Milhões de eleitores vão às urnas neste domingo (2) e o processo eleitoral promete ser um dos mais complicados de todos os tempos, por conta da polarização. Ainda assim, existem muitos pontos positivos, como fortalecimento da nossa democracia, além do interesse de jovens pela política, que parece ter sido ampliado nos últimos anos.
Para falar sobre o tema Eleições, o Jornal Verdade traz uma entrevista com o historiador Jonas Marangoni, que entre outros pontos destacou a sua visão sobre o processo eleitoral e o amadurecimento da nossa democracia.
Confira:
Domingo é dia de eleição. No seu ponto de vista, como os eleitores chegam hoje às urnas?
Essa eleição é um pouco diferente para os brasileiros, ela marca uma polarização que veio aumentando nas últimas duas décadas, pensando que nós tivemos um longo período sem eleições presidenciais, elas voltam em 89, e aos poucos foi se criando uma polarização primeiro entre PT e o PSDB, e na última eleição essa polarização passou do PT contra o que chamamos de Bolsonarismo. Isso foi aumentando e nessa eleição a polarização é mais do que latente, inclusive com crimes sendo cometidos e pessoas brigando por causa dos seus candidatos. É uma eleição que tem muita tensão por trás, temos que tomar muito cuidado, não é legal para a democracia. Ver o inimigo político como uma ameaça, como algo que tem que ser exterminado é muito perigoso, é muito complicado quando se pensa o processo eleitoral assim. A democracia é feita de divergências, se não tiver o divergente, você deixa de ter a democracia, aí você passa a ter uma ditadura ou autoritarismo de um grupo, então ter pensamentos diferentes faz com que a democracia avance. Nessa eleição parece que as pessoas não estão muito interessadas em conviver com o diferente, cada um se fechou na sua bolha e passou a ver o diferente como um inimigo mortal. Essa eleição traz essa tensão, além de trazer uma outra tensão desnecessária, que é a dúvida que alguns colocam no sistema eleitoral sobre fraudes e outras coisas. Não é possível que uma pessoa que conviveu com a votação na cédula de papel ache que hoje o sistema é mais falho do que era naquela época. Tem muita gente que acha, e acha porque há muitos que querem isso. É muito complicado em um processo eleitoral o sistema só ser considerado válido se um candidato vence. Aí não precisa ter eleição, se um candidato necessariamente precisa ser eleito, então não é um processo democrático. Nós precisamos olhar com muito cuidado, não só o processo, mas o que vai ocorrer depois dele.
Hoje temos acesso à informação de uma forma muito fácil, temos os planos de governo dos candidatos, suas propostas, tudo na palma da mão. Qual a importância de nos interessarmos por estes materiais, de levarmos em conta o que eles trazem?
O político é o representante do povo, muitos se esquecem disso! Quando se elegem, eles acham que governam para si. Além disso, você não governa só para quem te elegeu, você também governa para quem não votou em você. Então é necessário que o político entenda aquela lógica aristotélica que o bom governo é aquele capaz de governar pensando no todo e não em apenas em uma parcela da população. É óbvio que a população tem que saber tudo sobre o político que ela vai votar e também tomar muito cuidado. As vezes a gente esquece, mas para essa eleição são cinco votos. Muitos ficam focados nas eleições majoritárias e se esquecem das eleições proporcionais que são para para deputado, então você não tem que ter o interesse apenas para o seu candidato a presidente, o Legislativo também faz parte do governo, ele é responsável por criar leis, por fiscalizar o presidente, o governador. Você tem que conhecer o seu candidato, o que ele pensa, qual a pauta dele, se você se identifica com aquela pauta. Depois você tem que saber que tem que cobrar esse seu candidato caso ele se eleja, não está assinando um cheque em branco para o seu candidato, para ele chegar lá e fazer o que ele bem entender. Para evitar surpresas, é melhor primeiro você conhecer e mesmo assim se ele não cumprir com aquilo que prometeu aí está na hora de cobrá-lo e na outra eleição não votar mais. Entendeu? As pessoas confundem muitas vezes política com futebol. No futebol você se apaixona por um clube, por um time e vai até a morte com ele. Na política não pode ser assim. O político tem que ser observado e julgado por aquilo que ele faz e a população tem que ser coerente também nessa hora. Não adianta só cobrar coerência do político. Além disso, é necessário descobrir se aquilo que ele quer está apto paro o cargo dele, porque muitas vezes o candidato a presidente fala de coisas relacionadas ao Legislativo e vice-versa, então não dá. Cada um tem o seu cargo e as suas funções.
Os jovens são um grande desafio para os políticos, principalmente aqueles que podem escolher votar, os de 16 e 17 anos. O que pode explicar esse fenômeno dos jovens se interessando pela política?
O fenômeno do número de jovens tirando o título de eleitor é muito bom, ver jovens querendo participar da política, isso é algo incrível, tem que continuar sendo incentivado. Nós somos seres políticos, nós precisamos da política, é ela que organiza a nossa vida em sociedade, nós necessitamos ter políticos que nos representem e representem as nossas ideias. Então, quando um jovem tira título de eleitor, mesmo não sendo obrigatório, e vai votar isto é muito bom no processo democrático. Mas no Brasil o número de jovens que estão tirando o título está muito ligado a esta polarização, ou porque querem muito eleger alguém ou porque querem muito que alguém seja derrotado. Que bom que os jovens entenderam o momento de polarização e resolveram também participar do processo. Porque não adianta nada você reclamar e não participar, a tendência é que aumentando a polarização vai aumentando ainda mais o número jovens.
Os votos brancos, nulos, as abstenções também foram grandes nos últimos anos. Isso é preocupante?
O voto branco e nulo são votos inválidos, ou seja, na hora que computar os votos eles são descartados. Então por exemplo, voto branco e nulo tem o mesmo resultado para a eleição que a abstenção, ou seja, quem não vai votar. Esse voto não vai para nenhum candidato, não existe isso que se você votar branco ou nulo o seu voto vai para o candidato que está em primeiro lugar, na verdade ele é descartado, ele não faz parte do processo. É óbvio que as pessoas fazem campanhas para que a população não vote em branco e nulo, mas não adianta querer convencer através de uma mentira, você tem que explicar que ela tem sim que votar e escolher alguém que vai representá-lo e se ela não escolher ninguém ela pode ficar sem essa representatividade. Mesmo assim quem vota branco e nulo pode cobrar, exercer a sua cidadania, até mesmo porque os votos brancos e nulos estão previstos na lei, faz parte do processo. Conceitualmente o voto branco é quando você não concorda com nenhum dos candidatos que ali estão disputando o pleito, já o voto nulo seria um voto para quem não concorda com o processo eleitoral. Então o voto nulo seria um voto mais radical que o voto em branco. Lá na urna tem a tecla para você apertar caso você queira votar em branco, o que mostra que é legítimo processo, porém é um direito do cidadão não escolher nenhum dos candidatos.
A nossa democracia está amadurecida? Ainda temos o que avançar?
Então, eu acreditava até pouco tempo atrás que sim, que afinal nós tivemos um processo de transição pra democracia em 85, então já faz mais de 37 anos. Já tivemos vários presidentes eleitos nesse período. Nós já tivemos teoricamente então nove processos eleitorais desde a redemocratização, então é algo até novo na nossa história, é o maior período que nós tivemos de eleições no período moderno para Presidente do Brasil. Então teoricamente, sim, estamos bem amadurecidos e a democracia é muito forte no país, mas nos últimos anos começou aí um discurso de pessoas falando de intervenção militar novamente, falando de fechar Congresso, fechar o Supremo Tribunal. Tudo isso são medidas inconstitucionais, tudo isso vai contra a democracia, então eu vejo que há um retrocesso dentro do nosso processo democrático, infelizmente. Algumas pessoas se beneficiam desse retrocesso e muita gente serve como massa de manobra dentro desse processo para legitimar certos candidatos e certos resultados que possam ocorrer nas eleições, então eu particularmente estou muito desencantado e triste com os brasileiros que acreditam que a solução para o país segue esse caminho que não o democrático. Não adianta ter um discurso falando que não tem que seguir a Constituição e na prática você não querer seguir a Constituição. A Constituição é muito clara em relação a divisão dos poderes, o Presidente da República não é imperador, ele não tem poder absoluto, ele não tem poder moderador. Então o papel do presidente é simplesmente o Executivo, ele não pode fugir disto. Então as pessoas têm que tomar muito cuidado com esse tipo de discurso, e também muito cuidado com o discurso a respeito de suspeitar de fraudes eleitorais. Como eu disse, nós tivemos aí, no caso, foram oito eleições para presidente, porque a primeira do Sarney foi indireta, mas você teve oito eleições. Todo mundo sempre aceitou o resultado, os políticos que estão lá, todos eles foram eleitos deputados, senadores, governadores e o presidente dentro desse sistema. O sistema é confiável a auditoria, há como a gente averiguar se houve alguma fraude ou não. As urnas são confiáveis. Então esse tipo de discurso não cabe em 2022.
Quais os principais desafios que os governantes eleitos vão enfrentar em 2023?
Sem dúvida alguma o principal desafio para quem for governar o país vai ser pegar um Brasil dividido, isso é terrível. E nos últimos anos, nas últimas eleições eu acho que a partir da eleição de 2014, isso foi muito latente, uma divisão muito clara entre grupos e o presidente, o próprio Congresso tendo muita dificuldade em caminhar entre esses grupos de uma forma eficiente. As pessoas têm muito essa visão, que se o meu candidato ganhar eu estou bem, se ele perder o outro não me representa. Então acaba gerando uma divisão que atrapalha o próprio desenvolvimento do país. A questão é a seguinte, você tem um lado, o outro tem outro lado, mas a partir do momento que alguém é eleito, todo mundo tem que fazer o máximo possível para que seja um bom mandato, para que as coisas funcionem, para que o país funcione, e isso não parece acontecer no Brasil. Além dessa questão política, o próximo presidente vai pegar uma crise econômica que já vem aí há um bom tempo, mas que piorou muito nos últimos anos. O Brasil voltou ao mapa da fome, sim, existe brasileiro passando fome e não adianta querer falar que não. Então nós vivemos um momento de turbulência, mas existem turbulências externas, teve a pandemia, teve a guerra na Ucrânia e, sim, isso faz parte do processo, mas cabe aos nossos políticos tentar resolver da melhor forma possível. Não adianta falar que todo o problema está fora e aqui não agir. Então o próximo presidente terá que ter uma política econômica especial, principalmente em relação à fome e ao desemprego, à desvalorização do dinheiro, à desvalorização do real, que faz com que tudo esteja caro e que o salário acabe antes do mês. Isso é muito comum hoje no Brasil, mas eu espero que, independentemente de qualquer resultado, quem estiver lá,
consiga entender o momento e fazer o melhor para o nosso país, sendo ou não quem votamos e quem gostamos, o importante é um país melhor.