Nelise Luques
A ligação com os avós despertou desde a infância o interesse pelo cuidar. Ainda criança, Laurence Dias de Oliveira, 40, já compartilhava com os professores o desejo de ser médico. A vontade se concretizou e o Doutor Laurence vem escrevendo uma história exemplar na Medicina.
O lado humano e inovador se destacam. A busca pelo sorriso em momentos de dor, também. Ele é o entrevistado do Jornal Verdade e uma forma de prestar homenagem aos profissionais da área no Dia do Médico, comemorado em 18 de outubro.
Laurence é ortopedista, especialista em mão e microcirurgia do Grupo Santa Casa de Franca, com atuação no Hospital Geral e AME, além de ser diretor técnico do Hospital do Coração e Câncer e médico da Unimed.
Como foi o despertar para a Medicina? O senhor costuma dizer que desde criança falava em ser médico. Como é essa história?
Sempre fui muito ligado aos meus avós e acho que isso pode ter despertado o sentimento do cuidar. Tive toda minha vida escolar no Pestalozzi, em Franca, e me lembro de desde pequeno comentar com os professores sobre ser médico.
O que mais te chama a atenção na área da Medicina?
A possibilidade de diminuir o sofrimento e as angústias dos pacientes.
O senhor é um médico jovem, mas já construiu um jeito próprio de atuar, com destaque para a humanização, afeto e inovações. Conte-nos um pouco sobre o ‘Doutor Laurence’?
Tento atender meus pacientes com empatia, sempre tentando fazer o melhor, acredito no poder das novas tecnologias e medicações, mas também que elas, sem o olhar, o toque, a atenção e as palavras dos profissionais da saúde não são capazes de resolver nada.
Como surgiu a oportunidade de ser diretor no Hospital do Câncer e Coração?
Sempre fui muito próximo ao Serviço de Residência Médica e com isso comecei a frequentar as reuniões da diretoria da Santa Casa e estas me fizeram voltar os olhos para a gestão hospitalar. Fiz pós-graduação em Gestão e Saúde pela FGV e daí veio a oportunidade de assumir a direção técnica do Hospital do Câncer e Coração.
O senhor realizou adaptações na estrutura do Hospital do Câncer e deixou o ambiente mais acolhedor e alegre. Os pacientes comentam sobre o espaço? É possível perceber os ganhos que essas mudanças geraram para os pacientes, é claro, mas também para os profissionais e familiares?
A melhoria no acolhimento e humanização do paciente é uma busca constante. Conseguimos grandes melhorias na ala de quimioterapia do Câncer infanto-juvenil, uma grande expansão da recepção central e, no final de novembro, iremos entregar novos consultórios médicos e da equipe multidisciplinar, além de uma nova área de medicação e coleta de exames. Temos tido um ótimo feedback dos pacientes e familiares. A melhoria nas instalações propicia um ambiente mais aconchegante, tranquilo e acolhedor não só para os pacientes, mas também para seus familiares.
Além de inovar as salas e instalações do hospital, o senhor idealizou passeios e comemorações de datas especiais. Gostaria que comentasse sobre essas iniciativas.
Antes da pandemia, conseguimos realizar uma visita, junto com as crianças do Hospital do Câncer ao Zoológico e ao Parque Gorilão em Ribeirão Preto. Com a pandemia, as viagens ficaram suspensas, mas conseguimos, mantendo os protocolos de segurança, manter as comemorações do Dia das Crianças, Páscoa, Natal, além da festa junina. O clima tenso e duvidoso da doença e do tratamento não pode tirar o sorriso e a esperança dos pacientes.
Que ação está entre as mais marcantes para o senhor e por que? Sinta-se à vontade para comentar o seu sentimento, a reação de algum paciente e benefícios que pôde perceber com essas iniciativas.
Todas as ações são gratificantes e com história própria. Contamos sempre com parceiros que ‘compram as ideias’ e nos ajudam a construir essas histórias. Uma história que me marcou muito foi a ação junto com irmãos que possibilitou o implante dentário em um paciente muito novo que tinha perdido a dentição em consequência do câncer. Acredito muito no poder do sorriso.
Acredito que pelo seu perfil as ideias na sua cabeça devem fervilhar. Pode compartilhar com a gente as próximas novidades que os pacientes atendidos em Franca devem ganhar?
Temos vários projetos em andamento, na estrutura física, na renovação do parque tecnológico e na humanização, mas não vamos estragar a surpresa (risos).
E sobre a Capelania, a assistência religiosa-espiritual, também é um serviço que nasce no HC na sua gestão, certo? O que motivou a implantação?
Temos muito orgulho desse projeto, que como muitos outros, sem ajuda e trabalho incansável da gerente assistencial Wiviane Nogueira não teria saído do papel. Acreditar em uma força maior, independente das suas crenças, traz palavras de conforto e amparo aos pacientes e familiares .
Doutor, não temos como falar do Dia do Médico sem relembrar o desafio do último um ano e meio frente à pandemia da Covid-19. Qual foi o seu primeiro contato com um caso de coronavírus? O senhor se lembra da data e como foi esse momento e a sensação?
Realmente está sendo um grande desafio, nossa primeira internação de um caso de coronavírus foi no dia 21 de março de 2020, foi uma mistura de medo, respeito e gana. Ainda não se tinha muitas informações sobre segurança, transmissão e o medo de se contaminar era grande, mas a vontade e a gana de salvar o próximo sempre foram maiores.
Costumo dizer que uma palavra que bem define o coronavírus é a incerteza. Especialmente no início, tudo era muito incerto: a capacidade real do vírus, as sequelas que poderia causar, a proporção que alcançaria no mundo, no país e na cidade, a vacina, entre outras questões. Como foi – ou ainda é – estar no comando de uma equipe diante desse cenário?
Começamos do zero, criamos protocolos para tudo, de paramentação de proteção individual, a entrada e saída de pacientes, de isolamento de suspeitos até os protocolos de reabilitação motora. Foram longos meses de reuniões diárias buscando soluções para problemas ainda não vividos. Graças a uma equipe muito dedicada, conseguimos avançar.
Qual foi o momento mais desafiador para o senhor e como superou?
Com certeza foi a superlotação e a falta de leitos. A diretoria administrativa e executiva, através de um trabalho árduo, conseguiu levantar financiamento para ampliação dos mesmos e junto com a colaboração do corpo clínico da instituição estes foram implantados.
Sabemos do estresse e pressão que os profissionais da saúde vivenciam até hoje por conta da pandemia. Que mensagem o senhor pode deixar para eles?
Tenho muito orgulho de cada um deles, que enfrentaram tudo com disposição. Só tenho que agradecer, tenho muita sorte de ter uma equipe tão comprometida.
Doutor, não apenas com a pandemia, mas a área de oncologia em especial, traz muitas perdas de pacientes. Pela convivência tão próxima, acredito que criam-se vínculos com esses pacientes e familiares. Como o senhor lida com a morte dos pacientes, às vezes crianças?
Esse é um assunto que não lido muito bem, vivo cada paciente, cada doença e infelizmente cada perda. O respeito a cada familiar e sua perda é enorme, mas o trabalho precisa continuar na tentativa de salvar outras vidas.
O senhor é casado com uma médica. Como é ter na família dois médicos? Também é desafiador administrar a rotina de trabalho e família?
Tenho uma grande parceira que me apoia em tudo e acho que isso facilita muito. Em muitas ações ela está envolvida diretamente. A família é o nosso alicerce, minhas filhas são maravilhosas, apesar do tempo curto que as vezes temos, espero que elas tenham orgulho e entendimento da ausência do pai, mas com certeza não é fácil.
Doutor, qual o senhor maior sonho ou projeto enquanto médico?
Melhorar o acesso à saúde e que todos tenham a possibilidade de ter o melhor dela, independente da condição financeira.