Nelise Luques
Samuel Gonçalves tinha 12 anos quando estava na lanchonete de sua mãe e foi surpreendido com o “presente” de uma cliente. Ela levou em um copo plástico mudas de suculentas. Era para a mãe dele, mas sem tempo para cuidar das plantinhas, a tarefa foi transferida para ele. Ali brotou a paixão pelas plantas.
Ele se formou em Biologia e fez mestrado e doutorado em Botânica na renomada UFMG. Há pouco mais de quatro anos criou o canal no Youtube “Um Botânico no Apartamento”, onde transforma conhecimentos científicos sobre o cultivo das espécies em dicas práticas e compreensíveis para serem aplicadas no dia a dia de quem é “pai ou mãe de plantas”, como costuma dizer.
O youtuber tem 580 mil seguidores no Canal e outros 181 mil no Instagram. Professor e palestrante, ele é famoso pela floresta com mais de 1,2 mil plantas que cultiva dentro de um apartamento na capital mineira, Belo Horizonte.
Samuel esteve em Franca no fim de outubro para palestrar na 1ª ExpoGarden, na Sapucaia Paisagismo, e concedeu uma entrevista exclusiva ao Verdade. Um pouco mais da sua história, curiosidades, dicas para cuidar das plantas – como o uso de água oxigenada -, e sonhos futuros permearam esse bate-papo, marcado por muito alto astral e informação. Confira!
Como você avalia iniciativas como essa 1ª ExpoGarden Sapucaia aqui em Franca?
Eu acho que sempre é bom quando uma empresa busca essa interação do público com o conhecimento, com informações técnicas para conseguir entrar em contato com produtores de plantas, com fornecedores de produtos, de vasos e aprender também, obviamente, com os workshops, as palestras, é sempre válido levar conhecimento para as pessoas.
Você fez duas palestras neste evento. Que avaliação faz do contato com o público de Franca?
Olha, eu fiquei impactado. Tinha muita gente nas palestras, realmente a gente esperava uma grande quantidade de pessoas, mas como não teve inscrição, fica sempre aquela dúvida, será que vai ter muita gente? Faltou lugar para o pessoal se sentar nas cadeias.
O que você acha que tem despertado interesse das pessoas por essa busca de conhecimento?
É muito interessante pensar que a gente realmente vive um período meio nebuloso em relação às fake news e as fake news vão até nas plantas. Isso é meio chocante de pensar. E quando as pessoas vêem meu canal, por exemplo, como eu sou doutor em Botânica, eu sempre tento usar o conhecimento científico e transformá-lo em informações sobre jardinagem. Eu pego a informação científica e levo para o cultivo do dia a dia com as plantas. Então o pessoal confia muito nessas informações que eu falo, realmente ajudando a evitar erros por causa dessas que eu estou chamando de fake news das plantas.
E Samuel, como nasce a sua ligação e paixão pelas plantas, que começou quando você era criança?
Na realidade, um adolescente, iniciou aos 12 anos de idade, quando eu ganhei minhas primeiras folhinhas brotadas de suculenta. Fiz elas nascerem, cresceram, viraram plantas maravilhosas e aí começou a paixão por violetas, orquídeas, e eu comecei a colecionar. Meu pai me ajudou a fazer como se fosse uma estufa na casa quando eu já estava com mais de 200 orquídeas. E aí gostei tanto de planta que eu fui fazer Biologia na faculdade, fiz mestrado e doutorado em Botânica, sou professor da rede federal de ensino e aí a ideia do canal surgiu também nessa pegada de levar o conhecimento científico para o dia a dia mesmo da gente.
E quem que te presenteou com esses primeiros exemplares?
Foi uma cliente da lanchonete da minha mãe, uma lanchonete de bairro, que minha mãe tinha dentro de um supermercado. Uma cliente dela chegou com um copo de plástico com 12 folhinhas brotadas de uma suculenta. Ela ofereceu para minha mãe na realidade, falou, Fátima, eu estou aqui com umas mudinhas dessa suculenta, você quer? Aí minha mãe disse que não estava cuidando muito, mas falou, talvez o Samuel queira. Samuel, vem cá. Eu falei, que é isso? Como assim uma folha brotou e é uma muda? Aí eu já fiquei super curioso para entender o processo biológico que aconteceu ali e obviamente isso foi um grande gatilho para querer estudar plantas também.
O que elas representam na sua vida hoje?
Nossa, como eu posso responder isso? Tudo! Basicamente a minha vida. Olha, eu virei professor de uma instituição federal porque eu tenho doutorado, então fiz um concurso público, sou concursado. Eu consegui um canal exatamente porque eu lido com as plantas constantemente e a aproximação com as pessoas, isso que a gente tem, exatamente o que eu tive aqui em Franca, um tanto de gente tirando fotos, querendo conversar comigo, tirar dúvidas sobre as plantas, no próprio YouTube, no próprio Instagram, que são as minhas maiores mídias sociais, então assim, essa integração, a interação que a gente tem com as pessoas. Eu sempre falo que as plantas unem as pessoas, elas se tornaram uma ponte. E o período da pandemia, por mais chocante, por mais horrível que ele tenha sido, do ponto de vista das plantas, ele foi maravilhoso, porque muita gente que estava em casa, por exemplo, eu sei que é estranho, não é que o período da pandemia foi maravilhoso, mas quero dizer que para as pessoas as plantas ajudaram muito no período da pandemia, em um processo de ter uma ocupação mental, de ter uma atividade a fazer e elas podiam ficar dentro de casa, cuidando das suas plantas, então teve um monte de gente que virou pai e mãe de planta no período da pandemia. É muito interessante ver como as pessoas se ligaram às plantas, aos animais. Então, no final das contas, teve um monte de mãe e pai de pet também que surgiram na pandemia, exatamente nessa busca de uma reconexão com algo que a gente talvez tenha perdido em períodos em que a gente não tinha esse tempo para pensar na própria vida. O fato da gente ter que ter ficado em casa, e muitas pessoas puderam realmente ficar em casa e ao refletir e ter que analisar o que fazer, descobriram novos hobbies ou redescobriram coisas que já gostavam, mas que tinham parado de fazer aquilo durante um tempo.
Samuel, você criou uma floresta dentro de um apartamento! Explica para a gente essa empreitada. São 1200 plantas mesmo?
(risos) Eu acho que eu parei de contar quando cheguei às 1.200. O que acontece? A cada vez que eu vou a uma floricultura, eu vejo uma planta nova e quero levar para casa. Então assim, eu morava num apartamento que tinha basicamente as plantas na área interna, uma sala muito grande, ela tinha sete metros e meio por quatro metros e meio, era uma sala realmente muito ampla, de um apartamento mais antigo, mas começou a ficar pequeno, começou a ficar pequeno, e as plantas subindo pela parede, espalhando pelo chão, eu falei, opa, precisamos mudar. Aí encontrei um apartamento que tinha uma área privativa, uma área externa, como se fosse uma grande varanda, com 45 metros quadrados externos, só na área para as plantas. Nesse espaço, eu tampei metade com um sombrite, onde ficam as plantas de sombra, e a outra metade para as suculentas, que são plantas de sol pleno.

E que espécies você reuniu? Tem orquídeas, samambaias?
Olha, interessantíssima a sua pergunta. Eu sou um cara viciado em suculenta e viciado em folhagem, principalmente folhagem mais rara, eu gosto daquela planta super exótica, sabe? Então, samambaia, eu amo, as exóticas, então eu vou para samambaia formiga, samambaia drynaria, eu gosto do diferente, a folhagem, quanto mais rara, mais eu gosto, quero colecionar e eu tenho essa coleção de umas 1.200 a 1.400 plantas, mais ou menos (risos).
E quem cuida desse “arsenal” de plantas. Você tem ajuda?
Então, somos uma equipe gigantesca de duas pessoas cuidando lá em casa (risos). O Brendo, que é o diretor, produtor do meu canal, que é o meu marido. Ele cuida junto comigo de todas as plantas. É uma dedicação diária, todo dia você tem que dar uma olhada se precisa regar, porque essa região onde ficam as plantas é bem ventilada, então depende do tempo, se está quente, se está frio, a gente vai controlando isso e, mais ou menos uma vez na semana, a gente dá uma vasculhada maior para ver se tem alguma praga, alguma planta que apodreceu, se está precisando regar, adubar, então tem esse controle semanal. Eu diria que quem quer ter planta, e isso funciona já como uma dica, pode ter o tanto de planta que achar que dá conta, mas tem que adequar o seu tempo àquele cultivo e cuidado. Não adianta eu ter mil plantas e me dedicar a elas uma vez no mês, elas vão morrer, não tem jeito. Então, cada pessoa tem que adequar o seu ritmo de vida ao tanto de planta que dá conta e que gostaria de cuidar também.
Onde é esse apartamento e há quanto tempo mais ou menos começou a nascer essa floresta?
Interessante a pergunta. Eu moro em Belo Horizonte, num bairro próximo ao Cefet, que é onde eu dou aula, então eu vou a pé para o Cefet. É um bairro tranquilo de Belo Horizonte e, aliás, é engraçado porque muita gente acha que eu sou de São Paulo, de Goiânia e outros lugares. E essa floresta mesmo começou com o Brendo, então há uns quatro anos e meio atrás, mais ou menos. Tanto que ele que deu o pontapé do canal, que foi assim, por que você não tem um canal de planta no Youtube? Eu falei, porque já tem um milhão de canais de plantas. E ele falou, mas ninguém é doutor em botânica. Eu falei, opa, então vamos conectar essas informações, fazer um canal que tenha botânica, mas que tem o cultivo. Então esse foi um grande diferencial no início, porque todo mundo já ensinava a cuidar de plantas, mas ninguém usava artigo científico. Eu faço isso, então eu começo alguns vídeos, por exemplo, o da água oxigenada, que é o mais visto do canal até hoje, eu falo assim, foi confirmado pela ciência, a água oxigenada ajuda essas plantas a ficarem mais saudáveis e sem pragas. E isso é muito bom!

Você faz essa tradução para o público?
Exato. Na faculdade existe o tripé pesquisa, ensino e extensão, as universidades trabalham nessa lógica. Isso seria a ideia da extensão, que é levar para o público, para pessoas que não têm esse conhecimento acadêmico, esse conhecimento científico, informações que são produzidas pelas pesquisas científicas das faculdades. O canal está com quatro anos e pouco e tem 580 mil seguidores.
E como você organiza a produção de conteúdo, conciliando com a sua rotina de professor, palestrante e ainda os cuidados com as plantas?
Atualmente a gente está com pouco conteúdo no canal, exatamente pelo tanto de viagem que a gente está fazendo. Mas o que é que a gente sempre faz? As palestras e workshops concentramos nos finais de semana, porque eu dou aula até as quintas-feiras, eu sou professor de ensino médio e eu dou aulas em períodos alternados, manhã ou tarde, então eu consigo no horário em que eu não estou dando aula, produzir conteúdo, dar atenção ao público. E, obviamente, aquele momento da noite, antes de dormir, o celular está na mão e eu respondo algumas perguntas, tiro dúvidas de algumas pessoas. E um detalhe interessante é que sou eu que respondo todas as dúvidas das mais de 180 mil pessoas do Instagram, eu não deixo o Brendo responder porque se não eu perco essa ideia, se já respondi, se já conversei com essa pessoa ou não, então eu gosto que seja uma coisa só minha mesmo. E também é essa tentativa de sempre levar a informação mais precisa possível para o meu público em todas as mídias sociais do Um Botânico no Apartamento, no YouTube, Instagram e TikTok. Temos também um grupo no Facebook, de mesmo nome, onde as pessoas interagem entre si, eu regulo coisas que não devem aparecer, uma propaganda de alguma coisa que não tem nada a ver com planta, mas eu interajo menos nesse grupo do que no Instagram. O Instagram eu diria que é a minha mídia social de maior integração com o público, diretamente tirando dúvidas, respondendo as pessoas e onde eu mais divulgo o conteúdo é no Youtube mesmo.
Samuel, você nos disse que esse canal no Youtube surgiu de surpresa, de repente, e hoje você tem uma legião de seguidores. Como avalia ter investido na ideia?
Valeu muito a pena, porque eu gosto muito de ser professor, independentemente de como é e como isso chega, em que tipo de público seja. Eu adoro ensinar, acho que esse é o grande mote da minha vida, eu tenho pais professores, então acabei herdando isso deles. E o fato de produzir conhecimento na faculdade, porque eu já fiz pesquisa científica, o meu doutorado e meu mestrado viraram artigos científicos, mas é muito restrito, é muito específico e diretamente a pesquisa científica, a que eu fiz pelo menos, não servia diretamente para a minha avó, não servia diretamente para a minha mãe, para o meu pai, não serve diretamente para o meu filho. Indiretamente é que, é claro, isso vai ter algum fundamento. Quando eu tive essa ideia da tradução de coisas científicas para o cultivo de plantas, aí foi sucesso.
Já falamos de algumas dicas nessa conversa, mas você pode trazer mais algumas para os nossos leitores? Pode ser a famosa da água oxigenada para curar plantas!
Claro, com certeza. A água oxigenada é um negócio muito genial, tem que ser usada a transparente, sendo uma colher de sopa em 250 ml de água e você pode regar a planta, pode borrifar as folhas e ela protege contra fungos, contra bactéria, é realmente maravilhosa, super prática, fácil de encontrar. E assim, o que a gente tem que tomar cuidado em relação ao cultivo de plantas e isso também é uma das propostas da minha palestra é que para a gente ser um expert em planta não é de um dia para o outro, não é de repente, não é só assistindo um vídeo do Youtube, então a gente precisa realmente correr atrás da informação e eu falo sempre que a gente tem que duvidar da informação que encontrou. Você pesquisa de novo, vê se tem outra fonte dizendo a mesma coisa e aí pode ser que aquela informação seja verdadeira. Confere de novo para ver se aquilo é uma informação correta. Então, para cultivar a planta, a gente tem que olhar o vaso, substrato, rega, luz e adubação, são 5 coisas principais. São tantas variáveis, mas se eu não atentar a todas elas e só olhar para uma delas, o resto dá errado. Então, o cultivo depende, obviamente, de um investimento de tempo e investimento em conhecimento, a gente tem que correr atrás da informação mesmo. Uma outra dica muito importante é a calda de detergente, que é, digamos, uma receita de vó, e é ótima contra pragas. Usa 50 ml de detergente neutro, aquele amarelinho, em 1 litro de água, mata cochonilha, mata pulgão, mata ácaro.
E não mata a planta?
Aí que está a grande questão, foi ótimo você ter perguntado, porque algumas plantas são sensíveis ao detergente, ou seja, tudo o que se ouvir na vida que é ótimo para melhorar alguma coisa na planta, testa em uma folha, em um galho, não vai jogar na sua coleção inteira de uma vez. Então, por exemplo, tudo o que você vai usar para tratar, adubar ou proteger a sua planta contra alguma praga deve ser no período do finalzinho da tarde, quando o sol já foi embora, porque muitas dessas substâncias geram a fotossensibilidade na planta, ou seja, o detergente queima a folha de algumas plantas, então sempre tem que testar em uma parte, em uma folhinha para ver se a sua planta não é sensível. Se for, tem que testar outro produto.
Samuel, você é a prova de que em apartamentos também conseguimos cultivar plantas, tem espécies mais adequadas para esses ambientes?
Olha, folhagens em geral são excelentes para apartamentos. Uma dica que eu sempre dou são as folhagens verde escuras. Quanto mais escura é a folha da planta, menos sol ela precisa. Essa dica é fundamental. Suculentas, via de regra, precisam de sol, mas pode ser uma janela, por exemplo, não precisa ser o sol o dia inteiro, e tem suculenta de sombra também, que são as de folha mais verde escura. Ou seja, folhagens em geral, samambaias são ótimas para apartamento desde que não tenha vento porque elas detestam, e muita umidade, muita claridade, mas sem sol forte. Uma questão importante, porém, é que quando a gente fala em uma planta de apartamento, nunca pode ser num ambiente escuro do apartamento, no sentido de você não conseguir nem ler um livro no local. Então essa dica é fundamental. Abra um livro na sala, se chega luz suficiente para você ler o que está escrito naquele livro, naquele lugar, pode ficar uma planta de sombra.

FOTO: WILKER MAIA
Quais são seus projetos futuros nessa “missão” de divulgar informações sobre o cultivo de plantas?
Nossa! Pois é, um dos meus grandes sonhos eu já estou realizando viajando o Brasil inteiro dando palestras, porque eu adoro conhecer lugares novos e pessoas novas e realmente esse contato com o público, que só pela internet, é óbvio que é super legal, mas ver as pessoas, abraçá-las, tirar fotos, é outra experiência. O meu sonho, grande, master, é ir para fora do Brasil e gravar as plantas na natureza, todas essas que a gente encontra em vasos por aqui, para falar como ela fica lá no ambiente natural, é o meu grande sonho do momento. E já tem segredo, não posso contar detalhes, mas já tem viagem marcada.
E para finalizar, já comentamos aqui, mas queria que você falasse um pouco mais sobre o efeito terapêutico das plantas.
Eu acho importante a gente deixar claro uma informação sobre isso. Muita gente fala o seguinte: as plantas são minha terapia. Todo mundo que fala isso eu corrijo, porque terapia é uma coisa que é muito exata, é tratar com o terapeuta, com psicólogo e fazer também tratamento psiquiátrico. Então depressão, por exemplo, a gente trata com medicamento e com psicólogo, o que que as plantas são? Elas não substituem, elas são auxiliares terapêuticos, então todo mundo deveria cultivar plantas? Sim. São ótimas, excelentes para ajudar a gente a melhorar, para ajudar a gente a sair da depressão. Uma senhora me encontrou aqui na palestra, me abraçou, até chorou e falou assim, olha, você me ajudou a melhorar do meu câncer, com o seu canal, com os seus vídeos, eu fico super bem, super feliz te assistindo, não é maravilhoso isso? E o que é importante? É a gente saber que as plantas realmente têm essa ideia de auxiliar na terapia, mas elas não podem, não devem de jeito nenhum substituir nenhuma terapia contra a depressão, contra ansiedade, contra qualquer outra questão psicológica, psiquiátrica que a gente precisa realmente de ajuda profissional. É uma ajuda, não um substituto.