Nelise Luques
A médica Renata Camila Barros Rodrigues, de 37 anos, atuou na linha de frente nos hospitais de Franca durante a pandemia da Covid-19.
Renata é mãe da Catarina Rodrigues Braga, de 5 anos, e pelo risco de contágio da doença, precisou se afastar da filha e também dos seus pais e avós durante três meses. Ela se isolou na edícula da casa onde vive com a família. “Recordo de observar minha filha brincando no quintal durante o dia.”
Ao compartilhar a experiência vivida pela médica Renata Camila como profissional e mãe que lidou diretamente com pacientes com Covid, o Jornal Verdade quer homenagear todas as equipes de saúde que se desdobraram para salvar vidas, mas para isso precisaram conviver com muitas renúncias. O isolamento dos filhos foi uma delas. Desejamos que este Dia das Mães de 2022 seja mais leve para todos!
Dra. Renata, você atuou durante a pandemia no Hospital do Coração, Hospital São Joaquim e no hospital de campanha no AME. Como foi passar por esse momento, na linha de frente dos atendimentos aos pacientes com Covid?
Desafiador. Não sabíamos o quão grave era a situação, mas sabíamos que estávamos em risco. Lembro-me muito bem da primeira reunião de planejamento de estratégia de atendimento contra a Covid e assim que cheguei em casa me isolei fisicamente da minha família em um edícula que tínhamos no nosso terreno. Morava com meus avós, meus pais e minha filha e eu estava extremamente preocupada em ser meio de transmissão de uma doença que poderia ser fatal e não sabíamos o tratamento e se haveria cura. Vivemos um período de muitas incertezas, tivemos que nos isolar, inclusive de familiares, por conta do risco de contágio.
No caso de vocês, profissionais da saúde, a situação foi mais delicada ainda, porque existia a certeza de que vocês estavam com pessoas que testaram positivo, ou seja, em contato com o vírus. Como foi passar por essa fase da pandemia?
Até hoje não positivei para Covid, contudo, lembro-me que permaneci três longos meses afastada fisicamente dos meus familiares. Recordo de observar minha filha brincando no quintal durante o dia. Não a beijei e não a abracei por esses três meses, até hoje criei o hábito de sair do carro e por fora da casa, retirar a roupa e o calçado oriundos do hospital e após tomar banho ter contato com minha família. Sinto-me mais segura.
Como foi essa rotina de cuidado sem encontrar sua filha?
Por três meses não entrei dentro de casa, permaneci apenas no cômodo fora de casa, que possui banheiro e uma cozinha.
O que vocês explicaram para a Catarina sobre o seu isolamento? E ela compreendeu?
Eu via a Catarina no quintal e ficava de longe vendo-a pular no pula pula, mas não entrava dentro de casa e não dormia com ela. Eu dizia que tinha um bichinho, o coronavírus, que a mamãe estava lutando contra e que podia fazer mal pra Catarina e para o vovô, a vovó e para o biso. E ela ficava preocupada comigo, e eu dizia que a mamãe estava se protegendo e por isso era importante usar o álcool gel e a máscara.
Essa foi a parte mais difícil da pandemia para você?
Sim, o início foi muito ruim, pois eu estava apavorada e não sabia sobre a transmissibilidade e a gravidade da doença. Teve outro período mais crítico em que vi muitas pessoas morrerem por falta de dificuldade de atendimento e pela gravidade da doença.
Como conseguiram superar esse período?
Com muita oração e através da mentalização da possibilidade de poder ajudar as pessoas através da minha profissão. Também estive disposta em dividir com outros colegas e treinamos quase 150 colegas médicos e enfermeiros sobre as estratégicas do enfrentamento e segurança nos atendimentos contra a Covid através do nosso Centro de Treinamento do Uni-Facef.
Você se lembra qual foi a primeira coisa que você e sua filha fizeram juntas quando puderam se reencontrar?
Muitos abraços e muitos beijos.
Costumo dizer que a maternidade é a coisa mais linda e desafiadora da vida. Como você conseguiu administrar o papel de mãe, especialmente durante a pandemia, por todo estresse e exaustão que o cenário provocou?
Tentei ter tempo de qualidade, pois apenas uma noite por semana eu dormia em casa. Durante as noites estava no atendimento contra a Covid e, durante o dia, mantendo os atendimentos e as cirurgias de urgência da minha especialidade de angiologia e cirurgia vascular.
Vemos sinais de que a pandemia caminha para o fim. O que você, sua família, sua filha e seus colegas de profissão vivem neste momento.
Alívio e muito aprendizado, além de sensação de dever cumprido.
Como foi o seu o Dia das Mães em 2020 e 2021? Neste ano vai ser diferente?
Costumo dizer que não podemos perder oportunidade e sou essa pessoa. O melhor copo e o melhor prato usamos todos os dias, não esperamos ocasião especial. Se eu vou em uma loja e gosto muito da roupa, já saio da loja vestida com a roupa nova. Portanto, eu e minha filha fazemos e tentamos nos organizar para termos nossos momentos “mamãe-filhinha” (como chamamos) através de um momento tomando um sorvete ou passeando no parque.
Dra. Renata, tem alguma informação que você gostaria de acrescentar?
Sim, dizer para as pessoas: Viva o hoje intensamente, planejando o futuro! E não espere ocasiões especiais para ser feliz!
