Nelise Luques
A pedagoga Simone de Oliveira Vicente Brasileiro, de 46 anos, é especialista em Educação Especial Inclusiva e tem protagonizado junto com a diretoria e equipe de profissionais da Apae de Franca uma nova história na vida dos alunos da entidade.
Há sete anos, ela é diretora da Escola de Educação Especial “João Maria Vianey”, mantida pela Apae, e que neste ano tem mais de 480 estudantes matriculados e 61 professores. Através de um trabalho profissional, acompanhado por estudos e atualizações constantes e também revestido de muita empatia e respeito, a unidade escolar tem ajudado crianças e jovens com deficiência intelectual e múltipla, juntamente com suas famílias, a alçar novos voos.
Em entrevista ao Verdade, Simone compartilha suas experiências como professora, diretora e coordenadora escolar e também os desafios que ela enxerga para uma inclusão eficiente. “Acredito que a inclusão acontece através das relações humanas, no acreditar na capacidade do outro, na humanização do olhar!”
Simone, por que você decidiu seguir a profissão como pedagoga?
Quando cursei o magistério do ensino médio, me encantei pela sala de aula, senti a necessidade de se ter uma visão maior da educação, então comecei a cursar pedagogia, pois foi a área com a qual me identifiquei.
E porque se especializou em educação inclusiva? O que te motivou a seguir essa área?
Como já trabalhava na educação especial em uma Apae de Minas Gerais e tinha muita identificação com a área, vi a necessidade de aprimorar ainda mais meus conhecimentos, acreditando em poder fazer a diferença com algo a mais.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Apae de Franca? Desde quando você está na instituição?
A oportunidade veio em decorrência de uma vaga para coordenação pedagógica que atenderia o turno da manhã e tarde na Apae. Meu currículo foi selecionado e após processo de seleção, assumi a vaga, fiquei muito feliz. E hoje já se passaram 7 anos.
Qual a importância de manter o trabalho na área educacional, além da Saúde e Assistência Social, para os atendidos pela Apae?
Ao manter o trabalho educacional, poderemos oferecer aos nossos alunos diversas oportunidades, visando atender às distintas e singulares necessidades de aprendizagem e do desenvolvimento, assim como garantir o direito à educação de todos aqueles que, em função de suas necessidades específicas, não conseguem se beneficiar das classes comuns do ensino regular.
A Apae de Franca tem 52 anos de história e presta atendimentos nas áreas da Saúde, Assistência Social e Educação. Quando foi criada a Escola de Educação Especial “João Maria Vianey” e com qual objetivo?
A Escola foi criada através da Portaria DRE-RP de 25/06/1982 e tem por objetivo contribuir para que os alunos com deficiência intelectual e/ou múltipla possam ampliar habilidades acadêmicas funcionais e suas competências, proporcionando o pleno desenvolvimento de suas potencialidades.
Você está há sete anos à frente da Escola, que resultados você pode mensurar do trabalho desenvolvido pela unidade?
Acredito que ano a ano, a Apae vem acumulando resultados bem satisfatórios que refletem um trabalho de credibilidade e de conquistas na luta pelos direitos das pessoas com deficiência, assim como a melhoria na qualidade de vida, integração e socialização na sociedade.
Para receber os mais de 480 alunos matriculados neste ano, a Apae investiu no plano de formação escolar para professores. Quais os principais projetos e novidades previstos para 2022?
Houve a tentativa de construir um cronograma que pudesse abarcar diferentes áreas do conhecimento que permeasse o trabalho cotidiano do professor. Desde os conhecimentos acadêmicos como alfabetização, letramento, alfabetização, matemática, linguagem artística e musical e psicomotricidade, e os saberes técnicos que tangem às áreas de fonoaudiologia, autismo, funções cerebrais e uso de medicações.
A Apae divulgou que para o 2º semestre a equipe estudará sobre o Neurodesenvolvimento e autismo, os aspectos sensoriais e funções executivas e sensibilização e efeitos da música no corpo e emoção. Qual será a abordagem desses temas e como está prevista a sua aplicação na prática?
A abordagem sugerida é sempre aquela que parte da realidade da instituição e das várias vivências cotidianas dos profissionais, buscando revesti-las de sentido e maior significação. Os encontros de formação preconizam sempre conhecimentos teóricos que possam lançar luz sobre às práticas, atribuindo às mesmas um caráter reflexivo, que permite ao profissional avaliar sempre a capacidade de respostas dos alunos, frente aos estímulos oferecidos e também exemplos práticos e estratégias pedagógicas alternativas que possam atribuir concretude aos conceitos trabalhados.
Por falar em autismo, temos a sensação de que os diagnósticos aumentaram nos últimos anos. Vocês percebem mais casos na Apae também?
Aparentemente sim. Segundo estudos, pesquisadores associam o aumento do número de casos ao modo de diagnóstico. Atualmente as crianças são enquadradas no Transtorno do Espectro Autista, um diagnóstico mais amplo, que engloba vários distúrbios e atrasos no desenvolvimento.
Simone, gostaria que você comentasse sobre as ferramentas de comunicação alternativas para autistas.
Um dos desafios no trabalho junto aos autistas é a comunicação, cujo desenvolvimento da linguagem (fala) é prejudicado. O uso da comunicação alternativa pode ser uma excelente estratégia, pois o conjunto de técnicas (Teach, PECS, ferramentas tecnológicas, entre outras) utilizadas visam ampliar a capacidade comunicativa, colaborar no processo de ensino-aprendizagem e melhorar a compreensão e expressão dos mesmos.
Sabemos que na educação inclusiva o PEI – Plano de Ensino Individualizado – é uma ferramenta importantíssima para o bom desempenho, para a adoção de estratégias adequadas e maiores chances de resultados bem sucedidos para cada aluno. Como ele funciona?
O Plano de Ensino Individualizado é elaborado a partir do mapeamento multidimensional propiciado pela avaliação inicial sobre o educando, seu contexto de vida e aprendizagem, uma avaliação detalhada, que abarca não só o olhar do professor, mas também as considerações da família e, quando possível, do próprio aluno. No Plano deve constar os objetivos primordiais a serem trabalhos junto ao aluno a curto, médio e longo prazo, bem como os conteúdos, metodologia de trabalho, as estratégias adotadas e a forma de avaliação, os quais necessitam ser periodicamente revisados, com vistas a assegurar a pertinência deles.
Como você avalia o PEI e que cuidados são importantes na sua elaboração?
É muito importante uma avaliação que possibilite compreender o nível de desenvolvimento e aprendizagem do aluno. O professor precisa entender e analisar quais são as especificidades e heterogeneidades de cada aluno, conhecendo-o além de deficiência, ou seja, analisando sua história de vida, seu estilo de aprendizagem, seus interesses, suas habilidades, suas competências e suas dificuldades.
Você acredita que o PEI deva ser feito de forma conjunta, entre diretoria, professores, família e também outros profissionais que atendem o estudante, como terapeuta ocupacional, psicóloga, fisioterapeuta e/ou psicopedagoga?
Com certeza. É muito importante o olhar de todos que fazem parte da vida escolar do aluno, ajuda a ter uma visão mais ampla das suas reais necessidades específicas. E assim, cada um poderá contribuir de acordo com sua função diante do processo de desenvolvimento e ensino-aprendizagem.
Simone, você acredita na inclusão na rede regular de ensino? As escolas estão preparadas para receber alunos com alguma deficiência?
Acredito que seja possível. Mas ainda encontramos pessoas com a mentalidade de concepção de assistencialismo, de que a pessoa com deficiência precisa só de cuidado, que ela precisa ser atendida só nas suas necessidades básicas e que elas não vão aprender na escola, o que a escola pode oferecer. Boa parte das escolas é bem equipada, possui acessibilidade, mas as práticas nem sempre correspondem às reais necessidades dos alunos e acabam deixando a desejar na efetividade da inclusão.
Que avanços você avalia que a inclusão de alunos teve, especialmente na rede regular?
Hoje os alunos conseguem ter o acesso de entrada na rede regular com mais facilidade, mas não basta que o aluno somente seja matriculado por força da lei. É preciso dar condições de permanência e possibilidades de desenvolvimento da aprendizagem, maximizando suas potencialidades. Vejo que a instabilidade de permanência durante o percurso escolar é um dos grandes problemas da inclusão.
O que ainda é preciso ser feito para maior eficácia desse processo? Na sua opinião, quais são os principais desafios da inclusão?
As escolas não devem ficar restritas somente às adaptações de espaço, estrutura física, equipamentos e materiais. É necessário fortalecer a formação dos professores e criar uma boa rede de apoio entre alunos, docentes, gestores escolares, famílias e profissionais de saúde que atendam às necessidades específicas dos alunos efetivamente.
Você acredita que falta um trabalho mais intenso com os outros colegas de classe para que a inclusão flua de maneira mais natural e leve? Quero dizer, para que as outras crianças possam enxergar que, em meio à deficiência, existem muitas qualidades.
A Educação Inclusiva é a transformação para uma sociedade inclusiva, um processo em que se amplia com a participação de todos os envolvidos. É importante a reestruturação da cultura e das práticas vivenciadas nas escolas, de modo que atendam às diversidades dos alunos e com isso sejam reconhecidos e valorizados sem preconceito.
Simone, tem mais alguma consideração que você gostaria de acrescentar?
Sim, uma reflexão: A pior exclusão é quando o outro não acredita, age com hostilidade, preconceito e falta de empatia. Acredito que a inclusão acontece através das relações humanas, no acreditar na capacidade do outro, na humanização do olhar!
