Por Pedro Maia
Editor-chefe
Pai de cinco filhos, o trabalhador Carlos Santos publicou recentemente videos nas redes sociais denunciando a situação que seus filhos encaram para acessar o transporte escolar e chegarem à escola. Eles moram na zona rural de Cristais Paulista, cidade a cerca de 19 quilômetros de Franca.
De acordo com Carlos, as crianças precisam andar cerca de 3km entre sua casa e o ponto onde o busão espera pelos estudantes. Como seu carro quebrou, Santos os levou até lá, na última semana, utilizando o trator da fazenda, já que a Secretaria de Educação teria se negado a buscar as crianças em local mais próximo à residência da família, sob a alegação de que a estrada da fazenda não estaria em condições adequadas para o tráfego do veículo.
“Eles [o secretário de educação e a responsável pelo transporte] falaram para mim que não tem como por o ônibus para andar na estrada, porque é perigoso entortar o chassi. Cara, isso não existe! Aí eles querem dar ajuda de custo. Eu não estou correndo atrás de dinheiro, eu só quero o transporte dos meus filhos. Até quando nós vamos ficar dependendo disso? De um ônibus não querer entrar na propriedade porque a área é restrita? Dizem eles que não tem permissão”, relatou Carlos. E continuou: “Eles perderam aula! O meu carro está fundido. De manhã cedo, vim trazer meus meninos [para o ponto], o tempo estava meio fechado. Pensei: se eu ponho eles no trator, vão molhar, vão chegar todos cheios de barro, [então] eles não foram para a escola. Aí se cria esse tumulto sem precisão”, apontou.
Na conversa com o secretário, Carlos comparou o possível atolamento do ônibus – suposto impeditivo para não adentrar à propriedade – aos caminhões de carga que chegam ao local, sem transtornos: “Se o ônibus do vocês não desce, então uma carreta com 40 bag’s de adubo, mais de 60 toneladas, não vai descer. O caminhão do diesel, que abastece as máquinas aqui da fazenda, vem descarregar. Estava subindo! Vai lá ver se teve encravamento? Um caminhão de diesel subiu, veio com o tanque cheio. E nada!”.
“Nunca existiu isso de meus filhos sairem à pé para pegarem o transporte escolar. Foram lá na porta da minha casa. Conversaram, disseram que iam resolver. A gente paga imposto, a gente faz isso, a gente faz aquilo. Vocês fazem isso com a gente? Com a população? E só quem está sendo desmerecido nessa história é a gente que mora na zona rural”, afirmou Carlos.
Secretaria de Educação
Edson Eurípedes da Silva, o Edinho, secretário de educação do município, explica que o busão escolar não adentra às propriedades rurais por algumas questões que podem gerar atraso na entrega dos alunos à instituição escolar. “Depende da circunstância, porteira fechada, algumas situações, o ônibus chega até um determinado ponto e aí todas as crianças vão até lá, né? Então não consegue na porta da casa, especificamente, às vezes fica 100, 200, 300m de distância”, declarou Edinho. “A gente vai sempre na estrada municipal para diminuir isso também, senão as crianças tem que acordar muito cedo… Porque se entrar muito, em muitos locais, vai ter que gastar mais tempo, então todo esse tempo é cronometrado. Toda essa medida dessas áreas, dessas distâncias, tem sempre atendido à legalidade”, prosseguiu.
Segundo o secretário, no início do ano letivo, Carlos foi questionado se teria carro próprio para deixar os filhos no ponto determinado. Santos teria dito que sim e era o que acontecia até então. Entretanto, Edinho relata que só tomou conhecimento de que o carro de Carlos havia quebrado após a circulação do vídeo, não tendo o homem comunicado a secretaria sobre o problema.
“Inclusive, nesse dia que foi filmado o trator, tem testemunhas e mães de que quem levou os filhos foi a mãe dos meninos no carro e que parece que por conta de politicagem, foi gravado o vídeo, demonstrando uma situação que na realidade não estava sendo verídica. A gente teve conhecimento depois!”, destacou Edson, que afirma ter averiguado a situação juntamente à Diretora de Transporte Escolar, Karine Cândida, visitando também a residência de Carlos para que entrassem em um acordo. “O nosso interesse é fazer um transporte de qualidade, de aproximar o máximo possível da casa. Na área rural a gente não tem graves problemas. Problemas pontuais no início do ano letivo acontecem por conta de adequação da linha, tem situações que o horário mesmo não facilita. Pela distância, as linhas em si, você precisa começar um horário bem cedo”, disse.
Diretoria de Transporte Escolar
O Jornal Verdade procurou também a diretora responsável pelo transporte escolar, Karine Cândida, para comentar o assunto. Segundo ela, no ato da matrícula, foi explicado a Carlos e sua esposa que o horário é cronometrado para que as crianças cheguem às escolas antes do início das aulas, às 7h, sendo oferecido também uma ajuda de custo que, até então, concordaram em aceitar.
“São cinco crianças! A gente sempre opta pelo que é melhor para as crianças, não para o município. Foi oferecido a eles essa ajuda de custo, juntamente com a patroa deles lá do sítio, concordando. De repente, após terem buscado as crianças no ponto, porque eles foram buscar as crianças de carro, não foram de trator, resolveram fazer esse vídeo”, pontuou Karine.
De acordo com Cândida, a situação foi inflamada politicamente por pessoas que se opõem à gestão do prefeito Elson Gomes (MDB), que se dispuseram a ir à propriedade rural perguntar à dona se o ônibus estava indo na porta da residência buscar as crianças. A responsável pela fazenda teria dito que não, mas destacando a ajuda de custo que foi oferecida. Mesmo assim, a situação problemática continuou.
“Ofereci para eles tudo o que podia ter oferecido. Nós fornecemos para eles materiais escolares, para estarem começando a vir à escola; bolsa, mochila… Eles estiveram – ele e a esposa – na secretaria, deixaram a documentação para a gente poder estar fazendo essa ajuda de custo. Então, essa documentação está lá na secretaria e o processo já foi montado, já está tudo certo para que eles recebam”, justificou Karine, que informou ter procurado a família nesta sexta-feira, 27, mas não os encontrou em casa. “Marquei uma reunião para segunda-feira, pra gente estar acertando essa questão e tentar ficar bom para os dois lados”, concluiu.