Nelise Luques
A tragédia do último domingo, 31 de outubro, na Gruta Duas Bocas de Altinópolis, que terminou com a morte de nove bombeiros civis, chamou a atenção pelo treinamento que o grupo realizava no local.
O Jornal Verdade entrevistou nesta semana Heitor Campos, que também é bombeiro civil, para conhecer mais sobre a profissão e os locais onde costumam atuar. Heitor tem 50 anos, é proprietário de uma escola de formação de bombeiros civis em Franca e compartilha as experiências emocionantes que já viveu como bombeiro. Uma delas foi conseguir reanimar uma criança pequena que se afogou, além das vidas que salvou durante a sua trajetória.
Conheça mais sobre o papel dos bombeiros civis e um pouco da história de Heitor Campos.
Como surgiu a oportunidade de ser bombeiro civil e há quanto tempo o senhor atua na área?
Eu venho da área militar já faz um bom tempo e através disso eu conheci o trabalho do bombeiro civil e me interessei bastante, então surgiu essa oportunidade de formação de bombeiro civil. Daí em diante eu comecei a me especializar mais, já passei a ser instrutor, me credenciei no Corpo de Bombeiro da Polícia Militar do Estado de São Paulo e assim começou a minha carreira, isso já faz mais de dez anos. Presto assessoria em segurança do trabalho e sou instrutor credenciado em duas agências americanas de APH (Atendimento Pré-Hospitalar) avançado, a American Safety Health Institute e European Emergency Circle.
Heitor, como podemos explicar o que é um bombeiro civil e a diferença com os militares?
De uma forma rápida, vou explicar a diferença entre bombeiro civil e militar. O civil trabalha mais em empresas privadas e também em grandes eventos, então o civil é um bombeiro que é contratado por uma empresa particular para efetuar a prevenção de combate à incêndio, primeiros socorros, dependendo da estrutura da empresa, do grau de risco, porque hoje tem o bombeiro classe I, II e III, então dependendo do grau de risco, a empresa contrata esse bombeiro civil. Já os militares são concursados pelo Estado e recebem pelo Estado também, então o treinamento deles é totalmente diferente, muito mais aprimorado. Essa é a diferença principal.
O senhor tem uma escola de formação de bombeiros civis em Franca?
Sim, aqui em Franca tenho uma escola que se chama Campos SOS Resgate e eu atuou muito na área de APH, socorrista avançado e também assessoria e técnico de segurança do trabalho, faço curso das NRs, que são as normas regulamentadoras, e altura e resgate veicular, dentre outros, então eu faço esse treinamento com bombeiros civis.
Como é a formação de um bombeiro civil?
A formação de um bombeiro civil gira em torno de 240 horas a 360, mas com a NBR 16877 essa carga horária pode aumentar devido a classificação do bombeiro civil, I, II e III. A formação é feita dentro de um estabelecimento, de uma escola privada, onde o aluno abrange todo o treinamento prático e teórico dentro dessa área da escola. Alguns cursos extracurriculares como em cachoeira, treinamento em mata não estão no cronograma normal do bombeiro civil, porém são cursos extras que o pessoal gosta muito de fazer para obter um pouco mais de conhecimento na área, como o resgate em altura. Todo treinamento, toda formação e uniforme é a escola que providencia, a escola tem o seu centro de treinamento, onde ele faz prática teórica, é uma grade curricular bastante extensa.
Que atividades os bombeiros civis realizam?
As atividades do bombeiro civil são bastante extensas, ele trabalha nesses resgates rodoviários, hoje está tendo grande crescimento de bombeiros civis nas ações de combate a incêndios florestais também, além de trabalhar na empresa privada, ele trabalha em grandes e pequenos eventos, então o bombeiro é bastante ativo também no trabalho de orientação nas escolas. Nessa pandemia, tivemos bastante bombeiros civis fazendo blitze de orientação, então o bombeiro civil tem uma ampla área de trabalho, é um bombeiro que se estiver preparado pode fazer um AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros), fazer uma adequação, como eu fiz a adequação no nosso ginásio Pedrocão aqui em Franca, para aprovação dos bombeiros militares, então a realização do trabalho deles é ampla, é muito bacana.
Como são os treinamentos e onde acontecem?
Os treinamentos acontecem dentro da escola de bombeiro civil. Na realidade, essa escola tem que estar credenciada no Corpo de Bombeiro da Polícia Militar do Estado de São Paulo, seus instrutores também devem estar credenciados no Corpo de Bombeiro Militar e essa escola tem que ter esse amplo campo de treinamento, onde o bombeiro civil faz ações teóricas e práticas, algum curso extracurricular que a escola pode oferecer ao aluno pode ser feito fora da escola, em outros lugares, a partir de um acordo entre escola e aluno.
Quem pode ser um bombeiro civil?
O Bombeiro Civil não tem limite de idade, mas a pessoa tem que estar com um bom preparo físico, com a saúde em dia porque algumas escolas pedem um atestado médico de saúde, pede também antecedentes criminais. A pessoa tem que estar em boa forma, não ser atleta, mas estar em boa forma e com saúde para essa formação de bombeiro civil.
O senhor tem ideia de quantos bombeiros civis atuam em Franca? Qual a faixa etária deles e quais as profissões?
Aqui em Franca, eu acredito que devem ter em média 30 bombeiros civis em indústrias, trabalhando registrados, mas tem mais de 200 bombeiros na cidade que atuam em eventos, aniversários, convenções, entre outros. E esses bombeiros que atuam em eventos normalmente trabalham na indústria de calçados ou têm algum outro trabalho e exercem a função de bombeiro como se fosse uma renda extra nesses eventos.
Heitor, o senhor já participou do socorro ou combate a incêndios reais? Conte nos um pouco dessas experiências.
Sim, trabalhei muito tempo no resgate rodoviário, trabalhei em algumas empresas privadas de ambulâncias da cidade, faz quatro anos que atuo nos incêndios florestais que é um dos piores incêndios para se combater, sem dúvida nenhuma, é muito difícil. Em 2020 e 2021, eu participei de dois grandes incêndios numa das maiores unidades do Estado de São Paulo de mata de cerrado, ficamos 20 dias combatendo o incêndio, 15 dias de rescaldo, fogo de subsolo, fogo de copa, foi uma experiência única na minha vida. Uma experiência triste pela devastação, mas para a gente ela é única, do fogo com dimensão de dez metros de altura, com a mudança climática que é uma coisa assim inexplicável. Então toda essa experiência, que eu tive nessa área florestal, eu passo para os meus alunos também, são coisas únicas, como neste ano de 2021 um incêndio em que o fogo estava chegando próximo a uma casa onde tinha um cachorro amarrado, eu escutei esse cachorro chorando e gritando. Peguei o meu equipamento, passei por cima dessas chamas e fui lá e ele estava amarrado no pé de uma árvore com as patinhas já todas queimadas, é uma situação triste, mas cortei essa corda, peguei esse cachorro e retornei com ele. Como bombeiro, a vida importa, pode ser animal, ser humano, o importante é salvar, resgatar e tirar ele desse perigo. É uma situação triste uma pessoa largar um animal amarrado no meio das chamas, mas consegui cumprir meu objetivo que era resgatar esse animal.
Qual a sensação e a parte mais difícil de fazer parte dessas histórias?
A sensação é uma coisa inigualável. É uma sensação de prazer, sensação de tristeza, de raiva, tudo isso vem junto, porque são situações que mudam a todo tempo, é uma coisa que mexe com a gente. E a história, acredito, não só minha, mas de todos os bombeiros é ter o dever cumprido, fazer o melhor para o próximo, para quem seja, é salvar, resgatar e a gente tem um lema que fala: a vida por vidas, então a gente leva muito a sério isso.
Existe alguma história que marcou você neste tempo como bombeiro?
Até esqueci de comentar que o bombeiro civil pode trabalhar de guarda-vidas também, fazendo um curso específico aquático, ele pode atuar. E uma história que me marcou foi quando eu atuava como guarda-vida e peguei uma criança em afogamento. Essa criança tinha em torno de 4, 5 anos, por ser criança, já mexe com a gente e ao ver o desespero dos pais e a criança na mão da gente, para a gente fazer algo e socorrer e fazer com que essa criança reanime novamente. Para mim, foi uma coisa que marcou muito, porque a criança demorou em torno de uns dez minutos para retornar, mas eu consegui fazer esse retorno e para mim foi uma alegria muito grande, por ter filhos também e ver a alegria dos pais. Resgate que envolve criança mexe um pouco com a gente por ser pai também, por ver o desespero dos pais, aquela vida está na sua mão, então é uma coisa maravilhosa. Uma outra coisa que me marcou foi um parto que eu participei, é uma vida que eu salvei e depois uma vida que veio na minha mão, então é incrível, são situações e experiências que marcam a gente e a gente fica até emocionado.
Você conhece a Gruta Duas Bocas, em Altinópolis, onde aconteceu o acidente que vitimou nove bombeiros civis há poucos dias?
A Gruta de Altinópolis eu conheço, sim.
Realmente é um lugar perigoso e com condições adversas?
Todo ambiente hostil já tem condições adversas e por ser natureza, por estar sempre em movimento, já traz condições adversas.
O que pode ter acontecido, na sua opinião e pela sua experiência, para o desmoronamento do teto da gruta?
Sobre o desmoronamento do teto da gruta, pela minha experiência, posso dizer que é difícil a gente comentar um fato acontecido, que envolveu vidas, que são irmãos de farda que estavam naquele local, pais e mães de famílias, filhos e filhas. Pela minha experiência, existia chuva, um ambiente adverso, onde pode acontecer qualquer tipo de colapso e junta a semana inteira de chuva mais a localidade e tudo mais, geralmente corre esse risco. Acredito que fizeram análise de risco, a escola está dando todo apoio aos familiares e tudo mais e isso é importante, mas são lugares adversos e falar realmente o que aconteceu somente a Polícia Civil e especialistas no local vão especificar. Eu não estava lá, então é difícil a gente comentar, existem várias opiniões, mas quando envolve vidas assim a gente fica até triste de fazer algum tipo de comentário porque nada vai mudar isso, tem que mudar de agora para frente, de que forma trabalhar e tudo mais.



