Nelise Luques
Formado em administração pública e pós-graduado em Gestão de Negócios, Giuliano Bittencourt, de 31 anos, passou da atuação no governo de Minas Gerais a fundador da primeira fazenda urbana da América Latina de maneira inesperada.
Como ele mesmo costuma frisar, não tinha experiência no setor de agricultura e nem histórico de produtores na família, mas após conhecer o modelo de cultivo de alimentos dentro das cidades em uma viagem aos Estados Unidos, se estruturou, buscou conhecimento na área e fundou a BeGreen, em 2017.
Atualmente, a empresa, da qual é fundador e CEO, possui oito fazendas cultivando hortaliças, legumes e frutos em shoppings centers e fábricas em grandes centros urbanos do Brasil.
Giuliano, natural de Divinopólis (MG), esteve em Franca na última semana para apresentar o trabalho de sua empresa durante o Agenda, no Hotel Dan Inn; o evento é organizado pela Oceano Azul Eventos. Ele palestrou sobre o tema “Fazendas urbanas e seus impactos positivos na produção de alimentos no mundo”.
Em entrevista exclusiva ao Verdade, Giuliano Bittencourt compartilhou as experiências com a produção sustentável de alimentos nas fazendas urbanas, como nas unidades do Boulevard Shopping, de Belo Horizonte, e da fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo. Giuliano falou também sobre os planos de avançar com a produção para o interior de São Paulo, inclusive na região de Franca.
Giuliano, como surgiu a ideia de investir em fazendas urbanas no Brasil, com produção de hortaliças dentro de shoppings e até fábricas?
Sou de uma família de empreendedores, não sou formado em agricultura, não sou agrônomo, não venho de uma família produtora, sou formado em Administração Pública e, durante dois anos, atuei no governo de Minas Gerais como empreendedor público, fazendo um projeto de inovação e startup. Logo depois que eu saí, conheci sobre fazendas urbanas nos Estados Unidos, então resolvi montar a BeGreen, que é a primeira fazenda urbana da América Latina.
Quando foi isso? E detalha para a gente como foi esse primeiro contato com uma fazenda urbana.
Isso foi em 2014, eu estava no MIT, vendo tecnologias variadas e vi uma tecnologia também de fazendas urbanas. Lá eu tive o primeiro contato com o que é a tecnologia de fazendas urbanas, de controle de produção, de controle de cultivo e de produtividade dentro da cidade. E aí em 2015, eu não tinha nenhum contato com agricultura, fui para uma fazenda convencional, para produzir e entender sobre a tecnologia, entender sobre o mercado, entender sobre a cadeia produtiva, para então, em 2017, ter know how suficiente para abrir a primeira fazenda urbana da América Latina.
E hoje a BeGreen está com oito fazendas. Como está o trabalho atualmente?
Hoje a gente tem 23 mil metros quadrados de produção espalhados por oito cidades: Salvador, São Paulo, Goiânia, Osasco, São Bernardo do Campo, Campinas, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A grande maioria do que a gente produz são folhosas, então são alfaces variadas, rúcula, agrião, e também frutos e legumes, como tomate, pimentão, berinjela, abobrinha, isso tudo dentro de estufas controladas. Hoje nós somos 92 pessoas na BeGreen, espalhadas por oito cidades, no escritório, dando apoio às fazendas, ou nas fazendas, cultivando a hortaliça.
Giuliano, quais são as vantagens de se ter uma fazenda dentro de um shopping, dentro de uma empresa e com produtos que são saborosos, como você disse?
A vantagem é que a gente reduz o desperdício e aumenta o frescor dessa hortaliça. Hoje, quase 70% de tudo que é produzido acaba no lixo, seja por perda ou por desperdício. Quando a gente traz uma fazenda para dentro da cidade, a gente reduz esse desperdício a 2%. E entrega para o consumidor final no mesmo dia que é colhido. Ou seja, entrega um produto muito mais saboroso, porque o frescor traz sabor e aí aumenta a qualidade da alimentação das pessoas.
Você citou na palestra o exemplo da fazenda montada dentro da Mercedes-Benz, em que os próprios colaboradores consomem. Para quem vocês fornecem, quem mais compra os produtos das fazendas urbanas?
A gente entrega para indústrias, a gente constrói fazendas dentro das fábricas, entrega para elas, também a gente entrega para restaurantes dos shoppings centers onde a estamos localizados e a gente tem uma assinatura para quem quer consumir na sua casa, receber uma hortaliça fresca, saudável, uma vez por semana. Então, são esses três canais de venda que a gente tem.
Você comentou que os produtos têm um sabor diferenciado, quais as características mais marcantes do que produzem nessas fazendas dentro das cidades?
A gente só produz hortaliça baby; a gente importa semente da Holanda e produz a hortaliça de maneira que ela fique baby, ou seja, você não precisa cortar para comer, mantendo 100% das características da planta, das fibras, e também, quando a gente colhe e entrega no mesmo dia, não tem um processo de perda por apodrecimento, a planta chega praticamente viva na sua casa, realçando o sabor, seja ele na crocância, seja ele na maciez. Eu brinco que alface tem tipos e tipos, então tem alface mais crocante, tem alface mais macia, tem alface mais crespa, bem como rúcula mais forte, rúcula mais fraca, agrião mais forte, agrião mais fraco. E a gente costuma produzir muitas outras hortaliças que não são comuns ao brasileiro, como a couve-mizuna, que é uma couve japonesa, a gente produz também mostarda chinesa, e assim a gente convida o nosso cliente a descobrir novos sabores.
Elas não têm sabor ‘artificial’?
Não tem. A planta cresce muito mais saudável. A gente tende a achar que é algo artificial, mas não é, porque a gente usa a luz solar, utiliza os mesmos nutrientes que estão na terra, mas dissolvidos na água, então não tem o que se falar de artificialidade. E mais do que isso, é uma segurança muito grande alimentar, porque você não vai ter contaminantes, tem a garantia de não ter contaminantes na planta, pragas, resíduos de agrotóxicos, porque a gente não utiliza agrotóxico.
Qual é a produção atual de vocês nas oito unidades e quais os planos de expansão?
A gente produz mais de 40 toneladas por mês hoje. A gente abre mais duas unidades esse ano no Estado de São Paulo, uma em São Paulo capital e outra em Jaguariúna. E ano que vem, a gente tem mais quatro unidades planejadas para serem abertas. Neste ano, uma das fazendas será dentro de fábrica e pela primeira vez a gente vai fazer uma fazenda fora de shopping e de indústria, na rua, na Marginal Pinheiros, para atender a grande demanda de São Paulo por produtos saudáveis, sustentáveis e perenes.
E as pessoas vão poder chegar e comprar direto ou vai ter venda online?
A gente vai vender, continuar vendendo nas nossas fazendas dentro de shoppings. Todas as nossas fazendas dentro de shoppings são abertas ao público e a gente convida todo mundo que for ou para São Paulo, Campinas, Salvador, Goiânia, BH ou Rio, para conhecerem a nossa produção.
Giuliano, você comentou sobre os pilares do Fórum de Desenvolvimento Econômico. Qual a sua visão sobre os eixos que ele destaca?
Acho que o mundo está numa transformação para ser um mundo mais sustentável, porque a gente sabe que se a gente não for mais sustentável, não vai estar aqui daqui uns cem anos, porque a gente vai ter consumido todos os recursos naturais da terra. E é isso que o Fórum Econômico Mundial traz quando ele traz a política de economia de stakeholders. O que isso quer dizer?Na economia, você tem que olhar para todos os principais atores que você tem contato, sociedade, governo, acionista e aí você começa a entregar uma empresa que é sustentável a longo prazo. Eu costumo dizer que a sustentabilidade não é abraçar árvores, sustentabilidade é você ser perene durante o tempo que você tiver de existência. E para você ser perene nesse mundo, você vai ter que ser mais sustentável no meio ambiente, mais sustentável com a sociedade e olhar para outros atores que você impacta na sua empresa. Por isso, o Fórum lançou um material que contempla quatro pilares, que são a governança, pessoas, prosperidade e planeta. E o planeta é sustentabilidade, a governança é como você interage com os stakeholders, os acionistas, o governo e a sociedade. As pessoas, sem elas, não há desenvolvimento. E a prosperidade, a gente só está aqui para fazer um mundo mais próspero para as pessoas. Então, esses quatro pilares são basicamente os três pilares do ESG, Environmental , Social and Governance, que é Meio Ambiente, Sociedade e Governança Corporativa. É uma engrenagem e sem esses quatro pilares ou os três pilares do ESG, ou se você considerar as dezessete métricas da ONU e dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), a gente não vai ter um mundo mais sustentável.
Outro dado importante que você nos apresentou é que a gente utiliza atualmente de recursos naturais o equivalente a 1.3 terra e até o final do ano esse número deve avançar para 1.8. No seu ponto de vista, como frear isso e reverter essa situação?
É, a gente precisa frear isso reduzindo a emissão de gases de efeito estufa. É muito mais complexo do que eu estou explicando aqui, mas existe um projeto com dez diretrizes de como a gente vai atingir uma terra mais sustentável. Por exemplo, através da redução de foodways; a redução de desperdício de alimentos retiraria 1 gigatonelada de CO2 da atmosfera, melhorar o cultivo e a produtividade no solo, no campo, retiraria 2 gigatoneladas de CO2 do planeta. São várias ações que em conjunto vão fazer com que a gente seja mais sustentável, reduzindo a emissão de CO2 e reduzindo o consumo de recursos naturais da terra.
Outro ponto importante é a parte da educação, o que você destaca do trabalho da empresa feito através de visitas guiadas com crianças?
Dentro das nossas fazendas, a gente tem um programa de Educação Ambiental para crianças. Então, a gente ensina tanto sobre sustentabilidade, quanto sobre saudabilidade e produção sustentável. E aí, as crianças passam por um espaço onde elas brincam e aprendem sobre cultivo, sobre resíduo, sobre ciclo da água, em um outro espaço elas aprendem o que elas estão aprendendo na escola, mas de maneira lúdica e divertida, dentro do nosso laboratório, e obviamente entram dentro da estufa e colhem um pezinho de alface. E ao colher o pezinho de alface, elas são introduzidas a uma alimentação saudável, porque eu costumo brincar que a gente quando é criança tem pavor do pai mandar na gente. Então, o pai fala ‘come folha, come isso, come aquilo’, e não funciona. Mas quando a criança tem esse contato com o alimento e ela mesma colhe as hortaliças, ela se sente pertencente, ela sente que aquilo é dela e ela sentindo que aquilo é dela, ela quer comer e é introduzida a alimentação. Nós temos uma meta de impactar cinco milhões de pessoas até 2024.
Quais os trabalhos que vocês gerenciam na região?
A gente tem uma fazenda em Campinas, que é a mais próxima aqui de Franca e a gente está estudando vir para mais interior de São Paulo. Hoje, a gente tem já as oito fazendas, a gente chega a dez e quem sabe, no futuro próximo, ano que vem, a gente esteja por aqui.


Uma das fazendas da BeGreen fica no escritório do IFood, em Osasco | Foto: Divulgação BeGreen