Fernando Lima
O Jornal Verdade traz hoje uma entrevista com a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Maria Izabel Noronha, ou simplesmente Professora Bebel. A parlamentar foi eleita em 2018, com mais de 87 mil votos. Ela preside a Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa, além disso preside o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo.
A entrevista foi concedida durante uma visita ao Jornal Verdade, a deputada falou especialmente sobre educação, os desafios da pasta e também das expectativas para o futuro.
Confira:
O que a senhora acredita que a pandemia trouxe de prejuízo para os alunos, para a educação?
A pandemia foi na verdade um advento, que revolucionou tudo, então de certa maneira tivemos que quebrar muitos paradigmas, tabus. Só que a rede pública estadual não estava preparada para virar a chave e transformar todas as aulas em online, então, os estudantes pagaram o preço. Nós vivemos uma educação a lá Dom Sexto, com lousa, giz e apagador, na era digital. Quando veio a pandemia óbvio que o correto era se virar com a ferramenta que tínhamos, a rede de internet, que deveria ter banda larga, enfim, os alunos deveriam estar já com acesso e o professor também, mas não foi o que aconteceu. O que vimos foi que os professores cederam os seus equipamentos para poder garantir as aulas, foi isso que aconteceu, sem nenhum apoio do Governo do Estado de São Paulo. No meu mandato você pode ver, tenho projetos pedindo para comprar computadores, para tentar mudar isso. Em um universo de 3,7 milhões de alunos, somente 1.5 milhão tiveram acesso, dois milhões e duzentos mil ficaram para trás.
Como reverter todo este prejuízo para educação?
Primeiro que a secretaria estava fazendo um jogo de braço para voltar aulas de qualquer maneira em plena pandemia, mas quando voltou a secretaria não apresentou um plano para a retomada, um plano de mutirão por exemplo. Precisaria desse plano, contratar mais professores, trabalhar com protocolo de menos alunos para poder repensar se esta forma de organização curricular está correta, mas isto não foi feito. Na minha opinião, o Secretário da Educação atendeu somente aquele movimento das madames, do chamado escolas abertas. Mas não atendeu os filhos e filhas da classe trabalhadora que são os que tão nas escolas públicas, para ter acesso a esse conhecimento. Não vamos dizer que os estudantes não aprenderam nada durante a pandemia, eu não acho isso, mas é necessário recompor, dar acesso a esse conhecimento que não foi dado durante a pandemia. Para isso era preciso que o governo contratasse mais professores, que a gente trabalhasse numa perspectiva de ter uma nova organização curricular, de tal maneira que a gente conseguisse até inovar.
As mudanças que queremos no Brasil passam pela Educação, assim como em qualquer outro país do mundo. Entre as medidas está a valorização dos professores. Como profissional da educação, como é que a senhora enxerga a valorização destes profissionais no Estado de São Paulo?
Foi a tacada final do governador e do secretário da Educação, essa farsa de carreira, que na verdade é subsídio, quem tem subsídio é vereador, prefeito, funcionalismo público na sua totalidade tem que ter plano de carreira. O que eles fizeram foi o desmonte da carreira no estado de São Paulo. Era uma carreira boa? Não, não era, mas ela tinha que ser melhorada! Se investiu três bilhões e setecentos milhões para desmontar, por que não investiu esse dinheiro para melhorar, para diminuir o número de alunos em salas de aula, para diminuir a jornada do professor, pelo contrário, essa carreira ou esse subsídio, vai na verdade significar que o professor fique 14 horas a mais dentro da escola. Em segundo lugar foi desmontada a forma de valorização por tempo de serviço, o direito que nós tínhamos por lei eles revogaram. É o tempo de serviço que agrega conhecimento, no primeiro dia de aula por exemplo, você prepara uma aula chaterna, tudo dentro do script, você não tem ainda aquela autonomia intelectual, você vai vivenciando, amadurecendo. Quando você retira isso do plano de carreira, você empobreceu a educação, porque para ter reajuste os professores de dois em dois anos vão passar por prova. Tem ainda a questão do direito a falta médica, para mim está incentivando que o professor falte o dia todo, porque agora se você faltar meio período, o desconto vai ser integral, não faz sentido. Tiveram um olhar muito empresarial na educação, e escola não é empresa. Em empresas você produz coisas, em escola você forma pessoas, cidadãos e cidadãs. O secretário não entende nada de educação, ele foi ministro, porém em um governo sem legitimidade.
Qual a sua expectativa para o processo eleitoral deste ano?
Todo ano que temos processo eleitoral a gente se depara com um desencanto da sociedade. A população entende que não tem que se importar com votação de deputado, como tanto faz. Tem que parar com isso, não é tanto faz. Temos que lembrar que um projeto de lei por exemplo, é do executivo, mas quem avaliza, quem vota é o legislativo. É necessário ter essa clareza, sobre eleger uma bancada de deputados estaduais junto com governos progressistas, para gente mudar. É necessário ter um equilíbrio. Mas eu estou sim muito esperançosa, de que teremos mudanças para melhor.
Uma questão que é um grande desafio e que se tornou ainda maior durante a pandemia, é sobre a evasão escolar. A senhora é profissional da educação, o que quem está acompanhando a gente, pode esperar da sua parte para resolver, ou ao menos amenizar este problema?
Acredito que a gente vem sofrendo isso há um tempo. Primeira questão é que nós temos um projeto de exclusão escolar que é chamada PEI, tirando os estudantes trabalhadores da escola e a colocando em tempo integral. Então quando você pega o ensino médio e este menino e esta menina contribuem com o orçamento em casa, tem que rever isso. A solução é bolsa de estudo? Talvez sim! O maior gargalo da evasão escolar está no ensino médio, então tem que pensar nessa faixa etária, tanto quanto se pensa nas anteriores. Temos que pensar em um projeto em que o aluno trabalhe e estude, é isso! Não adianta, não tem como fugir disso. Nós queríamos, mas não mudamos a situação socioeconômica do país. Se tivéssemos a joia do pré-sal, sabe o que teríamos? A soberania do país, porque para mim, a verdadeira soberania nacional é um povo educado. Então diante isso, criar um plano nacional de educação, que aborde isoladamente os problemas, como a evasão. É necessário um projeto de real inclusão educacional e social, pensando conjuntamente o regime de articulação entre união, estados e municípios para sairmos desta fase, porque ao contrário, isoladamente, não se resolve nada.
O que a senhora pensa sobre as mudanças recentes na educação, especialmente no ensino médio?
Quando se fala em gestão escolar, a gente entende que existem gestores autoritários e também gestão democrática. Para nós a implantação de uma gestão democrática em escolas é algo vital. Primeiro se discute as necessidades, sobre o protagonismo juvenil que está em falta. Falar que um menino vai poder escolher o que estudar, abordar só o que ele gosta, para mim isso é retirar qualquer oportunidade de você ter desafios na vida. Se você não gosta de geometria, não gosta de geografia, ou não gosta de outra matéria, aí que você tem que estudar, porque lá fora a vida não é feita apenas do que gostamos. Isso é uma falsa emancipação, ela se dá de fato quando você fortalece essa educação básica com qualidade, não é só quantidade, é qualidade.