O empresário e cafeólogo Edgard Bressani, natural de Ribeirão Preto, assumiu em março deste ano a presidência da AMSC (Associação dos Produtores de Cafés Especiais da Alta Mogiana). A região abrange 23 municípios e 5 mil produtores.
Bressani tem larga experiência no setor cafeeiro, tendo sido o primeiro brasileiro a ser certificado internacionalmente para fazer parte do corpo de juízes do WBC – World Barista Championship.
O executivo começou a trabalhar com cafés em 2001, é fundador da exportadora Latitudes Grand Cru Coffees e destaca a atuação – e inovações de sucesso – na fazenda da família Quércia, em Pedregulho. Nesta entrevista ao Verdade, Bressani compartilha suas impressões sobre a cafeicultura, os projetos da AMSC e experiências profissionais, além de comentar os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia e a excelência dos cafés especiais produzidos na região da Alta Mogiana. “Sempre brinco que tem que lutar muito para conseguir estragar um café produzido aqui na região. Nossas condições, como região, são maravilhosas para o cultivo do café”.
Edgard, em março, você assumiu a presidência da AMSC para o mandato de dois anos, quais são os principais objetivos da nova diretoria?
A Diretoria da AMSC tem muito claro que quer continuar focando e fortalecendo a promoção dos cafés especiais brasileiros da Alta Mogiana e de seus municípios nos mercados interno e externo. Este é um ponto muito importante no nosso planejamento de ações. O calendário de eventos aqui e fora do país traz muitas oportunidades de divulgação para os nossos associados. Mas é claro, para isso, precisamos de recursos e estamos trabalhando para poder plantar sementes que vão aos poucos se transformando. Dois anos voam! Na AMSC não há disputa por poder, o que é muito positivo. As pessoas que estão no Conselho e na Diretoria estão ali para ajudar. Então há uma sequência nas atividades. Isso é bacana e produtivo. Todos os diretores são pessoas muito ocupadas e, mesmo assim, interagem rápido para dar dinamismo e fazer acontecer. Estou muito satisfeito com o foco de todos. Como a gestão ia ser transferida bem próximo à realização do Fórum de Qualidade, um acompanhamento próximo foi feito com o presidente Márcio Palma e equipe para alinharmos o evento. Não vamos deixar o Márcio escapar! No bom sentido sempre! Ele continua apoiando e participando como outros presidentes que já tiveram suas gestões no passado. A ideia é sempre somar. A AMSC, diante de todas as dificuldades impostas pela pandemia, conseguiu passar por ela quase ilesa. Tivemos menos eventos e a incerteza acabou não atraindo novos membros, mas agora a situação já está ficando cada vez melhor e as pessoas retomando as rédeas de suas vidas e correndo atrás de oportunidades. Nossa região da Alta Mogiana compreende 23 municípios. Então é preciso ter um olhar para todos estes mais de 5 mil produtores e também para todos os outros associados de outros setores da cadeia. É preciso lembrar que reunimos produtores, cafeterias, torrefações, profissionais do café. Pensando em conquistar nossa Denominação de Origem, assim que possível (estamos batalhando por isso), queremos ao final agregar ainda mais valor para os cafés produzidos na região, promover o selo regional e nosso trabalho. Juntos somos mais. E com um número maior de associados vamos nos fortalecendo ainda mais como região. E eu vejo sempre como super positiva essa troca que acontece nas associações. Basta ver que estes membros que realmente compram a ideia e se aproximam vêm colhendo todos os anos melhores resultados. É preciso explorar nosso “savoir-faire”. Temos tradição secular. São mais de 200 anos de produção de café em um “terroir” nobre. Os cafés da Alta Mogiana são espetaculares. Também precisamos nos aproximar de empresas que têm um mesmo objetivo e que podem ser parceiras e apoiadoras de nossos projetos, criando espaços para ações conjuntas que tragam resultados para ambas as partes.
Neste ano, a associação realizará a 20ª edição do Concurso de Qualidade de Café da Alta Mogiana. O que está sendo preparado de especial para marcar os 20 anos do concurso e qual a importância de realizá-lo?
Comemorar 20 anos de trabalho nessa seleção incansável dos melhores cafés das safras é algo que precisa ser muito bem promovido este ano. Graças a Deus, já é possível organizar eventos presenciais de novo e, depois de dois anos, voltaremos a fazer um encontro presencial na cerimônia de premiação, com “cupping” dos melhores pontuados das categorias e ainda estamos trabalhando o leilão dos lotes e o formato desta edição do certame. Começamos a alinhar ideias e parcerias estratégicas já. Várias reuniões vêm acontecendo em diferentes frentes e um foco ainda maior será dado a partir de agora, que concluímos o nosso Fórum de Qualidade do Café. Todo um trabalho se iniciará com comitês que assumirão diferentes frentes dentro da organização do concurso. Como tínhamos pouco tempo entre a eleição e a data deste primeiro evento, ocorrido nessa semana, no dia 31, tivemos que trazer todo o olhar para o Fórum. Incrível como organizar um evento é uma tarefa hercúlea. Acredito que muitas pessoas desconhecem como é trabalhoso organizar algo com excelência. Mas estamos contentes. Tivemos mais de 300 participantes, um recorde. A programação foi estendida e os temas são muito atuais. Sem falar da qualidade do que os convidados têm para compartilhar.
Um dos focos da AMSC é fortalecer ainda mais a região como fornecedora de cafés altamente qualificados. Na gestão de vocês quais as principais ações para atingir esse objetivo?
A região da Alta Mogiana é reconhecida há décadas pela qualidade dos seus lotes. Os compradores internacionais sempre valorizaram a região. Naturalmente, o crescimento de outras regiões também levou o olhar de pessoas para as 33 regiões que temos no País. Mas nunca perdemos nossa importância. Os cafés da Alta Mogiana sempre bebem muito bem. Eu sempre brinco dizendo que tem que lutar muito para conseguir estragar um café aqui produzido. Nossas condições, como região, são maravilhosas para o cultivo do café. Temos altitude, boa topografia, amplitude térmica, solos incríveis. E o resultado é o sucesso que nossos cafés têm nas feiras internacionais. Um natural da Alta Mogiana tem uma doçura e corpo marcantes. Pode ser apreciado sozinho ou ainda fazer parte de blends. Mas todo este trabalho com os cafés especiais ao longo dos últimos 17 anos serviu para descobrir cafés incríveis e ajudou a trazer para o produtor um trabalho ainda mais minucioso para a manutenção da qualidade dos cafés produzidos. Um olhar mais cauteloso para o pós-colheita também foi importante. Há inúmeros cafeicultores na região que são referência nacional e mundial na produção de cafés especiais. Há muita coisa a ser feita? Sim! Sempre terá. Olhar para 20 anos atrás e olhar onde estamos hoje já dá um susto. Em uma velocidade incrível, o café mudou muito e para melhor.
Franca sediou neste mês dois eventos para o setor cafeeiro expressivos e que foram um sucesso. A 2ª Alta Café e o 7º Fórum de Qualidade de Café da Alta Mogiana. Qual a importância desses eventos para o setor e a cidade também?
Todos os eventos de café são importantes para levar conhecimento e trazer oportunidades para os envolvidos. Este período pré-safra é um momento em que os produtores estão definindo investimentos com máquinas para o início da safra, fazendo barter. Participamos da Alta Café e estar ali foi muito importante para nós. Foi possível receber os associados que visitaram o local, promover o trabalho da AMSC para os que ainda não a conheciam. Foi possível servir o café torrado e comercializado por nossos associados. O Fórum tem um foco diferente. É um evento de um dia voltado para a qualidade. Tivemos um campeonato de métodos na DOCA. Temos Agrishow chegando. Teremos o dia de campo ainda que vamos organizar. Estamos definindo o calendário de cursos. Há muita coisa bacana ainda para acontecer.
Como você avalia a 7ª edição do Fórum de Qualidade da Região da Alta Mogiana, realizado pela AMSC?
Estamos muito felizes com o evento e com a adesão que tivemos. Realmente os tópicos foram interessantes e criaram um desejo de participar. A diretoria trabalhou bastante para ajudar a fazer este evento acontecer.
Um dos temas discutidos no 7º Fórum de Qualidade de Café da Alta Mogiana foi sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, a pandemia e os impactos para a cafeicultura. Como você analisa esses cenários?
É difícil aceitar que em pleno 2022, após uma pandemia, um presidente tenha coragem de iniciar uma guerra. Plantou um sentimento de ódio que irá durar por gerações, sem contar todas as violações que acontecem nestes momentos. A guerra trouxe investimentos para o Brasil, mas o fortalecimento do dólar atrapalha os resultados das exportações de café. A alta dos combustíveis e fertilizantes, entre outras coisas, contribui para o aumento do custo de produção. E o produtor fica ainda mais sem saber como agir. Vende safra futura? Espera? Quem trabalha com agricultura trabalha com uma indústria a céu aberto. Não sabemos o que a La Niña nos reserva para este inverno. Vamos torcer para não ter geada. Os preços do café ainda estão bons, mas as margens estão diminuindo com esta subida dos custos. E também é preciso torcer para não faltar fertilizantes, o que poderia trazer problemas para as lavouras e reflexos mais duradouros. Sem contar com os problemas gerados pelos embargos, produtores brasileiros que têm vendas para a Rússia e não conseguem exportar e nem receber de seus clientes. Os próprios ucrianos que têm uma cultura de cafés especiais e agora terão que pensar em reconstruir um país destruído por uma guerra. Quem sofre é a população e um grande atraso é instalado.
Edgard, você costuma destacar a sua atuação na fazenda da família Quércia como um divisor em sua carreira. Como foi essa experiência? Gostaria que você comentasse também sobre a importância de romper barreiras e buscar inovações.
Eu tive o prazer de conviver de perto com a Dra. Alaíde Quércia, Cristiane, Andreia, Rodrigo e Pedro. Não tive oportunidade de sonhar o sonho junto com Dr. Orestes, que faleceu dois meses após minha chegada à fazenda. Ele foi um fundador da AMSC e não mediu esforços para ajudá-la e promover a região. Ali na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, que transformei na O’Coffee – Brazilian Estates, pude assinar meu primeiro projeto com meu olhar para a produção de cafés especiais. E tive toda a liberdade para criar este projeto dos meus sonhos, sempre alinhado, lógico, aos anseios da família. A fazenda virou uma referência regional, nacional e internacional. O foco na excelência e na produção de cafés especiais e o olhar para o novo, trazido de minha bagagem de viagens pelo mundo ao longo dos anos, elevaram a imagem da fazenda ainda mais e ela conquistou vários países com suas exportações. Criamos uma linha de produtos, uma Hospedaria do Café. Estávamos sempre trazendo tendências. O mundo fala muito hoje sobre fermentação controlada. Nós já fazíamos, há 12 anos, além dos naturais, cafés descascados, despolpados, com fermentação com leite, cafés guardados em barris de vinho e whisky. Os cafés da fazenda eram super elogiados nos cuppings internacionais. Depois ainda ganhei de presente a torrefação da família que também ficou sob minha gestão. Fui a Nova York e trouxe os dois torradores (máquinas) da operação de lá que são incríveis. E mais tarde assumir e cuidar do lindo projeto de lojas Octavio Café, que nasceu em São Paulo e era um templo, a maior cafeteria da América Latina. Inovávamos! Tínhamos, há 10 anos, chá de casca, de flor, microlotes, formávamos vários campeões brasileiros que participavam dos certames de barista. Tínhamos terreiros suspensos, terreiros cobertos. Os produtores iam conferir in loco tudo o que fazíamos de diferente. A equipe era fenomenal e o capital humano, uma joia. Fomos vitrine e inspiração para muitos. Quando recebi um convite para um projeto, demorei dois meses para decidir. E saí correndo no dia que decidi, porque se eu parasse um minuto para refletir, reavaliaria minha decisão, porque estava deixando ali os melhores anos de minha vida. Não sabemos por quê às vezes deixamos a felicidade escapar pelos dedos. Faz parte da vida. Não fiz esta mudança por ambição, mas pensando em uma segurança e em minha aposentadoria. Mas foi o maior arrependimento de minha vida ter deixado algo que eu gostava tanto por algo que não me completou em nenhum dia sequer dos 5 anos seguintes que vivi. Construí, batalhei, mas faltou sempre a alegria que eu tinha de acordar com aquela alegria imensurável e uma vontade enorme de trabalhar e fazer acontecer. Eu era feliz e não sabia (risos). Nunca falei isso em nenhuma entrevista. Mas é o que sempre guardei para mim. O projeto frutificou, mesmo sem mim, com as sementes que plantei. É bom ver isso. Vou ter sempre esta família que me acolheu em minhas orações. E há 6 meses, estou em um novo projeto pessoal, a Latitudes Grand Cru Coffees, uma exportadora, escrevendo uma nova história de promoção dos cafés especiais brasileiros e especialmente da Alta Mogiana, usando minhas conexões e feliz por estar também na AMSC, além de Conselheiro, como presidente, com os demais diretores nesta bonita missão de divulgar os cafés especiais.
Qual a importância da expansão na produção de cafés especiais?
Tudo começou em 1991, com a extinção do IBC e a fundação da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) por um grupo pequeno de produtores. Estes visionários começaram a focar em qualidade e puxaram os outros produtores a partir de 2002, quando a entidade assumiu a condução do Plano Internacional de Marketing para a Promoção do Café Especial Brasileiro. Eu era, nesta época, diretor executivo da BSCA e coordenei várias ações, apoiadas pela APEX-Brasil e Ministério da Agricultura. O “Cup of Excellence”, concurso de qualidade, foi um marco. Começou a promover as fazendas e também foi fundamental em passar uma nova metodologia de avaliação dos cafés. Os provadores foram sendo convidados para o concurso, conhecimento foi compartilhado e começou-se a fazer uma triagem diferente do que era produzido. Compradores começaram a vir conhecer estas fazendas com foco em qualidade e 30 anos após, continuamos com nossa missão de trazer cada vez mais produtores para esta jornada. São mais de 300 mil produtores no País e ainda há muito trabalho a ser feito para que o número de sacas de cafés especiais continue crescendo para atender a demanda nacional e internacional por bons lotes. Com cada vez mais cafeterias e torrefações novas abrindo e buscando qualidade, precisamos continuar aumentando a oferta para que haja café especial para estes novos projetos. Há alguns anos eu viajava por algumas capitais mundiais e tinha ali 3, 5 lojas de cafés especiais. É incrível como rapidamente o cenário muda. Às vezes me surpreendo quando volto a um país um ano depois. E precisaremos em 2050, crescendo apenas 2% ao ano, de 300 milhões de sacas para atender a demanda mundial. Hoje produzimos mais de 160 milhões de sacas. Isso serve para animar o produtor brasileiro de que haverá procura por café e principalmente por qualidade. Aumento de consumo e qualidade andam de mãos juntas.
Edgard, você viaja 180 dias por ano em média e nesses roteiros divulga o café da Alta Mogiana. Como os grãos aqui produzidos são vistos no exterior?
Muito bem vistos! Muito apreciados. Nós temos uma diversidade enorme de sabores hoje com esta atenção que se dedica à produção de microlotes, aos cafés com preparos especiais de fermentação, mais longas, menos longas, com adição de levedura, sem adição, além dos nossos maravilhosos naturais, que são muito equilibrados. Aquele café para beber todo dia, toda hora. Eu sempre tenho comigo cafés da Alta Mogiana em todos os cuppings e eventos que participo pelo mundo afora. E cada vez temos mais embaixadores dos nossos cafés da região. Mais produtores têm viajado. A própria AMSC participa de eventos internacionais levando os cafés da região para serem conhecidos e saboreados, abrindo portas para os membros.