Na última semana, houve em São José da Bela Vista o 1° Aulão Pedagógico de Capoeira em parceria com a Secretaria de Educação, pela grade curricular do ensino integral das escolas José Renato Nogueira Ambrósio e Leda Nehemy, juntamente às crianças do Projeto Formando Cidadãos, um projeto totalmente voluntário criado pelo professor de capoeira Mateus Bueno, o Japão. Ele afirma que sempre se preocupou com o bem-estar dos jovens e, há oito anos, desenvolve um projeto como professor de capoeira. Antes, trabalhava no programa Escola da Família, que foi encerrado em 2015. Desde então, deu sequência nesse trabalho, iniciando um novo projeto. Confira a entrevista que o capoeirista cedeu ao Jornal Verdade.

Mateus Bueno, ao centro, com as crianças (©Arquivo Pessoal/Mateus Bueno)
– Como foi seu início na capoeira?
– Iniciei na Capoeira nos anos de 2002 para 2003, no Projeto chamado “Escola da Família”, que ocorria aos finais de semana na Escola Estadual Maciel de Castro Júnior, de São José da Bela Vista, através do convite de um professor que na época era o coordenador do programa. Hoje tenho 29 anos e iniciei com 7 para 8 anos de idade
– Quando seu projeto foi iniciado? Sempre foi voluntário? Se tornou municipalizado?
– Meu projeto se chama Projeto Desportivo e Social “Formando Cidadãos” e foi iniciado em meados de 2015 para 2016. O projeto sempre foi voluntário. Nunca tive nenhum salário, pró-labore ou ajuda financeira. Anteriormente, a prefeitura ajudava com um lanche, que sempre servi para as crianças após as atividades, mas, já há um bom tempo em que eu venho organizando do meu próprio orçamento os lanches. Não é municipalizado. A prefeitura ajuda com o espaço físico que é a quadra da Escola Municipal.
– Por que você teve essa ideia?
– Como já dito anteriormente, comecei a praticar capoeira em um programa social e, logo após alguns anos, o mesmo chegou ao fim. Vendo a necessidade e falta de oferta de atividades esportivas e culturais aos finais de semana, tive essa ideia, além de ver e presenciar a necessidade das crianças e adolescentes estarem inseridas em algo que as deixam fora das ruas e de qualquer tipo de violação de direitos, como por exemplo: o uso de drogas, tráfico, consumo de álcool, trabalho infantil, exploração sexual, etc.
– Você organiza o projeto sozinho?
– Hoje quem me auxilia é minha esposa Joice e tenho alguns alunos mais velhos que me prestam alguns suportes. Hoje, a administração do PFC se encontra sobre minha responsabilidade e de minha esposa, eu fico mais com o planejamento das aulas práticas e minha esposa com a parte burocrática (matrículas, etc.).
– Quantas crianças fazem parte do projeto e quais mudanças na vida dessas crianças você espera que seu projeto provoque?
– Hoje tenho aproximadamente 60 crianças. Espero que provoque mudanças em várias aspectos sociais, educacionais, mas principalmente na perspectiva de vida, pois falta isso na vida deles, saber que eles têm um futuro melhor, estudando, se formando, longe dos perigos que as ruas podem oferecer a eles. Ser cidadãos de bem e serem melhores como ser humanos.
– Quais transformações nas crianças foram possíveis de serem percebidas desde o início do projeto?
– Várias mudanças, principalmente na disciplina, na forma de se posicionar na sociedade. Muitos pais e responsáveis perceberam até uma melhora no convívio familiar, dentro das casas; na autoestima, crianças que eram tímidas, hoje já conseguem se comunicar melhor. Também um ponto importantíssimo é a parte física, na perda de peso (obesidade infantil), melhora na coordenação motora e até mesmo cognitivas, melhora no raciocínio e outros demais aspectos.
– Quanto tempo o projeto ficou interrompido devido a pandemia?
– Acredito que de um ano a um ano e meio, não me recordo muito bem. O retorno foi bem lento. De início, teve pouca aderência, as crianças se mostraram sem interesse, mas a persistência e dedicação foi o diferencial no retorno.
– Como as crianças podem fazer para participar do projeto?
– Para fazer parte do PFC, a criança deve se dirigir até à quadra da Escola Municipal José Renato Nogueira Ambrósio aos sábados, a partir das 10 horas da manhã, realizar a matrícula e já iniciar. Houve uma ampliação nas aulas que hoje acontecem à noite também, sempre nas quartas e sextas-feiras, a partir das 19 horas. É aberto a todas as idades.
– Você foi conselheiro tutelar. Ainda permanece na área?
– Me tornei conselheiro tutelar em 2020, mas hoje não faço parte. Me desliguei no fim do ano passado, onde retornei para o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, projeto social do Governo Federal em parceria com a prefeitura, oferecido pelo CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) juntamente com a próprioa Assistência Social, em que também fui supervisor do Programa Criança Feliz, que é um programa para os cuidados com gestantes e crianças na primeira infância, idade de 0 a 3 anos. Agora estou atuando na área da educação, realizando atividades com as crianças da grade curricular do ensino integral.
– Como é a aceitação do projeto na cidade? O que você espera daqui pra frente?
O PFC teve uma alta muito significativa pelas crianças e adolescentes. Houve um aumento de participantes e até mesmo muitos pais e responsáveis começaram a participar, fazerem visitas e até mesmo doações de lanches. A visibilidade foi sensacional, além de hoje ter mais dias disponíveis para nossas crianças e adolescentes. Pretendo expandir o Projeto principalmente em termos burocráticos, como um CNPJ e documentações para captar maiores apoios, tais como uniformes para as crianças e adolescentes, melhora no lanche, materiais de suportes pedagógicos, etc. Com isso se concretizando, ampliar mais dias e horários para atendê-los melhor.
Depoimento de aluna
Lara Maia tem 12 anos e fala sobre sua participação no projeto: “Amo participar da capoeira. É uma coisa linda você saber os significados, os valores, não só da capoeira como das músicas, das cantigas em roda, seus significados. Ele me ajuda em muitos aspectos da minha vida. Tenho o objetivo de ser uma pessoa mais graduada [nas cordas da capoeira]. A Capoeira me ajudou fisicamente, psicologicamente e tenho muita gratidão por tudo que ela me proporciona. Aprendi a viver mais em comunidade, respeitar mais as pessoas. Espero que futuramente eu seja alguém mais forte, que melhore e aperfeiçoe todos os meus movimentos e minha forma de viver pois, hoje, já melhorei muito, mas quero melhorar muito mais.”