer as coisas de fora para dentro, isso não existe, a motivação é de dentro para fora, então ninguém tira a sua motivação. Se você está desmotivada, tem que se perguntar o que está acontecendo? Acho que uma das grandes perguntas a se fazer é a seguinte: eu ainda quero estar nesse lugar? Isso aqui tem sentido para mim? O que eu estou fazendo aqui? Porque está na sua alma, não é na sua cabeça, você tem que perguntar para o seu coração. É muito interessante porque a gente foi treinado a ficar muito no lógico, no racional, e a ficar sempre respondendo coisas para os outros, agradando os outros. E isso não funciona, não é por aí que chega a motivação. Isso engana, você pode até fingir um pouco, mas não sustenta. O que sustenta é aquilo que te dá sentido, o que te dá propósito, o que tem a ver com essa coisa que é maior, que está dentro de você, não tem nada que te tire essa força. Então, você fala assim, Leila, você está com 70, por que você não fica em casa e sossega? Não, não vou sossegar, porque eu acho que o que eu faço tem sentido para mim e tem sido para as pessoas, se eu não fizer isso, eu já morri. Uma vez eu escutei um cara falando – ele era palestrante também – que ele queria morrer no palco palestrando. Eu falei nossa que exagerado. Mas hoje eu penso que realmente quando você faz uma coisa que tem sentido para você, tem uma vitalidade, é uma energia que te mantém com a pele linda e maravilhosa. Então, para complementar, a automotivação tem a ver com autoestima, com autoconhecimento, com autorrespeito. E eu vou falar uma coisa para você que está lendo essa entrevista, eu me aplaudo para dormir. À noite, eu só digo Alexa, me aplauda. E ela solta 50 mil pessoas batendo palmas para mim e eu vou para minha cama agradecendo. Daí quando eu durmo, eu tenho uns insights porque quando você dorme poderosa, você tem ideias e tem que escrever senão você esquece, eu faço isso. Quando eu acordo de manhã, viva nesse corpinho, eu falo gente do céu, Deus está me pedindo bis, porque eu me sinto bisada, porque tenho mais uma chance de sair na vida acontecendo, realizando o meu sonho. Eu durmo agradecendo pelo dia que eu tive e eu acordo comemorando que eu estou viva, que eu vou ter mais um dia. Eu acho que a gratidão é a emoção mais importante. E hoje estamos estudando a gratidão, como faz bem imunologicamente para as pessoas. Então, continue grata, mulher, seja grata, isso é um santo remédio!