O ingresso em cursos de ensino técnico está subindo no Brasil e, especialmente, no município de Franca. O aumento ocorre em paralelo à preparação de estudantes para o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, que segue como principal porta de entrada para o ensino superior.
Dados divulgados pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), em anúncio realizado em novembro de 2025, indicam avanço acelerado da modalidade no estado e no interior: a previsão é de que em 2026 o número de matriculados em cursos técnicos em São Paulo deve chegar a 231 mil, frente aos 124 mil estudantes matriculados ainda em 2025.
Já especificamente na região administrativa de Franca, o número de alunos da rede estadual matriculados no ensino técnico deve crescer 133,9% entre 2025 e 2026, passando de 1.202 para 2.812 estudantes, segundo a mesma divulgação da Seduc-SP.
No período, o número de escolas com oferta da modalidade de cursos profissionalizantes e técnicos deve subir de 20 para 31. Mas, na realidade, o que esse aumento pode significar?
O movimento regional de Franca acompanha uma expansão prevista para todo o estado de São Paulo. Considerando também os estudantes das Escolas Técnicas Estaduais (Etecs), o total de estudantes em cursos técnicos deve ultrapassar 320 mil matrículas em 2026, ainda de acordo com o levantamento da Seduc-SP, o equivalente a cerca de 40% dos alunos das 2ª e 3ª séries do ensino médio de São Paulo.
A ampliação indica uma mudança no próprio desenho do ensino médio, com maior presença da chamada dupla formação, que combina a formação geral com a qualificação profissional, e maior diversificação de cursos, em áreas como tecnologia, saúde, vestuário e gestão. Ou seja, ao mesmo passo que cumprem o currículo do ensino médio, os estudantes também se profissionalizam em uma área desejada.
Na região de Franca, 328 estudantes já foram beneficiados por iniciativas de estágio vinculadas diretamente ao ensino técnico, e a projeção é ampliar esse número nos próximos anos, acompanhando a expansão das matrículas.
O avanço observado em Franca acompanha uma tendência nacional. Dados do Censo Escolar 2023, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em fevereiro de 2024, mostram que a educação profissional e tecnológica foi a modalidade que mais cresceu na educação básica naquele ano. Em todo o Brasil, as matrículas passaram de 2,1 milhões em 2022 para 2,4 milhões em 2023, um aumento de 12,1%.
Já os dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Inep, em fevereiro de 2026, indicam a continuidade da expansão, com crescimento de cerca de 208 mil matrículas entre 2024 e 2025. Trata-se de um total aproximado de 3,18 milhões de estudantes na educação profissional.
Mesmo com a redução de cerca de 1 milhão de matrículas na educação básica no período, o ensino técnico seguiu em alta. Durante a apresentação dos dados, o ministro da Educação Camilo Santana afirmou que “o MEC tem discutido esse tema com as redes. Nós vamos apresentar, nas próximas semanas, uma política de indução à matrícula no ensino técnico e profissionalizante”. Segundo ele, a iniciativa “é um atrativo para o jovem, que já sai do ensino médio com uma profissão”.
Esse avanço também está relacionado a mudanças recentes na estrutura do ensino médio. Com a implementação do Novo Ensino Médio, a partir de 2022, parte da carga horária passou a ser organizada em itinerários formativos, permitindo que os estudantes escolham percursos mais alinhados aos seus interesses.
Entre essas possibilidades, está a formação técnica e profissional, que passou a ser integrada ao currículo regular. De forma geral, isso ampliou a oferta da modalidade nas redes públicas e contribuiu para o aumento das matrículas observado nos dados mais recentes.
O crescimento das matrículas também reflete uma mudança na forma como o ensino técnico é percebido. Em parte dos casos, ele pode aparecer como complemento à formação tradicional. Estudantes conciliam o ensino médio técnico com a preparação para o Enem, por exemplo, mantendo a possibilidade de ingresso no ensino superior.
Em outros casos, de acordo com diferentes percepções populares, a escolha está associada à inserção mais rápida no mercado de trabalho. A formação técnica permite ao estudante concluir o ensino médio com uma qualificação profissional, o que amplia as possibilidades de emprego e renda ainda na juventude.
Na prática, o ensino técnico pode ser ofertado de diferentes formas: integrado ao ensino médio, quando o aluno cursa a formação geral e a técnica na mesma escola; concomitante, quando faz os dois cursos ao mesmo tempo em instituições diferentes; ou subsequente, voltado a quem já concluiu o ensino médio. Em todos os casos, a proposta combina disciplinas da base comum com conteúdos específicos da área escolhida.
No entanto, mesmo que cursos técnicos apresentem uma formação diferente no ensino médio, a grade oferecida não é um impeditivo para que o estudante continue se preparando para os vestibulares e, inclusive, para o Enem.
Pelo contrário, em muitos pontos, ambas as formações se conectam em diferentes áreas do saber, trazendo repertórios científicos, tecnológicos e formativos que também preparam os jovens para a entrada nas universidades.
Apesar do crescimento recente, o ensino técnico ainda está distante das metas nacionais. O Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024), sancionado em 2014, estabeleceu como meta 11 triplicar o número de matrículas na educação profissional técnica de nível médio, com pelo menos 50% de expansão na rede pública.
No entanto, dados de monitoramento do próprio plano indicam que, entre 2013 e 2021, o crescimento foi de cerca de 15,5%, muito abaixo do necessário para atingir a meta, que exigiria um aumento próximo de 200% até 2024.
Isso mostra que, embora o avanço seja consistente e mais acelerado nos últimos anos, como indicam os dados do Censo Escolar, o ritmo ainda não acompanha o que foi previsto nas políticas públicas.
Esse cenário também reflete questões sociais. Para parte dos estudantes, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade, o ensino superior ainda é visto como distante, enquanto o ensino técnico aparece como alternativa mais rápida de inserção no mercado e geração de renda.
Ao mesmo tempo, a expansão recente indica uma mudança de percepção. Agora, cada vez mais, o ensino técnico passa a ser combinado com a preparação para o Enem, deixando de ser apenas uma alternativa e se consolidando como complemento na trajetória educacional dos estudantes brasileiros.