O menino de apenas sete anos suspeito de ter sido abandonado pelo próprio pai na porta de uma padaria, no Jardim Vera Cruz, na manhã do último domingo (16), segue sob os cuidados de uma Família Acolhedora. O programa municipal de Acolhimento Institucional mantém pessoas cadastradas – habilitadas e aprovadas – para receber crianças e adolescentes que necessitam ser retirados de suas famílias por estarem sob risco.
Na nova casa, o garoto recebe todos os cuidados necessários, desde alimentação, vestuário, calçados, medicamentos – se necessário, frequentará a escola normalmente e poderá praticar outras atividades, como as esportivas. Ele permanecerá com a família por tempo indeterminado, enquanto o pai e familiares serão acompanhados pela Vara da Infância e da Juventude e pela equipe do Programa Família Acolhedora para definir se poderá regressar para a casa do pai, ter a guarda assumida por outro parente ou até ser encaminhado para adoção. “Ele será tratado como um filho, com todos os seus direitos sendo cumpridos. As equipes que acompanharão o caso agora vão estudar a situação do pai e das tias para decidir o futuro dele. A preferência é que fique com alguém da família”, afirmou a conselheira tutelar Gláucia Machado Limonti, que aplicou a medida protetiva de acolhimento da criança, para resguardá-la.
O caso aconteceu na manhã do último domingo (16). Por volta das 6h, câmeras de segurança registraram o momento em que pai e filho aparecem se aproximando de uma padaria no Jardim Vera Cruz. Apenas a criança entra no estabelecimento e depois é vista sentada na calçada, sozinha, descalça. Ao notar as condições do menino, populares acionaram a Polícia Militar, que fez buscas pelo bairro e conseguiu localizar o pai dele.
Uma mulher que trabalha na padaria disse que o garoto estava com fome, cansado e roupas sujas quando chegou ao local. Ela o acolheu, deu café, leite e pão para se alimentar e depois arrumou um colchão com cobertor para ele dormir no próprio comércio.
Os policiais acionaram o Conselho Tutelar e, segundo a conselheira Gláucia Limonti, na segunda-feira (17) estiveram na casa do pai, mas eles não estavam no local. Apenas na terça-feira (18) foram localizados no imóvel e, com apoio da Polícia Militar e Guarda Civil Municipal, a criança foi retirada e encaminhada para o Programa Família Acolhedora. “Ele se encontrava em uma situação muito precária, sem os cuidados necessários, de higiene, alimentação, e sem condições de continuar daquele jeito”, disse Gláucia.
Segundo a conselheira, o pai alegou que não abandonou o filho. “Ele disse que está tomando medicação desde que perdeu a mãe e que no domingo o filho quis entrar na padaria para pedir água e entrou sozinho. Ele disse que tinha tomado dois comprimidos de diazepam (ansiolítico) e devido ter dado muito sono, acabou dormindo na calçada e não abandonou o filho. Os dois têm um vínculo forte, ele diz que quer cuidar do filho, mas ele tem histórico de dependência química grave, de comprometimento, e ele próprio admite isso, então no momento não tem condições para isso”, afirmou ela.
O Conselho Tutelar acompanha pai e filho desde fevereiro deste ano, quando o órgão recebeu denúncias de maus tratos contra a criança. De acordo com a conselheira, desde então, foram encaminhados para os serviços de atendimento da Secretaria Municipal de Ação Social e estavam sendo acompanhados pelo Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). “O pai morava com o filho e a avó paterna da criança, que ajudava a cuidar dele, porque foi abandonado pela mãe que é usuária de drogas e está em situação de rua. Mas a avó faleceu. Segundo as denúncias de agora, ele estava passando a noite na rua com o filho, então realmente é uma situação de negligência”.
A Secretaria Municipal de Ação Social disse que ambos estavam sendo acompanhados e que, já assistido pelo Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes, o menino segue aguardando decisão da Justiça.
Gláucia disse que o caso gerou grande repercussão e, além de contatos da imprensa de Franca e outras cidades, o Conselho foi procurado por pessoas dispostas a acolher e ajudar o garoto, porque se sensibilizaram com a história. “O pessoal de Direitos Humanos de Brasília nos pediu um relatório sobre o caso porque querem auxiliar de alguma forma. Realmente as pessoas se comoveram com a situação deles.”