Um estudo realizado pelo projeto “Análise em Rede”, do economista Adnan Jebailey, mostra que pessoas negras ganham até 21% menos que pessoas brancas em Franca. O estudo foi disponibilizado com exclusividade ao jornal Verdade.
O abismo causado pela cor da pele, foi levantado através de uma extensa base de dados do antigo Ministério do Trabalho, entre os anos de 2007 a 2019, e apontam que a média da diferença salarial entre negros e brancos é de 6,5%. Jebailey concluiu que a diferença salarial se altera ao longo do tempo, devido à diversas circunstâncias econômicas.
“É possível analisar através dos dados, que em períodos onde a economia vai bem, pleno emprego, a diferença salarial chega em torno de 12%, porém em períodos de crise a diferença salarial é menor”, destacou.
Ainda no estudo, Adnan concluiu que em momentos de bonança econômica a desigualdade salarial fica ainda mais clara. “Quando o mercado vai bem e a maioria da população está empregada, nem a escassez de mão de obra aumenta o salário dos negros, o que de fato comprova uma desigualdade racial no mercado de trabalho”.
O estudo também fez uma análise entre negros e brancos inseridos no mercado formal de trabalho tomando como base a variável da escolaridade.
O levantamento demonstrou que para negros e brancos com escolaridade até o ensino médio completo, a diferença salarial fica em torno de 5,15%. Entretanto, quando analisada a diferença salarial para negros e brancos com superior incompleto e completo a diferença salarial é 20,79%, ou seja, os negros com ensino superior ganham até 1/5 menos que os brancos na cidade.
“Essa análise através da escolaridade vem corroborar a necessidade de políticas afirmativas não só para ingresso no ensino superior, mas também para redução dessa diferença salarial para aqueles que estão formados ou estão se formando. Infelizmente a desigualdade racial ainda está entranhada no mercado de trabalho nacional” explica o economista.

O economista Adnan Jebailey destacou que o racismo no mercado de trabalho pode parecer longe, mas que os dados mostram que essa realidade cruel está ao nosso lado.
“Quando eu fui fazer esse estudo eu já imaginava. A gente tem bastante dados a nível Brasil, mas é muito diferente quando a gente olha do nosso lado, na nossa realidade. A desigualdade em relação a negros parece que está sempre lá e não aqui, mas isso está em todos os lugares. Não há diferença em ação geográfica. Não é porque é no Nordeste, porque é no Sudeste, a discriminação está em todos os lugares” ponderou.
Adnan ressaltou ainda que o levantamento chama a atenção para a questão das cotas raciais, que embora tenham facilitado o acesso ao ensino superior, o racismo se impõe após a formação já no mercado de trabalho. “Pensamos que o negro está entrando no ensino superior, que conseguimos uma política afirmativa, mas só que depois a gente faz o mesmo processo que fizemos na abolição da escravatura: abandonamos o negro. Imaginamos que depois de conseguir entrar na universidade ele vai para o mercado de trabalho que está concorrendo em pé de igualdade com todo mundo e não é verdade. O racismo se entranha e se coloca novamente na hora de conseguir um emprego, então é muito complicado e doloroso. É importante divulgar esses dados justamente para que se pense políticas afirmativas para essa questão do mercado de trabalho. Quando você esconde dados, você tem visão rasa sobre a questão. Dados são essenciais” finalizou.
O professor de Sociologia, Matheus Barbosa Ribeiro, destacou que os dados apontados pelo estudo podem ser explicados a partir de uma abordagem histórica. Para ele os brasileiros são filhos do período da escravidão, nesta condição reproduzimos os erros dos nossos antepassados mesmo que com novas roupagens.
“O negro continua sendo visto como mão de obra a ser usurpada, explorada. Infelizmente no seio da sociedade ainda persiste certa consciência social de que os privilégios não existem ou que são irrelevantes. Os números apenas denunciam o que qualquer negro experimenta no cotidiano: o olhar de suspeita, de desprezo, de comparação e de exigência maior para se manter no mercado”, avaliou.
Ainda na análise, Ribeiro salientou que o preconceito é perpetuado pela ignorância causada por uma educação deficitária. Para ele a situação se agrava por conta da tentativa das pessoas em camuflar essa realidade, o que pode deixar a impressão de que no Brasil o problema não existe, ou que não seria um problema relevante. “A falta de uma educação de qualidade impede uma ruptura radical com essa mentalidade. Um sistema judiciário poderia ser um bom aliado para corrigir tais situações, impondo a gravidade necessária nesses casos”.
Quanto ao mercado de trabalho, o professor finalizou acrescentando que é uma área de grande controvérsia, já que existem dificuldades para regular a diferença salarial. “Muitas vezes (como acontece com as mulheres), os empregadores conseguem maquiar essas disparidades salariais, inventando motivos diversos para tal. Acredito que o próprio consumidor pode auxiliar nesse sentido, preferindo empresas que praticam a cultura antirracista, que valorizam colaboradores negros, mulheres, deficientes. Em segundo passo, a fiscalização por parte do Estado é fundamental, sobretudo na investigação minuciosa de denúncias. As duas possibilidades só podem ser realidade a longo prazo, no âmbito da construção de uma nova consciência social, coletiva”.