A cirurgia de catarata passa por uma transformação que começa antes mesmo do procedimento. Com equipamentos capazes de reunir diferentes medidas do olho e fórmulas que utilizam inteligência artificial para interpretar esses dados, o cálculo da potência da lente intraocular deixou de depender apenas de métodos matemáticos tradicionais.
Em 2026, a tecnologia passou a ocupar um espaço maior justamente em uma das etapas mais importantes para o resultado visual após a cirurgia.
O movimento acompanha uma evolução da própria oftalmologia, que vem combinando biometria, análise de imagens e modelos computacionais para entender com mais precisão as características de cada olho.
A proposta é uma das maiores tendências de inovações em oftalmologia que não visam substituir a avaliação médica, e sim oferecer mais informações para definir a lente e estimar o resultado refrativo esperado.
Na cirurgia de catarata, o cristalino que perdeu a transparência é retirado e substituído por uma lente intraocular. A escolha da potência desse implante depende de medidas como o comprimento axial do olho, o poder óptico da córnea e a posição estimada em que a lente ficará depois do procedimento.
Essa etapa, conhecida como biometria, é determinante para a previsão do grau após a cirurgia. Uma pequena diferença entre o resultado planejado e o obtido pode deixar um grau residual e, dependendo do caso, levar à necessidade de alguma correção adicional.
É justamente nesse ponto que as fórmulas baseadas em inteligência artificial vêm sendo estudadas. Em vez de trabalhar apenas com relações matemáticas convencionais, esses modelos podem analisar grandes conjuntos de dados e identificar padrões associados aos resultados refrativos de diferentes perfis de olhos.
Um estudo publicado em 2026 no American Journal of Ophthalmology avaliou nove fórmulas baseadas em IA em 321 olhos com comprimento axial igual ou superior a 26 milímetros. Algumas delas apresentaram maior proporção de resultados dentro de uma margem de 0,50 dioptria em relação ao resultado-alvo, mostrando o potencial desses modelos sobretudo em olhos com características mais desafiadoras.
A busca por maior precisão também ampliou o interesse por informações que vão além das medidas tradicionais. A córnea, por exemplo, não é uma estrutura estática: suas propriedades biomecânicas podem interferir na forma como o olho responde às intervenções e na previsão do resultado refrativo.
Pesquisas já investigaram a relação entre parâmetros biomecânicos do olho e o erro de previsão do cálculo da lente intraocular. Em um estudo publicado no Journal of Cataract & Refractive Surgery, pesquisadores avaliaram 67 pacientes submetidos a biometria e análise biomecânica da córnea antes da cirurgia de catarata.
Na prática, quanto mais informações confiáveis estiverem disponíveis antes do procedimento, maior é a possibilidade de construir uma estratégia individualizada. Essa combinação entre exames, modelos matemáticos e análise computacional ajuda a explicar por que a personalização se tornou uma das principais frentes de inovação na cirurgia de catarata.
A evolução do cálculo também acompanha a diversificação das lentes intraoculares disponíveis. Além das opções monofocais, que normalmente priorizam uma distância de foco, existem modelos multifocais, tóricos e outras tecnologias destinadas a diferentes necessidades visuais.
As chamadas lentes premium podem ser consideradas quando o objetivo do paciente inclui reduzir a dependência dos óculos para diferentes distâncias. A indicação, porém, depende das características do olho, da saúde ocular e das expectativas individuais.
Isso significa que a escolha da lente não deve ser feita apenas a partir da promessa de enxergar sem óculos. O perfil visual do paciente, a presença de astigmatismo, alterações da córnea, condições da retina e outras características precisam entrar na avaliação.
Aqui no Brasil, a COI Oftalmologia, no Rio de Janeiro, tem procurado estar atenta a essas inovações. O oftalmologista Dr. Ricardo Filippo atua com tecnologias voltadas ao planejamento personalizado da cirurgia de catarata e à seleção de lentes intraoculares.
“Hoje, com os avanços tecnológicos no cálculo das lentes intraoculares e a evolução das lentes premium, conseguimos oferecer resultados visuais cada vez mais precisos e personalizados. No entanto, o mais importante é entender que não existe uma lente ideal para todos os pacientes. Nosso objetivo é avaliar as características de cada olho, compreender as necessidades e os hábitos de vida de cada pessoa e, assim, escolher a tecnologia que ofereça a melhor qualidade de visão possível, com segurança e previsibilidade”, afirma o especialista.
Apesar do avanço dos algoritmos, a inteligência artificial ainda não transforma o cálculo da lente em uma equação infalível. Estudos recentes mostram diferenças de desempenho entre as fórmulas e apontam que determinados perfis oculares continuam representando desafios para a previsão refrativa.
Por isso, a tecnologia funciona como uma ferramenta dentro de um processo que começa na avaliação clínica e depende da qualidade dos exames, da interpretação dos dados e da experiência do cirurgião. Até mesmo pesquisas que avaliaram modelos de inteligência artificial destacam a necessidade de validação antes que essas ferramentas sejam utilizadas como substitutas de plataformas biométricas consolidadas.
O cenário de 2026, portanto, é menos o de uma máquina que decide qual lente cada paciente deve receber e mais o de uma oftalmologia que consegue reunir uma quantidade crescente de informações para tomar decisões individualizadas.
Para quem chega à cirurgia de catarata, a mudança pode ser percebida na forma como o planejamento é feito. A pergunta deixa de ser apenas qual lente substituirá o cristalino opaco e passa a envolver uma análise mais ampla sobre como aquele olho poderá funcionar depois do procedimento.
É nesse encontro entre biometria, inteligência artificial, características individuais do olho e experiência médica que a cirurgia de catarata vem ampliando sua capacidade de personalização. A tecnologia não substitui o especialista, mas oferece novas ferramentas para que a decisão sobre a lente seja cada vez mais baseada nos dados daquele paciente.