Nelise Luques
Vários países, inclusive o Brasil, enfrentam alta taxa de contaminação pela Covid-19, registra recorde diário de casos positivos e Franca voltou a ter grande número de confirmações e mortes pela doença. Em janeiro, até dia 7, foram 752 novos casos na cidade. O Verdade entrevistou o renomado médico pneumologista Paulo Antônio de Morais Faleiros para explicar a situação atual da pandemia, dar recomendações para evitar a Covid-19 e passar orientações para quem testar positivo.
O especialista, atual presidente da regional de Ribeirão Preto da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, atende de forma frequente casos da doença em seu consultório. Ele destaca a diferença dos sintomas da Covid e síndromes respiratórias e gripais, o tempo correto para fazer o teste para evitar resultado “falso negativo”, as principais sequelas do coronavírus e alerta sobre a importância da vacina. “Quando o vírus entra no nosso corpo vacinado, ele vai encontrar uma resistência muito maior. E com isso, na grande maioria das vezes, vamos vencer a batalha, com sintomas mais leves”.
Doutor, quais os riscos de enfrentarmos novo surto da Covid-19?
Os riscos são muito grandes. Inclusive já estamos vivenciando isso. Em nenhum momento tivemos tantos casos de Covid de uma só vez (leia mais sobre a Covid em Franca na reportagem do Verdade, acesse: Após nove dias, Franca volta a registrar mortes por covid e aumento na ocupação de leitos – VerdadeOn).
Uma reportagem do Verdade nesta última semana informou que somente no Laboratório de Análises Clínicas da Santa Casa têm sido feitos 170 exames de Covid-19 por dia, 750% a mais que no início de dezembro. Qual o alerta para a população neste momento, uma vez que vemos uma procura intensa por testes nas redes pública e particular?
Os alertas são os mesmos desde o início: Evitem aglomeração, higienizem as mãos com álcool em gel ou água e sabão e usem máscaras. Essa nova variante tem uma transmissão maior, portanto, temos que dobrar os cuidados.
Qual a diferença entre os sintomas da Covid-19 e síndromes respiratória e gripal? Quando é recomendado fazer o teste?
Os sintomas da gripe e da Covid-19 são parecidos e podemos nos confundir. Gripe provoca coriza, tosse, dor de garganta, dor no corpo, dor de cabeça, fraqueza e febre (geralmente alta). A Covid19 (ômicron) tem como principais sintomas dor de garganta; dor no corpo, principalmente na região da lombar; congestão nasal (nariz entupido),
problemas estomacais e diarreia. Os sintomas da gripe começam mais rapidamente, de 2 a 3 dias do contágio e terminam em 7 dias. Os sintomas da Covid começam 4-5 dias após o contágio, pioram após 7 dias. Duram de 10 a 14 dias, sem contar os casos mais graves ou a Covid longa.
Se a pessoa apresentar sintomas, como ela deve proceder?
Se apresentar sintomas, deve-se fazer o exame de swab nasal, aquele do cotonete no nariz. Existe a ‘Pesquisa de antígeno ou RT-PCR SARS COV2 para a Covid’ e a ‘Pesquisa de Influenza A H3N2’, que é a cepa que está predominando no momento. Também existe um exame, chamado Painel Respiratório, que avalia a presença de dezenas de vírus, além do Influenza.
Qual o tempo correto de espera após a manifestação dos sintomas para que o resultado do exame seja seguro, sem que dê ‘falso negativo’?
Após o início dos sintomas, o ideal é fazer o exame entre o terceiro e quinto dia.
Doutor, caso a pessoa apresente sintomas, a orientação é se isolar imediatamente, até ter certeza do que se trata?
Sim. Após o início dos sintomas, a pessoa já deve se conscientizar que pode estar transmitindo esses vírus para as outras pessoas. O ideal é se isolar.
Qual a importância da vacina para evitar complicações pelo coronavírus? Está realmente comprovado que a imunização atenua a doença, reduz internações e salva vidas?
A vacina tem o papel fundamental de mostrar para o nosso organismo como se proteger da Covid. Ela não evita que o vírus entre no nosso corpo. Isso quem faz é a máscara. Quando o vírus entra no nosso corpo vacinado, ele vai encontrar uma resistência muito maior. E com isso, na grande maioria das vezes, vamos vencer a batalha, com sintomas mais leves. Está mais do que comprovado: vacinas reduzem as internações, podem diminuir os sintomas e salvam vidas.
Doutor, muitas pessoas assintomáticas acreditam que não transmitem o vírus. Mesmo sem sintomas, elas podem contaminar as demais pessoas, certo?
Podem contaminar sim. Tenho atendido pessoas com Covid que estão saindo de casa normalmente, frequentando supermercados, lojas e academias porque têm poucos ou nenhum sintoma e acham que não estão transmitindo. Isso é um absurdo e ajuda a manter essa pandemia descontrolada.
Sobre a nova variante, a ômicron, sabemos que ela tem uma transmissão mais veloz, mas demonstra ser menos agressiva que as demais cepas. Mas, doutor, há casos da ômicron que podem se agravar?
A porcentagem de pessoas com quadro grave pela ômicron é muito pequena. Bem menor do que as primeiras cepas. A vacinação também tem participação nisso. Mas mesmo com uma porcentagem baixa, quando temos muitos casos, o pequeno acaba sendo grande. É só pensar em uma doença que causa 0,1% de casos graves. Quando 1000 pessoas se infectam, uma vai ficar grave. Se 100.000 pessoas se infectarem, 100 ficarão graves . É o mesmo 0,1%. Se uma cidade tem 80 vagas de UTI, faltarão vagas e o caos estará formado.
Em março, completa dois anos que a pandemia começou em Franca, quais são os maiores problemas que o senhor percebe que ainda temos no enfrentamento à Covid-19?
O maior problema é a desinformação. A todo momento chegam até mim, vídeos, textos, reportagens com notícias falsas (fake news) em relação à tratamento, vacinas, etc. Isso faz com que as pessoas fiquem na dúvida do que fazer e acaba atrapalhando no controle da pandemia.
Quais as principais sequelas que o senhor tem acompanhado em pessoas que tiveram Covid-19?
Como sou pneumologista, a principal sequela que tenho atendido é a falta de ar. Mas dor de cabeça, perda de olfato e fraqueza muscular são também muito comuns.
São Paulo já tem casos confirmados de ‘flurona’, a coinfecção por Covid e influenza. Como podemos explicar essa dupla contaminação e que riscos ela apresenta?
A coinfecção por 2 microorganismos (2 vírus, 2 bactérias ou um vírus e uma bactéria) não são raros. Como estamos com 2 vírus (coronavírus e Influenza) se espalhando facilmente por aí, não é difícil uma pessoa se contaminar com os dois. Neste caso, a gravidade pode ser maior, pois nosso corpo terá que lutar em duas frentes de batalha. São dois inimigos diferentes ao mesmo tempo.