A empresária Flávia Lancha figura entre os principais nomes quando o assunto é produção de cafés especiais. Uma das proprietárias do Café Labareda, comemora os desafios que venceu ao lado do marido Gabriel Oliveira, produtor rural, para elevar a marca à uma das dez melhores do Brasil.
Mãe de três filhos, Flávia começou a auxiliar nos negócios da empresa quando eles ainda eram crianças. Venceu dificuldades impostas pela maternidade, a necessidade de buscar conhecimentos mais aprofundados em administração e até mesmo por ser uma das poucas mulheres a atuar no setor cafeeiro. “No agronegócio, nós, mulheres, também estamos ganhando mais espaço. No passado, as mulheres só atuavam no meio rural ao lado do marido”, afirmou.
Como a própria Flávia gosta de dizer, ela adora um desafio, e também os enfrenta no cenário político. Filha do ex-prefeito de Franca, José Lancha Filho, a empresária já disputou eleições municipais para prefeita – ficou em segundo lugar na disputa em 2020, com 56.151 votos (42,38%) no segundo turno – e foi secretária municipal de Desenvolvimento. Ela, por enquanto, não revela suas pretensões políticas nas eleições 2022.
Flávia, hoje você é bem sucedida no mundo empresarial, mas como começou essa história?
Foi logo depois que o meu filho caçula nasceu. A gente tinha comprado a Fazenda Bom Jesus, voltado a morar em Franca e estávamos passando por uma fase bem difícil financeiramente. Na época, meu marido Gabriel era quem tocava nossa empresa. Estávamos tão apertados que ele me pediu para ajudar assumindo as contas a pagar e receber porque assim poderíamos economizar o salário de um profissional contratado. Eu aceitei. Não entendia nada de administração, mas como sempre fui uma mulher que adora um desafio, fui em frente.
Quais foram os maiores desafios nessa ‘jornada’?
O mais difícil no começo foi não saber. Tudo era uma grande novidade para mim. Claro, eu tinha uma noção sobre como pagar e receber, mas não conhecia detalhes dos negócios. Então, fui buscar conhecimento. Meus filhos ainda eram pequenos quando comecei fazendo cursos no Senac na área financeira. Depois, resolvi que precisava de mais. Fui fazer administração rural na FGV em São Paulo. Acho que foi um dos períodos mais desafiantes na minha vida. Eu ia para a capital na segunda à noite e só voltava na quinta. Deixava os meus três filhos pequenos com o Gabriel. Me sentia dividida. Mas sabia que era o que eu precisava. Anos depois, mais desafios. Eu já tinha me inteirado sobre a rotina da Labareda e, com os conhecimentos que adquiri, queria trazer mais qualidade para os nossos produtos e também para a vida dos nossos colaboradores. Comecei uma série de mudanças na empresa. E aí tive que enfrentar a resistência do Gabriel e do gerente da fazenda, que já tinham uma forma de trabalho e não viam necessidade de mudar. Mas não desisti. E, graças a essas inovações que fiz, pudemos crescer e entrar no mercado de exportações de cafés especiais, onde também enfrentei o desafio de ter de aprender na marra, de lidar com o fato de quase não ter mulheres trabalhando nesse mercado.
Como você vê o avanço da presença das mulheres no setor empresarial?
Vejo como um reconhecimento do nosso valor, do nosso esforço. E não é só no meio empresarial. No agronegócio, nós, mulheres, também estamos ganhando mais espaço. No passado, as mulheres só atuavam no meio rural ao lado do marido. Raramente assumia a frente dos negócios. Isso, recentemente, vem mudando. Hoje um número cada vez maior de mulheres tem se tornado protagonista. O que precisamos agora é melhorar nossa remuneração e as condições de trabalho das mulheres. Infelizmente, muitas vezes, mesmo com mais qualificações e estudo, ainda ganhamos menos que os homens. Somos menos indicadas a cargos de direção. Isso precisa mudar.
Na sua opinião, quais são as principais dificuldades que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho?
A primeira dificuldade é a questão, como disse na resposta anterior, da nossa sociedade ainda ter raízes no machismo que se refletem no mercado de trabalho. Nós mulheres precisamos a todo momento provar nosso valor para ter reconhecimento. E ainda assim, ganhamos menos e temos menos oportunidades. Também temos que nos dividir entre as tarefas de casa e a vida profissional. Não é fácil. Mas vejo que aos poucos estamos conseguindo evoluir e conquistar o espaço que merecemos.
Quais são as suas referências na parte profissional?
Claro, que, como mulher, não poderia deixar de citar a Luiza Helena Trajano, que é a empresária de maior sucesso que temos aqui na nossa cidade, um exemplo de luta e perseverança. Uma mulher que tem ações não apenas na sua empresa, mas para a sociedade, como a criação do Grupo Mulheres do Brasil. Outra empresária que admiro muito pelo seu dinamismo, pela sua vontade de sempre aprender mais é a Eliane Querino, da Know How. No agro, tem o Roberto Rodrigues, o Manoel Bertone, e, claro, meu marido Gabriel, com quem aprendi muito e ainda aprendo.
Flávia, o Café Labareda é uma das marcas mais apreciadas atualmente no Brasil e no exterior. Quais os diferenciais para esse sucesso?
O maior diferencial que vejo na Labareda é o cuidado não só com a qualidade dos nossos, mas com a vida dos nossos colaboradores. Acreditamos que, para termos um produto de excelência, precisamos valorizar aqueles que nos ajudam. Por isso, na Labareda, temos um olhar especial para as pessoas. Outro diferencial que temos é a inovação. Estamos em constante transformação, buscando as melhores técnicas e ferramentas que garantam a qualidade do nosso café. O Café Labareda recebe um cuidado todo especial desde o seu plantio até a embalagem para a venda. Somos extremamente criteriosos quando se trata de qualidade. Não é à toa que nosso café está classificado entre os dez melhores do Brasil. Existe muito trabalho e muita dedicação de todos para chegarmos a este patamar.
À frente do ICOL, você já ajudou várias pessoas com cursos de capacitação, além de inseri-las no mercado de trabalho e ajudá-las a empreender. Em 2022 você deve seguir com esse projeto?
Claro, não vou abandonar o ICOL nunca. O ICOL é meu projeto de vida. Meu legado. E para 2022 estamos preparando muitas novidades. Já estou conversando com o pessoal do Sebrae, do Senai, do Senac e da Unifran para definir nossa grade de cursos e devemos anunciar todas as novidades em breve.
Existem planos de ampliar os trabalhos do ICOL?
Sempre queremos crescer, né? Mas temos que ter o pé no chão. Infelizmente, ainda estamos enfrentando uma pandemia que afetou muito todos nós. Eu penso sim em ampliar os trabalhos do ICOL, mas quero fazer isso com calma e planejamento. Uma das minhas ideias é aumentar a oferta de cursos nos bairros mais distantes do Centro. No ano passado, conseguimos levar alguns cursos para a região do Jardim Aeroporto e o resultado foi incrível. Esse ano acredito que vamos conseguir chegar a mais bairros e com mais opções de cursos.
Como surgiu a oportunidade de entrar na vida política?
Foi nas eleições de 2016 para a Prefeitura de Franca. Na época, eu ainda era filiada ao PMDB, que hoje virou MDB. Com a proximidade das eleições, começaram a surgir convites para que eu entrasse na disputa e, conversando com meus filhos e amigos, eles disseram uma coisa que me tocou muito: a política precisa de pessoas honestas, que queiram transformar, de fato, a vida da população. Na política, não existe espaço vazio. Se não tivermos pessoas bem intencionadas, os espaços e cargos vão ser ocupados pelos oportunistas. E isso é verdade. Eu entrei para a política para colaborar, para realmente transformar a realidade da nossa população.
Quais são as suas projeções para as eleições de 2022?
Infelizmente, vejo que vamos ter, de novo, muitos candidatos na disputa tanto para uma vaga no Congresso Nacional quanto na Assembleia Paulista. Isso é um problema porque, com muita gente na disputa, os votos acabam se dividindo e a cidade não consegue eleger um representante. Vimos isso nas últimas eleições. 8,10 candidatos a deputado federal e nenhum eleito. Estamos há 11 anos sem um representante da cidade no Congresso. Perdemos muito. Para se ter ideia, um deputado federal tem por ano cerca de R$ 18 milhões em emendas. São recursos que poderiam estar vindo para Franca. Mas que não temos. Acredito que nós, eleitores, teremos que analisar muito bem nosso voto e votar em quem tem chances reais de se eleger se quisermos mudar essa realidade.