Nelise Luques
Pablo Henrique Barbosa de Carvalho nasceu em 14 de janeiro, Dia Internacional da Pipa, que, curiosamente, era um dos seus brinquedos favoritos. Seu sonho era voar, como as pipas. O menino carismático e sorridente partiu precocemente. No dia 25 de junho de 2018, com apenas seis anos, ele faleceu, em casa. Pablo sofria de uma cardiopatia grave.
Hoje, em Franca, Pablo Henrique dá nome a um instituto, no Bairro Miramontes, que acolhe famílias enlutadas, crianças com cardiopatias e comorbidades. O projeto foi idealizado por seus pais, Jefferson de Carvalho, 39 anos, e Najara Cristina Barbosa Carvalho, 33, que viram a possibilidade de transformar a dor em superação e uma forma de ajudar o próximo. Eles também são pais da Maria Clara e Mariana.
O Instituto Pablo Henrique nasceu no dia 25 de junho de 2020, após dois anos da morte dele. Em pouco mais de dois anos, já apoiou muitas famílias e, inspirado nos sonhos de Pablo, trabalha para alçar novos voos. Em entrevista ao Verdade, Jefferson detalha o projeto e planos futuros. Confira!
Jefferson, como surgiu a ideia de criar o Instituto Pablo Henrique em Franca?
Após eu fazer um pedido a Deus, para que o Pablo mandasse notícias, dizendo se estava feliz e bem, eu iria montar um lugar em nome dele para ajudar e levar amor às outras pessoas, como ele sempre trouxe para mim, para a nossa família e para todos.
Quanto tempo foi necessário até o projeto sair do papel?
Um ano e meio após sua partida, tive notícias dele, em dezembro de 2019, logo comecei a orquestrar o instituto que começou em minha casa e nas redes sociais.
Qual o objetivo de todo projeto?
Que juntos podemos tudo com amor, seu objetivo é ajudar pessoas, famílias no estado de luto e perdas. Também crianças e adolescentes nos cuidados paliativos e com comorbidades permanentes ou em estado terminal, oferecendo apoio psicológico, psicopedagógico, fisioterapia, nutrição, cultura e lazer.
Como foi a escolha do público-alvo do Instituto?
Meu filho tinha cardiopatia e seu sonho era ser pipa para voar no céu. Ele sempre dizia isso, acredito que ele realizou esse sonho. O outro sonho dele era ser policial militar, mas esse sonho, por conta da cirurgia, não seria possível para ele. Imagine como dizer para uma criança que ele não poderia ser o que tanto sonhava? Não poderia fazer inúmeras coisas por conta da cirurgia e do marcapasso, então eu tinha que me preparar psicologicamente para explicar isso a ele e prepará-lo para isso também. Embora ele não pudesse ser policial, ele poderia ser um advogado, um promotor, um juiz, que estaria na mesma linha que ele queria. Então o instituto é para essas crianças, esses adolescentes que estão limitados a realizar algumas coisas, mas mesmo assim existem infinitas possibilidades para eles. Após sua partida de volta para a verdadeira morada, surgiu outra necessidade para a gente, a do luto, da perda, então cuidar dessas famílias, desses pais que devolveram seus filhos, que não os perderam, pois o amor e a saudade nos lembra a todo instante deles. Acredito que um pai, uma mãe, um familiar, quando tem um diagnóstico de algum comprometimento grave na família ou de um ente querido, ficam perdidos sem saber o que fazer, sei que juntos podemos passar por isso.
O que o luto te ensinou?
O luto me levou ao fundo do poço, e sabe o que encontrei lá? No começo, era frio, dor, sofrimento e escuridão, mas Deus me mostrou algo lindo lá que eu poderia e deveria usar, a água mais limpa, pura, cristalina e verdadeira para compartilhar com as pessoas. Não foi e não é fácil nem para mim, nem para a minha esposa Najara, a quem devo muito, pois sempre esteve do meu lado. As minhas filhas Maria Clara e Mariana também, quando perdemos alguém esquecemos dos que ficam e sem perceber também os perdemos e eles a nós.
Como você acredita que a perda de um filho, como você sofreu, poderá ajudar outras pessoas na mesma situação?
Tudo na vida tem um propósito, todos nós somos únicos e, se olharmos, cada um de nós tem um compromisso com Deus e não podemos interferir nisso, foi entre ele e Deus, eu minha esposa fomos escolhidos para passar por isso porque Deus assim achou. E para nós está tudo certo, pois na oração que Jesus nos ensinou diz: Seja feita vossa vontade. E aí Ele faz e nós devemos aceitar e sermos gratos. Vou te falar que, não só nós, mas se perguntar para qualquer um que perdeu seu filho, se passaria por isso novamente, passaria, sabe por quê? Porque se tenho saudade, tive algo muito bom e melhor hoje sentir saudade dele do que nunca ter tido ele.
Vocês criaram o Instituto na pandemia. Como foi esse processo?
Foi bem no meio da pandemia, na minha cabeça sempre vinha: Quem precisa de remédio é o doente, tem que ser agora, pois teremos tempo de aprender, de se moldar para quando a hora chegar, não foi fácil, muitos nos abandonaram, mas muitos mais chegaram. E vou te falar sem eles, sem os que passaram, nada teria acontecido e nem estaríamos de pé, por isso meu muito obrigado a cada voluntário e profissional que está conosco, os que já se foram e os que virão.
Como está a estrutura de vocês atualmente?
Olha, está bem montada, mas precisando de muitas coisas, como de urgência um banheiro com acessibilidade, dois toldos para proteger das chuvas. Não temos ajuda governamental, nossa renda vem do bazar, de doações e dos associados que contribuem com R$ 25 mensais e tem direito a consultas com especialistas no valor de R$ 30 cada. Lembrando que para crianças com comorbidades e ou paliativas, os atendimentos são gratuitos, também o acolhimento fraterno em luto e perdas.

Em pouco dois anos, que ações você destaca do Instituto?
Foram muitas, Dia das crianças, Páscoa, Natal, Dia das Mães com roda de conversa para as mães sem filhos, Dia dos Pais com roda de conversa com pais na mesma situação, cine reflexão com as famílias, ao final do filme se aborda os temas, temos capoeira, aos sábados cedemos o espaço para a Professora Hosana, que em parceria com a Feac oferece curso de música. Na área de Ação Social, a cada três meses, há orientação social e jurídica. Realizamos também o Dia da Pipa, que é dia 14 de janeiro, coincidência ou não, mesmo dia do aniversário do Pablo, que amava as pipas. Há ainda os atendimentos de luto e perdas, contação de história, curso de bonecas de feltro em parceira com Fussol Franca, curso de sabonete, que são alguns dos projetos que tivemos no ano passado. Desde a fundação do Instituto em 2020 fazemos a festa das Crianças. Este ano foi a terceira edição, com o objetivo de proporcionar para as crianças do Instituto um dia alegre, mas acima de tudo com as crianças da comunidade, que não têm essa oportunidade, e também despertar elas a fazerem parte do Instituto. Quem quiser saber mais pode acessar o nosso site www.institutopablohenrique.com.br.

Quais são os planos futuros do Instituto?
Comprar a casa onde alugamos e o terreno ao lado, e construir uma casa de acolhimento para crianças com essas comorbidades e também para aquelas que não têm família, no caso de todos terem falecido.
Quem quiser colaborar com os projetos, pode ajudar de que forma?
Contamos com doações pelo nosso PIX 38.374.398.0001.07, conta Sicredi, também com copos descartáveis, sacos de lixo, produtos de limpeza, roupas e calçados em bom estado para nosso bazar e com voluntários em nossos eventos.
Gostaria também que você falasse um pouco mais sobre o Pablo Henrique.
O Pablo eu o chamava de Muskito doido, ou de parceiro companheiro, um menino alegre que não gostava de TV nem de celular, muito menos de paredes, lugares fechados, ele amava o céu, os pássaros, aviões e as pipas. Desde os 2 anos, soltava pipa na rua sozinho, ele fazia ela girar no ar, dizia que queria ser uma pipa para voar, que todos nós somos pipas, que aqui nesse país, ele dizia, não falava aqui na terra, a gente precisa um do outro para voar, e quando todos entenderem isso, Jesus nos chama para voar livres no céu.
Como vocês descobriram a cardiopatia?
Com dois meses ele começou a chorar no meu colo do nada, aí levamos ele no hospital, era uma hérnia e ele precisou ser operado. O anestesista descobriu o sopro no seu coração e ele passou por cirurgia aos 6 anos e após 5 meses e 15 dias, em casa, ele dormiu e não acordou, sofrendo uma insuficiência cardíaca.
Qual a data de falecimento dele e como aconteceu?
Foi de domingo para segunda, 27 para 28 de junho de 2018, ele foi dormir às 22h50 e minha esposa, sua mãe, acordou no dia seguinte para arrumar a Mariana para ir à creche, foi quando notou ele descoberto e de bruços. Quando o virou, viu que estava gelado e começando a ficar roxo, me gritou e eu chamei o Samu, que veio muito rápido, tentaram reanimá-lo por mais de uma hora, mas já era tarde demais. Ele, quando se levantou no domingo, pediu churrasco e para chamar a família toda. Colocou uma roupa dizendo que tinha que estar lindo pra ir para a festa que Jesus o chamou. Eu fiz o churrasco, soltamos pipa e tomamos sorvete. Lembro como hoje, ele tomou quatro e disse ‘Papai, achei que nunca mais iria tomar sorvete, obrigado’. E deixou uma carta em minha gaveta com um desenho que tinha eu e ele soltando pipa. Ele dizendo te amo papai, obrigado por soltar essa pipa comigo.
Jefferson, tem mais alguma informação que você gostaria de acrescentar?
Tem a carta que ele escreveu no Youtube, só pesquisar por carta Pablo Franca, lá vocês poderão ver os detalhes de tudo. Gostaria de agradecer a Jesus, primeiramente, por tudo que ele me emprestou nessa vida, meus três filhos, minha esposa, minha família, meus amigos, aos voluntários do instituto, aos doadores e a oportunidade de poder ser uma centelha de luz na vida das pessoas. Gratidão. O amor nos faz voar!
