Nelise Luques
O advogado Bruno da Silva Oliveira, de 35 anos, assumiu a presidência da Esac (Escola de Aprendizagem e Cidadania) e ficará à frente da entidade pelos próximos dois anos. Para ele, é uma boa oportunidade para retribuir toda contribuição que a Esac teve para seu crescimento pessoal e profissional. No ano de 2000, Bruno foi Guarda Mirim e atendido pelo programa aprendizagem da entidade.
A nova diretoria tem muitos desafios pela frente, entre eles superar a crise financeira gerada especialmente pela pandemia da Covid-19. Conscientizar a população sobre a importância do uso do estacionamento rotativo nas ruas de Franca – Área Azul – também faz parte das propostas. “O plano é o de trazer ao conhecimento da população francana que estacionar na Área Azul é também um ato de solidariedade. Somos uma das únicas cidades brasileiras que destinam o valor arrecadado na Área Azul para a ‘transformação de vidas’”, afirma Bruno, ao destacar que atualmente a Esac atende 700 pessoas em seus programas.
Bruno é casado e pai de dois filhos, um casal. Ele nasceu em Santo André, mas mora em Franca desde 1987, quando seus pais se mudaram a trabalho para a cidade. Conheça nesta entrevista ao Verdade um pouco mais sobre a história do Bruno, um jovem determinado e com disposição para executar ideias que, certamente, transformarão vidas.
Bruno, como surgiu a oportunidade de disputar a presidência da Esac?
Em 2019, após receber uma homenagem da Esac por ter sido um ex-guarda mirim em destaque, fui convidado a me associar ao Rotary Club de Franca, que é o clube de serviços que faz a gestão da entidade. Desde então, como associado, integrei a diretoria da Esac como tesoureiro entre 2019/2021 e o então presidente, Dr. Rui Engrácia Garcia, me convidou para que disputasse a presidência para o biênio seguinte, eu me candidatei em chapa única, o que é tradição no clube, e fui eleito pelos companheiros associados do clube.
Como você se sente tendo sido eleito para um cargo tão importante e para estar à frente de uma entidade respeitadíssima como a Esac?
O sentimento é de responsabilidade, gratidão e reconhecimento. A responsabilidade é porque a entidade completa 53 anos de existência neste ano e os desafios impostos são muitos. Primeiro porque integro um rol de nomes muito importantes que passaram pela entidade, tais como Antônio Rocha, Jorge Alexandre Atiê, Márcio Bagueira Leal, Luís Mauro Costa Queiroz, Marinho da Conceição Procópio, Rui Engrácia Garcia e Xisto Antônio de Oliveira Júnior e isso é de uma satisfação enorme, aliada ao reconhecimento pelo que já fizeram pela entidade. A gratidão é pelo fato de poder voltar à entidade que representa a possibilidade de pertencimento a tantos jovens de nossa cidade e região. Entre os anos de 2000 e 2021 eu saía do bairro em que eu residia em busca de voos jamais imaginados por uma família simples e cheia de dificuldades. Mas eu apenas imaginava e a Esac foi a responsável por me mostrar que era possível. Entre tantas dificuldades, na Esac me senti pertencido a um mundo que é sim cheio de oportunidades, mas oportunidades que precisam ser escancaradas ao jovem de periferia. Estar à frente da Esac, que um dia me revelou várias possibilidades, é também a forma de retribuir a força que a entidade representa e dar continuidade ao serviço de excelência que presta a mais de 700 pessoas anualmente.
Você já esteve na outra ponta dos trabalhos desenvolvidos pela entidade. Como foi a sua experiência como Guarda Mirim?
Como Guarda Mirim eu trabalhei na Área Azul durante seis meses e em seguida fui encaminhado para a empresa, onde me efetivei, trabalhei por quatro anos e desde então venho desenvolvendo minha atividade profissional. Enquanto guarda mirim já tive o início da aprendizagem profissional. O trabalho na Área Azul era penoso, mas com a vivência de várias realidades, era possível pensar ‘além’ e ir moldando nossos sonhos.
Que aprendizados você teve e aplica em sua vida após essa experiência?
O aprendizado que a Esac passou e passa até hoje é de que as oportunidades surgem e estão abertas a todos, o problema é a desigualdade que faz com que jovens sequer tenham conhecimento de tais oportunidades porque não se sentem pertencidos à possibilidade de sonhar e realizar. Um preto, pobre, de família muito humilde não tinha muito o que sonhar. A experiência que tive e tenho é a de que na vida só é impossível até você ir lá e fazer e fazer o que você quiser. Eu nunca sonhei baixo, sempre sonhei acima da média porque sempre olhei no espelho e vi um vencedor, ainda que com várias fragilidades, várias incertezas, várias dificuldades, eu só consigo ver um vencedor. Aquele preto e pobre nunca fechou os olhos para as oportunidades e então ficou na fila na Esac desde às quatro horas da manhã para conseguir uma vaga, conseguiu, trabalhou, fez o seu melhor por onde passou e hoje volta para agradecer e colocar em prática tudo que começou aprendendo lá mesmo. É um círculo vicioso que faz bem para mim enquanto profissional e de forma pessoal e a ideia é de que faça muito bem à Esac, todos funcionários e atendidos.
Quais são seus planos para o primeiro ano de gestão?
Para o primeiro ano de gestão, o plano é organizar a entidade do ponto de vista financeiro e operacional. Com 53 anos de existência, é preciso fazer um plano de crescimento para que a entidade tenha sustentabilidade em todos seus serviços, de modo a dar continuidade ao trabalho realizado. E isso está sendo feito desde então. Com absoluta responsabilidade, nos aproximamos ainda mais dos funcionários e atendidos, para que o primeiro ano de gestão seja o ano do crescimento.
Sabemos que a pandemia impactou na saúde financeira da entidade e a Esac, em 53 anos de história, como vocês próprios afirmam, nunca passou por uma crise tão profunda como a de agora. Quais são as propostas para superar esse momento?
A única fonte de renda para o nosso programa de aprendizagem é a Área Azul. Com as medidas de isolamento no ano de 2020 e 2021, tivemos uma queda brusca de arrecadação e como somos uma entidade sem fins lucrativos, não temos caixa para suportar adversidades, principalmente por tão longo período. O plano é o de trazer ao conhecimento da população francana que estacionar na Área Azul é também um ato de solidariedade. Somos uma das únicas cidades brasileiras que destinam o valor arrecadado na Área Azul para a “transformação de vidas”. Portanto, o plano é voltar a arrecadar em níveis iguais e melhores ao anterior da pandemia, de forma a dar sustentabilidade aos nossos programas.
A Esac conta atualmente com que recursos para desenvolver os trabalhos?
Para o programa de aprendizagem, o único recurso é a arrecadação com a exploração da Área Azul do município. Para os demais serviços, a renda advém de parceria com o Poder Público Municipal e Estadual.
Bruno, quais são as frentes de trabalho da Esac hoje? E qual público vocês atendem?
Temos quatro frentes de trabalho. O programa de aprendizagem profissional, que é o programa que insere mais de 400 jovens ao mercado de trabalho anualmente, pelo qual são acompanhados por professores capacitados e aptos a oferecerem aulas sobre diversas realidades administrativas, além de projetos que incluem ensinamentos sobre cidadania, justiça, promoção social, etc. Temos ainda o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos que trabalha no atendimento de crianças e famílias em situação de vulnerabilidades sociais das mais diversas, através de programa multiprofissional que ajuda a amenizar tais vulnerabilidades. Oferecemos também o programa de Medida Socioeducativa que faz a implementação da aplicação de medidas a jovens que se corromperam por alguma prática análoga a crimes, serviço que inclusive remonta a um índice baixíssimo de reiteração em condutas, o que é de grande satisfação para nossa entidade. Além disso, a exploração da Área Azul do município, que emprega diretamente mais de 40 pessoas, que são os agentes responsáveis pela venda dos talões de estacionamento rotativo.
Qual a importância de manter esses projetos?
A importância na manutenção de todas as frentes é porque lidamos com a transformação de vidas em todas elas. Seja pela possibilidade de emprego a várias pessoas, seja pela função social da entidade que é reconhecida por toda população e é destaque em vários municípios que nos têm como exemplo. Somos referência nos serviços que prestamos porque somos obcecados pela transformação da realidade de várias pessoas, o que é facilmente percebido pelas frentes de trabalho que realizamos. Parar com qualquer serviço seria deixar de lado a vulnerabilidade de várias pessoas que, muitas vezes, enxergam em nossa entidade o único reduto para continuarem suas vidas.
Como a comunidade pode contribuir com a Esac e esse processo de ‘transformação de vidas’?
Primeiramente, a comunidade pode contribuir reconhecendo nosso trabalho. A começar pela Área Azul, é importante que todos tenham ciência da função social que o estacionamento rotativo representa em nossa cidade, além de que reconheçam que a falta de cartão nos veículos é uma infração de trânsito, o que é imposto por lei e não por nós. A cada cartão colocado, é um fomento que se dá à entidade. Além disso, o apelo segue aos comerciantes de nosso Centro. A Área Azul – e em consequência a Esac – é uma parceira para o fomento de seus próprios negócios. Em municípios onde não existe a Área Azul, o estacionamento nos centros das cidades é quase que impossível, o que faz com que as pessoas procurem outros centros comerciais para realizarem suas compras. Quando existe o estacionamento rotativo, seu próprio nome revela que a circulação de carros e pessoas será maior, de modo que o comércio se mantém justamente com a maior quantidade de pessoas que circulam diariamente. Além disso, a Esac possui arrecadação de itens permanentes para realização de bazares ao longo do ano, portanto, é sempre bem vinda a doação de roupas, calçados, objetos de decoração, tudo para que dar sustentabilidade ao trabalho que é realizado.
No texto de apresentação da nova diretoria enviado à imprensa, vocês informaram que a entidade precisa “modernizar e trazer ainda mais efetividade ao trabalho realizado”. Que ações vocês planejam para alcançar esses avanços?
A modernização decorre de um processo e avanço natural dos tempos. Precisamos nos tornar sustentáveis com a utilização de menos papéis na Área Azul, além de nos aliarmos à tecnologia para venda dos cartões e imposição das advertências aos motoristas infratores. Além disso, estudamos parcerias com o Município, com a Polícia Militar para que a imposição das multas aos motoristas seja realizada de forma mais efetiva para complementar nosso trabalho. Além disso, a entidade precisa continuar crescendo e transformando vidas, o que será nossa obstinação do primeiro ao último dia de gestão.
Bruno, gostaria de complementar com mais alguma informação?
Primeiro, quero agradecer a gentileza e carinho que a imprensa trata a Esac e a mim, pessoalmente. Quero agradecer pela diretoria participativa que tem nos acompanhado nessa missão, a todos funcionários, na pessoa de nossa competente gerente administrativa há quase 30 anos, Geraldine Fuga Menezes, e a toda comunidade francana pelo reconhecimento de nosso trabalho. Saibam que do primeiro ao último dia de gestão, sempre estaremos abertos ao diálogo, às sugestões, às críticas e à vontade de servir o próximo, o que nos é peculiar. Convido todos para que estejam conosco e sintam-se orgulhosos por uma entidade francana que ajudou a transformar a minha vida e vai continuar transformando a vida de muita gente. Nossa eterna gratidão!