No mês dedicado à inclusão social de pessoas com deficiência – Setembro Verde, a APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de Franca se destaca nos serviços oferecidos com esse objetivo. Um deles é o Emprego Inclusivo, programa que visa a facilitar a entrada e permanência das pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho.
Nesta entrevista, Vanessa Tristão, assistente social na APAE de Franca desde 2013, explica como funciona o programa, as conquistas e transformações de vida que tem possibilitado. Em julho deste ano, um dos participantes do Emprego Inclusivo que trabalha em uma empresa de cosméticos e cuida de outros dois irmãos com deficiência, conseguiu comprar a casa própria. “Ficamos por quase cinco anos vivendo o sonho dele… Foi muito gratificante participar desse processo e vê-lo concluído.”
Vanessa, como surgiu seu interesse em se tornar assistente social?
O interesse em me tornar assistente social surgiu no final do ensino médio, quando a gente começa a pensar no futuro profissional. Conheci algumas profissões, tinha uma familiar assistente social, me aproximei de suas experiências e vi que era aquilo que gostaria de fazer. Trabalhar em busca de um mundo com mais justiça e equidade social.
Quais experiências você tem nessa área?
Minha primeira experiência profissional foi como Conselheira Tutelar em Franca, de 2004 a 2010. Em 2011 e 2012, trabalhei como secretária de assistência social em Claraval. Entrei na APAE de Franca em janeiro de 2013. Desde este ano, também represento a pessoa com deficiência no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Franca. Assumi a presidência do Conselho em agosto de 2022. Atuei como coordenadora do Fórum Municipal de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil de Franca de 2016 a julho de 2022. Tanto a representação do Conselho, como no Fórum são atuações não remuneradas. É o trabalho da participação social na organização e controle das políticas públicas. Em novembro, termino o mestrado em serviço social pela UNESP de Franca.
São quase dez anos como profissional na APAE, que experiências marcantes você pode compartilhar deste período?
São várias experiências marcantes, tristes também. Mas em relação ao mercado de trabalho, recentemente vivenciamos a emoção de uma pessoa com deficiência ter conseguido comprar sua casa própria. Ficamos por quase cinco anos vivendo o sonho dele. É um jovem que trabalha na MSA Cosmetics, tem outros dois irmãos que vivem com ele e também têm deficiência e sem condições para o trabalho. Ele sempre foi muito preocupado em cuidar da mãe e dos irmãos. Fizemos uma poupança, guardávamos o dinheiro mensalmente. Depois de três anos, com auxílio do FGTS e desta poupança, conseguiu dar entrada e financiar a casa. Essa casa foi entregue para ele em julho. Agora vamos trabalhar na ampliação desse imóvel, com adaptações para ter acessibilidade, de acordo com as necessidades do seu irmão e em breve a família se mudará. Foi muito gratificante participar desse processo e vê-lo concluído.
A APAE de Franca desenvolve um papel muito importante para seus usuários através do programa Emprego Inclusivo. Como funciona esse projeto?
Nós atendemos as pessoas desde criança e, quando estão ali acima de 14, 16 anos – com 14 anos pode ser Jovem Aprendiz e acima de 16 pode trabalhar -, já começamos a identificar, preparar os meninos para o trabalho, através de oficinas que acontecem dentro dos serviços socioassistenciais da APAE.
Desde quando existe esse programa, quantas pessoas já atendeu e quantos usuários estão participando atualmente?
Já faz uns dez anos que temos aprimorado esse atendimento. Já passaram por aqui mais de cem atendidos. Hoje nós estamos com 68 atendidos e, desses 68, apenas 12 estão procurando trabalho. Os outros estão empregados.
E qual o perfil desses participantes?
Não tem um perfil específico, são todas pessoas com deficiência intelectual e eles têm habilidades diferentes. Como todos nós, têm as dificuldades e as habilidades de maneiras diferentes.
E em que tipos de empresas eles estão empregados?
Hoje temos bastante contratados na indústria de calçados, mas este ano foi um ano que conseguimos colocar muitos em farmácias, empresas de cosméticos, supermercados e varejões da cidade também.
Normalmente, eles assumem quais funções nesses estabelecimentos?
São diversificadas, desde a parte de produção, da recepção, do almoxarifado, da limpeza. Até mesmo atendendo em serviço de atendimento ao consumidor, no SAC.
E como se dá a participação das empresas nesse programa?
As empresas entram em contato conosco, falam que precisam cumprir a cota da pessoa com deficiência, e avisam quais são os cargos disponíveis. E nós, sabendo desses cargos, vamos olhar para o nosso público aqui e fazer o encaminhamento daquela pessoa que tem compatibilidade para com a vaga oferecida.
A gente percebe que é um programa que vai muito além do cumprimento de cotas. Quais são os benefícios para os participantes, para a empresa e para sociedade?
É, na verdade são todos mesmo (que ganham). A empresa vai levar para dentro de seus limites todo o mundo da pessoa com deficiência, ela vai ter condições de trabalhar as questões diversas, de responsabilidade social, do acolhimento, do que é diferente. A pessoa com deficiência, como todos nós, se organiza muito através do trabalho. É através do trabalho que a gente consegue projetar a nossa vida, fazer planos, poder comprar algum apartamento, um carro. E eles (pessoas com deficiência) não são diferentes. Então, o emprego possibilita essa autonomia e, principalmente, a questão de eles terem perspectivas. Nós levamos para eles essa questão de futuro e a sociedade como um todo, porque a gente, empregando pessoas com deficiência, está desenvolvendo a economia da própria cidade, que são pessoas que vão trabalhar e que também vão poder consumir. Então, são para toda a sociedade os benefícios.
As empresas que tiverem interesse em aderir ao programa Emprego Inclusivo da APAE devem proceder de que maneira?
Elas podem procurar a APAE de Franca, o serviço da assistência social, que nós fazemos o acolhimento da empresa. Lembrando que nós fazemos a seleção, a contratação e o pós-contratação. Todo o tempo em que ele estiver empregado, nós vamos fazer o acompanhamento e essa pessoa vai contar com todos os serviços da APAE, inclusive os de saúde também.