Vinte e cinco de maio de 2020, Minneapolis, Estados Unidos. O que provavelmente seria mais uma abordagem policial, termina com a morte de George Floyd, ex- segurança que segundo a polícia, usou uma nota falsa de 20 dólares em um supermercado da cidade de mais de 400 mil habitantes.
A morte causada por asfixia pelo policial que se ajoelhou no pescoço de Floyd foi filmada. As imagens chocam e causaram indignação por todo o mundo, culminando em uma onda de protestos nos EUA, Europa, América Latina e em alguns países asiáticos. E assim o tema do racismo voltou a ser frequente nas rodas de conversas e nos debates públicos, causando uma reflexão tão necessária nos dias de hoje.
De acordo com os dados do IBGE, mais de 50% da população brasileira é composta de negros ou pardos, e mesmo assim os mesmos não possuem grande representação no congresso, nas faculdades, no judiciário ou mesmo na publicidade.
O historiador de Franca, Jonas Marangoni, destacou a relevância e a importância dos protestos que se espalharam pelo mundo. Para ele isso é apenas o começo do debate. Nessa matéria especial sobre o tema, o jornal Verdade traz para Franca o assunto que ocupou o noticiário internacional nos últimos dez dias.
O início
“O racismo é algo estrutural em países que tiveram escravidão intensa como o Brasil e Estados Unidos. Os EUA até a década de 1960, no sul do país, os negros ainda buscavam direitos. Havia um apartheid onde os direitos civis dos negros não eram respeitados. Então é diferentemente daqui onde o racismo é velado, nos Estados Unidos, o racismo sempre foi muito direto, inclusive com grupos de supremacia branca como Ku Klus Klan”, iniciou o professor.
Situação comum
Jonas explicou que o caso de Floyd está longe de ser o primeiro de violência policial gratuita contra negros nos Estados Unidos. Segundo ele, em 1982, em Los Angeles foi registrado o caso de um homem negro que foi morto e os policiais simplesmente não foram condenados.
“Nos últimos anos voltou a crescer essa violência contra negros, com mortes sem justificativa e é sim uma reivindicação que a população lá faz e parece que se chegou a um estopim sério. Todos estão cansados, então os protestos são válidos, muito válidos. Entretanto, quando, por exemplo, tem saques e violência eu particularmente sou contra, embora também haja muitos infiltrados dentro do protesto para tentar gerar essa ideia que o protesto é violento, mas só a partir das pessoas indo para as ruas que talvez vai ter uma conscientização maior. É muito legal esse protesto se estender para outros países, o que mostra que o racismo não é específico de um único local”.
Mudanças
Para o professor de História o racismo é estrutural, e a mudança disso acontece através da educação já na sua base. “O racismo não é um simples preconceito. Ele é você tratar o outro homem como inferior. É algo abominável e infelizmente é estrutural, está dentro da nossa sociedade. Às vezes é um gesto às vezes é uma fala. O combate a isso está na conscientização mostrando para moçada que isso é errado.
Hoje, por exemplo, você vê uma juventude muito mais consciente do que de outras gerações, isto é resultado dessa conscientização de você mostrar que isso é errado. Não há outro caminho. Esse é o único caminho a ser seguido”.
Sentindo na pele
Embora o preconceito tenha ganhando páginas de jornais e cada vez mais espaço na TV, no rádio e na internet, ele está longe de ser novidade na vida da maioria dos brasileiros. A estudante de pedagogia e fotógrafa Sara Fidelis, topou falar do assunto com a nossa reportagem. No relato dela, o preconceito no Brasil é velado, está no olhar, no comportamento das pessoas.
“Graças a Deus verbalmente nunca sofri preconceito, da pessoa falar para mim. Mas pode notar que a pessoa te olha diferente em lojas às vezes, entrevista de emprego, a pessoa pode te olhar diferente. Eu acho isso tudo muito triste, porque para mim somos todos irmãos, só mudamos um pouco a raça, o estilo, os gostos, mas somos de carne e osso”.
A futura professora relatou ainda que desde pequena o assunto é debatido na casa dela com os pais. “Era aquele cuidado né? Cuidado com o fulano, se falar algo você não retruca, conta para mim e era desse jeito, aprendi a não plantar aquilo que a pessoa está colhendo, mas sim conversar e evitar dar o prazer para a pessoa que estiver te ofendendo”, completou.
Infelizmente o caso de Sara pode ser uma exceção entre os negros. O estudante de Direito G.G.L.J. está no terceiro ano da faculdade. Ele prefere não se identificar porque faz estágio em uma empresa e teme que pode ser prejudicado. No relato dele as pessoas negras sempre são vistas com uma desconfiança em qualquer ambiente, mesmo nos mais simples.
O jovem pediu para usarmos preto, ao invés de negro. “O preconceito sempre esteve presente na minha vida. Na faculdade podemos contar nos dedos os alunos pretos, nas novelas não estamos, nos jornais a gente só aparece quando a notícia é ruim. Sinto que em várias entrevistas de emprego que fui, o fator da minha cor da pele foi um impedimento, embora as pessoas não assumam isso, mas só quem sente na pele entende o que eu estou falando”.
O futuro advogado relatou que desde a infância já sofria com estereótipos impostos pela sociedade, mas que não percebia e que nunca viu por parte da escola uma tentativa de mudar isso.
“Quando somos crianças a gente não percebe, mas depois de adulto você reavalia algumas situações e vê o quanto alguns professores, o estado são inertes em relação a isso. Hoje estudo, quero ser advogado e não nego que tenho medo de não conseguir emprego por conta da cor da minha pele. Eu quero mudar isso, quero que tenhamos um mundo melhor. Essas manifestações estão aí em uma boa hora, torço para que não seja apenas fogo de palha e amanhã todos já tenham esquecido, porque cor de pele a gente não muda”, finalizou.