*Por Rafael Cervone
Às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 31), o mundo recebeu o grave alerta de que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera atingiram novos recordes em 2025. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o cenário reforça a urgência de medidas concretas para conter a crise climática. Entretanto, as novas metas apresentadas pelos países permitirão reduzir as emissões globais em apenas 6% até 2035, um avanço dez vezes menor do que o necessário para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C em relação ao período pré-industrial, como estabeleceu o Acordo de Paris.
Assim, a COP 31, de 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia, tem o desafio de buscar políticas públicas consistentes, metas mensuráveis e ações capazes de produzir resultados. Os governos têm grandes responsabilidades na formulação de estratégias climáticas, na criação de instrumentos econômicos, no estímulo à inovação e na construção de condições para uma transição sustentável.
O setor privado também tem responsabilidades e capacidade de contribuir. A indústria, principalmente em nações nas quais as legislações ambientais, ao contrário das nossas, são mais flexíveis, precisa conciliar produtividade, competitividade e redução dos impactos ecológicos, incorporando tecnologias mais eficientes, racionalizando o uso de recursos naturais e reduzindo resíduos e emissões.
É exatamente isso que estamos fazendo no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), cujo Departamento de Meio Ambiente (DMA) atua para harmonizar produção e sustentabilidade, oferecendo orientação às empresas e estimulando boas práticas. Nosso trabalho abrange fatores como mudanças climáticas, inventários de gases de efeito estufa, mercado de carbono, economia circular e adoção de normas e critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).
Por meio de cursos, treinamentos, seminários, publicações técnicas e serviços como o Monitore (Sistema de Gerenciamento de Obrigações Ambientais) e o Calendário de Obrigações Ambientais, o Ciesp ajuda as empresas a compreenderem suas responsabilidades e aperfeiçoarem processos. Assim, contribuímos para que adotem soluções compatíveis com as exigências regulatórias e os desafios climáticos. Outra frente importante é a parceria com o Instituto Rever, voltada à logística reversa de embalagens, proporcionando o reaproveitamento de materiais e o avanço da economia circular.
A entidade também apoia a Jornada de Descarbonização da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (SENAI-SP) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A iniciativa visa ajudar pequenas e médias indústrias a identificarem oportunidades e implementarem medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
O Ciesp também promove o diálogo entre indústria, poder público, instituições de pesquisa, universidades e organizações da sociedade civil. A Câmara Ambiental da Indústria Paulista (CAIP) e outras iniciativas de articulação técnica ajudam a compartilhar experiências, discutir soluções e construir caminhos para uma produção mais eficiente e responsável. Essa cooperação é essencial, porque a transformação necessária não será alcançada por iniciativas isoladas.
É preciso, ao mesmo tempo, evitar que a agenda ambiental converta-se em um conjunto de obrigações desconectadas da realidade produtiva. Para que a transição avance, as empresas precisam de previsibilidade regulatória, acesso à inovação, financiamento e políticas públicas que estimulem investimentos sustentáveis. A responsabilidade corporativa deve caminhar junto com as devidas condições para que a mudança seja viável, abrangente e duradoura.
A COP 31 oferece uma oportunidade para elevar o nível de ambição e acelerar as respostas à emergência climática. O tempo para agir é limitado e os recordes de concentração de gases de efeito estufa mostram que não há espaço para complacência. O futuro da economia e a qualidade da vida das próximas gerações dependem da responsabilidade compartilhada do poder público e do setor privado. Para a indústria paulista, contribuir para um modelo de desenvolvimento que combine competitividade, inclusão e equilíbrio ambiental é um compromisso inegociável
*Rafael Cervone, engenheiro têxtil, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).