Nelise Luques
No dia 28 de novembro de 1824, Franca conquistou a emancipação político-administrativa de Mogi Mirim e completará nesta segunda-feira 198 anos. A cidade tem atualmente uma população estimada em 358.539, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Para entender o nascimento da cidade e curiosidades sobre os seus primórdios, o Jornal Verdade traz essa entrevista especial com o historiador Wanderlei Donizete Pereira, que trabalha há 15 anos no Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, instalado em uma das salas do Colégio Champagnat, prédio de 1917, ícone do município.
Neste bate-papo, Wanderley compartilha seus conhecimentos adquiridos a partir de consultas a inúmeros documentos históricos e traz fatos interessantes como o local onde surgiu a cidade. Diferente do que muitos contam, Franca não nasce onde hoje é a Igrejinha do Bairro Miramontes, mas na região central, onde o povoado tinha fonte de água, nos Córregos dos Bagres e Cubatão.
Wanderlei, quem foi o Capitão Hipólito Antônio Pinheiro, que dá nome ao Arquivo Histórico Municipal de Franca?
Capitão Hipólito Antônio Pinheiro é tido como o fundador de Franca. Ele era um fazendeiro da região em que se encontra Franca, foi nomeado pelo governo provincial como Capitão de Ordenanças, isso em 1804, e esse era um título que concedia a ele certos poderes. Ele poderia administrar a região, criar sua milícia com seus funcionários, como se fossem soldados, não treinados como é hoje, mas uma milícia que garantisse a segurança das Fronteiras do Estado, da província, no caso, de São Paulo. E em 1804, ele faz um pedido junto ao governo da província para instalação da da Freguesia aqui, dado ao crescimento populacional que estava acontecendo e para garantir também serviços, porque até então dependiam de Mogi Mirim. Ele solicita que viesse para cá uma igreja, porque batizados, casamentos, óbitos, tudo isso era a igreja que registrava. Então, como não tinha aqui uma Freguesia, não tinha um padre para fazer esses trabalhos, a comunidade carecia disso, por isso ele faz o pedido para o governo da província para instalar a Freguesia e ela é autorizada no final de 1804, 1805. Os irmãos Antunes tinham fazenda aqui na região e doaram uma parte de terra entre o Bagres e o Cubatão para a Igreja. E dentro dessa área que doaram cria-se a Freguesia, constrói-se uma pequena Capela, vem um padre para cá e daí começa a surgir o núcleo povoado ali em volta da igreja. E depois, quando esse núcleo cresce mais, por volta de 1821, o Hipólito faz o pedido para elevar a Freguesia à condição de Vila. Isso demora um pouco. Primeiro vai ter o nome de Vila Franca del Rey em homenagem a dom João VI, que era o rei de Portugal que estava aqui com a Família Real. Demorou mais ou menos três anos para a autorização se concretizar. No dia 28 de novembro de 1824, é que se instala a Vila e com isso mudou o nome, que passou de Vila Franca del Rey para Vila Franca do Imperador, porque a Família Real já não está mais aqui. Como Dom Pedro I que era o Imperador do Brasil, ela vem com o título de Vila Franca do Imperador. É nesta data então que Franca se emancipa de Mogi Mirim e vai se instalar aqui uma Câmara com os vereadores, com todo o aparato político, administrativo, autônomo e Franca deixa de ser como se fosse um distrito lá de Mogi Mirim para ser uma Vila autônoma. Depois, de Vila muda para município. Ela se torna autônoma em 1824, por isso começa a contar a idade da nossa cidade a partir dessa conquista do Hipólito Antônio Pinheiro. Ele foi importante por causa disso, ele é tido como fundador da Freguesia e também teve um papel fundamental para a emancipação da cidade e dá nome ao Arquivo Histórico.

Onde nasce a cidade? Existe uma divergência porque muitas pessoas acreditam que Franca teve origem na Igrejinha do Bairro Miramontes, mas o que os documentos mostram?
Na verdade não foi no Miramontes. Já existiam pessoas que moravam lá naquela região que hoje é parte da cidade, mas oficialmente Franca vai surgir entre os Córregos do Bagres e Cubatão, até porque os dois córregos que tinham maior volume de água para servir o povoado estavam neste ponto e a fazenda onde foi doada parte das terras pelos irmãos Antunes, o Vicente e o Antônio, era aqui, chamava-se Fazenda Santa Bárbara. Eles doam parte dessa terra para que a cidade começasse aqui, a Freguesia, no caso. A igreja foi fundada e é a partir dali que surge um núcleo da cidade. Oficialmente, a cidade começa em 1805 com a introdução da Freguesia, com a doação das terras fundamentadas, tudo certinho, pelos irmãos Antunes, com a vinda do padre, a criação da primeira Capelinha. Então, oficialmente, começa a cidade aqui, lá no Miramontes é extraoficial.
O que se sabe da vida dos irmãos Antunes, o Vicente e Antônio?
Eles eram fazendeiros, não tem muita informação sobre eles. O que se tem mesmo é que eles eram proprietários de uma área bem grande aqui, que abrangia até a parte do Aeroporto, chamava-se Fazenda Santa Bárbara, e que eles eram devotos de Nossa Senhora da Conceição. Eles doam parte da terra para a Igreja como homenagem à santa e depois eles pediram que ela fosse padroeira. Nossa Senhora da Conceição é a padroeira de Franca.
Atualmente, o que encontramos nesta região onde nasceu Franca?
É no ponto bem próximo da Praça Barão e da Catedral que surge a cidade. É no ponto mais alto que eles começam a criar a Capela, o marco zero é onde existe aquele monumento na Praça Barão. A Câmara seria onde está o Museu Histórico, no Centro. A Capela seria mais ou menos onde está a Cúria Diocesana nos dias de hoje. Eles fazem uma pequena igrejinha ali para poder instalar a Freguesia, mas logo, mais ou menos três, quatro anos depois, constroem a matriz onde está hoje a fonte luminosa. Aí essa matriz vai ser oficial da cidade, ela vai ficar ali até 1913, quando inaugura a Catedral e ela é demolida. Tudo começa a se formar no entorno da Praça Barão e a Cúria.
No mesmo local onde hoje existe a fonte foi o primeiro cemitério de Franca, certo?
Isso! Até por volta de 1830, 1840 a igreja e o cemitério eram juntos. Um tempo antes, os sepultamentos até eram feitos dentro das igrejas, mas depois mudou para o lado externo, então, seguindo esse costume, a matriz foi criada e junto dela o cemitério. Por volta de 1850, o governo imperial criou uma lei determinando que o cemitério tinha que ter uma distância maior da igreja. E depois, em 1855, cria-se o Cemitério da Saudade e fecha-se o cemitério da matriz. Depois, em 1912, quando cria-se a outra igreja ali, esse local deixa de ser igreja e a matriz antiga é demolida. Na década de 50 vai criar a fonte luminosa e dizem que quando estava construindo encontraram até restos de ossadas. Quem tinha dinheiro, segundo consta, trouxe os restos mortais para o Cemitério da Saudade, mas quem não tinha, deixou por lá mesmo.

Narrar e entender esses fatos da história de Franca, que caminha para 200 anos, só é possível graças aos registros e documentos históricos, muitos deles reunidos aqui no Arquivo Municipal. Quando esse espaço foi criado?
A criação do Arquivo Municipal foi autorizada no governo do prefeito Maurício Sandoval em julho de 1989, mas demorou três anos para poder organizar toda a documentação, como os documentos vindos do Fórum. Precisou separar tudo, catalogar, organizar em caixas-arquivo para o público poder consultar. Então foi preciso aguardar praticamente três anos para poder abrir ao público, o que aconteceu em 1992.
Hoje o Arquivo concentra quantos documentos, é possível estimar?
Olha, só de caixas-arquivo são em torno de 5.500, que contêm processos cíveis, que envolvem inventários, divórcios, execuções fiscais; tem os criminais, que são todos os tipos de crimes que aconteceram desde o primeiros anos de Franca até mais ou menos 1980, 1985, quando vieram os últimos processos para o Arquivo. Temos processos trabalhistas também, até meados da década de 80. A gente tem certidões de óbito aqui até do ano passado. Quando eles param de utilizar no cemitério , enviam para cá, se a pessoa precisar de alguma cópia, ela retira aqui. Os livros de sepultamento originais do Cemitério da Saudade desde 1890 até mais ou menos dois mil e pouco também estão arquivados com a gente aqui. Temos jornais encadernados, alguns da década de 40, o Diário da Tarde. Depois, de 66 para cá, temos o Comércio da Franca, com poucas falhas, até 2020, quando parou de circular. O Diário da Franca, a gente tem de 1990 até 2017, 2018, quando encerrou as atividades. Pelos jornais, a gente consegue saber quando chegaram os primeiros carros a álcool, a vinda de computadores, da telefonia móvel celular e até presença de discos voadores na região de Franca, que foram fatos que a imprensa noticiou. Temos revistas antigas, como a Cruzeiro, Manchete. Temos livros e materiais mais atuais da história de Franca que as pessoas vão produzindo e nos enviam, além de fotografias.
Quem quiser saber mais sobre a história de Franca pode visitar o Arquivo e fazer essas consultas. É necessário agendamento prévio?
Então, é aberto ao público, de segunda à sexta, das oito da manhã às cinco da tarde. Temos parte do material digitalizado que disponibilizamos para pesquisadores, estudantes e outros interessados. Agendamos visitas de escolas também, temos espaço para receber as turmas.
Wanderlei, com toda sua experiência de consultas e leitura de diversos documentos, como você avaliaria a evolução da história de Franca?
A gente está acostumado a analisar documentos, jornais e várias fontes e vê que a cidade evoluiu bastante, a tecnologia que vai chegando aos locais, vai chegando aqui também, a gente vê o crescimento da cidade, então foi um desenvolvimento bem grande. Acho que na questão ambiental, temos que evoluir muito. Franca ainda está devendo muito. A gente vê as pessoas sem consciência, sem respeito às questões ambientais. É preciso também criar mais parques, áreas de lazer, a gente vê tanta área devoluta que poderia ser uma praça para as pessoas se divertirem. Mas moro aqui há 29 anos, gosto muito da cidade, não me vejo morando em outro lugar, estou fazendo minha vida aqui, tenho minha casa aqui, minha família, meus filhos nasceram aqui. Quero o melhor para a cidade e o que a gente puder fazer para contribuir, vamos fazer a nossa parte.
E na parte econômica?
Franca tem os primeiros moradores no final do século XVIII, início do XIX com a vinda de pessoas de Minas Gerais, quando se esgota o garimpo de ouro lá e elas migram para cá em busca de pedras preciosas. Mas o forte mesmo foi a criação de gado, a pecuária, que vai ser a fonte de renda local. Depois se desenvolve o trato com couro e a indústria de calçados. Como aqui é passagem para Goiás, esses boiadeiros, chamados tropeiros, vinham, trocavam mercadorias por couro, que usavam para fazer adereços dos cavalos e dos bois e também para roupas porque andavam muito no meio do mato, usavam os botinões que faziam aqui também e é assim que começa a surgir a produção com couro. Depois vem a cafeicultura que vai ser um fator importante para a cidade na segunda metade do século XIX até mais ou menos 1920, 1929 quando tem a queda da Bolsa de Nova Iorque e enfraquece um pouco. Mas durante todo esse período, a cafeicultura vai ajudar a vinda da Mogiana, da ferrovia, quando Franca passa a ser abastecida com mercadorias que até então não tinham aqui. O trem traz cimento, telhas, ferragens, mármores e permite o investimento em construções aos moldes que temos hoje. Até então, as casas eram feitas de pau a pique, cobertas às vezes com palha, e a ferrovia traz essas mercadorias e passa a escoar a produção de café e depois de calçados também. Com o desenvolvimento dos calçados, surge a indústria mecanizada e dá o salto que chega até os dias de hoje, na década de 70 começam as exportações. A indústria calçadista teve altos e baixos, mas ela ainda está presente. Teve também outras fontes de renda não tão grandiosas, mas que foram importantes também, como o comércio de sal no começo do século XIX. Até chegar a ferrovia, era trazido de Campinas até aqui, então era um produto muito caro, porque a distância era grande. Aqui teve também fábricas de macarrão, fósforos, bebidas, a pequena indústria também se fez presente, além das três fontes principais, que eram a pecuária, a cafeicultura e os calçados. São produtos que projetaram o nome de Franca para o país e o mundo.
