Pelo segundo ano consecutivo, Franca não terá o Carnaval de Rua, com desfiles na Passarela do Samba “José Renato Rosa”, em razão da pandemia da Covid-19.
Franca possui seis escolas de samba que reúnem cerca de 1.500 integrantes, em média. José Aparecido Policarpo Soares, presidente da Uesf (União das Escolas de Samba de Franca), que trabalha com Carnaval há mais de 20 anos, lamenta a suspensão dos desfiles e tem expectativas de que o cenário pandêmico seja outro em 2023 e que consigam apoio do Poder Público para as agremiações voltarem à Passarela do Samba.
Régis Augusto Rosa é presidente da Escola Ases do Ritmo, detentora de 16 títulos do Carnaval francano e pentacampeã (2016 – 2020). Sua relação com a Folia de Momo nasceu ainda na infância, quando acompanhava o pai nas reuniões da agremiação. Em 2011 ele montou nova diretoria para que a escola voltasse à ativa e teve apoio da comunidade para realizar esse sonho. No último desfile em Franca, em 2020, a Ases reuniu 400 pessoas para descer a avenida.
Régis disse que, durante a pandemia, a diretoria e integrantes da escola têm se esforçado e até mantido os ensaios para tentar manter acesa a paixão e envolvimento com o Carnaval.
Em entrevista ao Verdade, Policarpo Soares e Régis Rosa comentam a ausência do Carnaval de Rua em Franca e seus impactos.
Qual a importância do Carnaval e das escolas de Samba na vida dos integrantes?
Régis – O Carnaval para a Ases do Ritmo vai muito além de cultura, é onde nós integrantes vivenciamos os melhores momentos da nossa vida, aprendemos muito e sem contar que somos uma família, um sempre apoiando o outro, vivemos essa essência o ano inteiro.
Há 2 anos, por conta da pandemia da Covid-19, Franca não tem desfiles de rua no Carnaval. Quais os impactos disso para as agremiações?
Régis – Os impactos da pandemia afetam todo o dia a dia da comunidade, como nossos projetos sociais, oficinas e diversos outros. Grande parte da nossa arrecadação entra através da Ala Show, uma divisão da escola que participa de inúmeras apresentações em eventos particulares por toda a nossa região, e isso ficou completamente comprometido durante a pandemia. Tudo isso sem contar a não realização do Carnaval, o grande espetáculo, onde a comunidade é precursora, onde o povo tem sua voz.
E para os integrantes?
Régis – Para os integrantes, o Carnaval não significa apenas cultura popular, mas o momento em que o povo, o integrante é o grande artista. A realização de um trabalho “infindável” de um ano, o sonho colocado em prática. A não realização muitas vezes, infelizmente, acaba gerando desmotivação do integrante.
Os integrantes recebem para desfilar?
Policarpo – Os integrantes não recebem, mas existem outros profissionais que são contratados, como costureiras, serralheiros, carpinteiros, contadores, pintores, músicos, mestres de bateria, engenheiros, eletricistas, estúdios de gravação e outros. É uma grande rede envolvida na realização do Carnaval.
Como vocês têm feito para superar esses impactos?
Régis – Uma das maneiras para superar os impactos, sem sombra de dúvida, é manter os ensaios semanais e assim mantemos a chama viva, mesmo com todas dificuldades do dia a dia, a cada dia que passa temos a certeza que o amor pelo Carnaval só aumenta.
Policarpo – Todas as escolas têm dívidas com os gastos do Carnaval, cada escola gasta em torno de R$ 120 mil e o repasse da prefeitura não é suficiente. Para arcar com alguns custos, os diretores tiram do próprio bolso porque o setor de eventos foi um dos mais prejudicados com a pandemia do coronavírus.
Vocês têm se apresentado em eventos?
Régis – No mês de novembro voltamos a fazer as apresentações em eventos particulares, é o meio que usamos para manter os ensaios e a aproximação com os integrantes da escola, e para garantir o pagamento das despesas da entidade. Na quinta-feira, dia 24, fizemos a abertura do Carnaval francano em um evento particular, juntamente com a Leci Brandão.
Vocês têm recebido apoio para lidar com essa fase?
Policarpo – Não recebemos apoio.
Régis – A escola participou do edital da Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural no ano de 2020, foi o apoio recebido pelo poder público.
O que vocês esperam para o Carnaval do ano que vem?
Policarpo – O Carnaval de Franca existe há mais de 50 anos, o Carnaval é um patrimônio cultural, e esperamos atenção da administração, que possa chamar a Liga das Escola de Samba o mais rápido possível para a gente montar um projeto e conseguir retomar os desfiles. O Carnaval de Franca recebe em média de 25 a 30 mil pessoas e Franca arrecada em torno de R$ 25 a 30 milhões nos dias de Carnaval.
Régis – Esperamos que o poder Público acompanhe de perto cada setor cultural, pois a cada ano que passa, as dificuldades aumentam, não temos espaços para fazer cultura na cidade, e nosso Carnaval é centenário, precisamos deste apoio para não acabar, pois da mesma maneira que tem verba para Saúde e Esportes, esperamos que a verba da Cultura seja investida na cultura.
O que representa o Carnaval e a escola de samba na vida dos integrantes?
Régis – O Carnaval representa uma época de alegria, integração que nós precisamos tanto. A Ases proporcionou emoções indescritíveis, representa um amor muito grande que tenho pela batucada e pela família que nós somos.


