Até onde a medicina deve ir para prolongar uma vida? Para o Dr. Rodolfo Moraes, médico especialista em cuidados paliativos, essa pergunta precisa ser feita muito antes do que a maioria das famílias imagina.
Autor do livro O Erro é Chamar de “Fim” – O que os cuidados paliativos ensinam sobre viver até o último suspiro, Rodolfo Moraes defende que tratar uma doença e cuidar de uma pessoa nem sempre são a mesma coisa e que a diferença entre os dois pode mudar completamente a experiência de quem enfrenta uma doença grave.
Cuidados paliativos costumam ser associados, erroneamente, ao fim da vida ou à desistência do tratamento. Para o Dr. Rodolfo Moraes, essa é exatamente a ideia que precisa mudar.
“Cuidados paliativos não significam desistir do paciente”, explica o médico. “Significam ampliar o olhar para além da doença e perguntar quem é aquela pessoa, o que ela valoriza, o que lhe causa sofrimento e o que ainda podemos fazer para cuidar dela.”
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 56,8 milhões de pessoas precisam de cuidados paliativos todos os anos, mas apenas 14% têm acesso a esse tipo de cuidado. No Brasil, apesar de uma política nacional voltada ao tema desde 2012, a maior parte da população ainda não conta com essa assistência. E muitos sofrem com dor no final da vida desnecessariamente por falta de tratamento adequado.
Um dos conceitos centrais no trabalho do Dr. Rodolfo Moraes é o de obstinação terapêutica: insistir em tratamentos que já não trazem benefício real ao paciente, apenas sofrimento adicional.
É comum famílias pedirem para a equipe médica “fazer tudo” por um paciente. O problema, segundo o especialista em cuidados paliativos, é que essa frase significa coisas diferentes para cada pessoa envolvida, e nem sempre o que é tecnicamente possível é o que faz sentido para quem está doente.
“Uma decisão médica não pode considerar apenas aquilo que a tecnologia permite fazer”, diz Dr. Rodolfo Moraes. “Ela precisa considerar aquilo que faz sentido para o paciente.”
Dr. Rodolfo aponta um problema prático: as famílias chegam ao momento da decisão sem nunca terem conversado sobre isso antes. O que essa pessoa considera uma vida com qualidade? O que ela toparia enfrentar para ganhar mais tempo? Que tratamento ela recusaria? Quem decide se ela não puder mais falar?
Esse assunto não devia esperar o hospital, quando todo mundo já está exausto e fragilizado. Pensar sobre a finitude antes da hora é um gesto de maturidade. Facilita decisões difíceis mais na frente. E ajuda paciente e família a atravessar a doença com mais leveza.
Uma questão que cabe em qualquer família. Serve para quem tem pais idosos, para quem já passou por uma doença grave na família, ou simplesmente para quem nunca parou pra pensar nas próprias escolhas.
A pergunta que fica, segundo o médico, não é só “quanto tempo dá pra ganhar”, mas: o que fazer para que esse tempo continue valendo a pena para quem está vivendo.
Outro ponto central na abordagem de cuidados paliativos defendida pelo médico é o registro antecipado de vontade, um documento reconhecido pela Resolução CFM nº 1.995/2012, do Conselho Federal de Medicina, no qual qualquer pessoa pode deixar registrado o que aceita ou recusa em tratamentos futuros, caso não possa mais se manifestar.
Apesar de existir há mais de dez anos, o instrumento ainda é pouco conhecido pela população brasileira.