Nelise Luques
A Fundação Espírita Allan Kardec, em Franca, nasce em 1922 a partir do olhar sensibilizado de José Marques Garcia com as pessoas que tinham transtornos mentais. No próximo dia 19 de novembro, a instituição completará cem anos de história ininterrupta no acolhimento e atendimento em Saúde Mental para a população de Franca e região.
Mario Arias Martinez é presidente da Fundação e, ao lado de Fernando Palermo, vice-presidente, demais integrantes da diretoria e um grande grupo de colaboradores, tem conduzido um importante processo de reformulação do atendimento em Saúde Mental desde 2017, quando assumiram.
Atualmente, a Fundação Allan Kardec mantém um conjunto de serviços que atendem 500 pessoas diariamente. A parte hospitalar é composta pelo Hospital Dia, com 30 vagas, e 60 leitos de internação psiquiátricos disponibilizados ao SUS. Em parceria com a Prefeitura, a instituição é gestora do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Florescer, que recebe pacientes com transtornos mentais, e o CAPS Renascer AD – Álcool e Drogas, voltado para atendimento a dependentes químicos, além de cinco Residências Terapêuticas que acolhe pacientes egressos do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, que moraram por anos na instituição. E há também o Programa de Desenvolvimento Humano – Oficinas Inspiração, de geração de trabalho e renda.
Para comemorar os cem anos, a instituição prepara uma festa aberta à comunidade. Será no dia 19, sábado, das 9h às 13h, no Bosque Beija-Flor, localizado na própria Fundação, no Bairro Cidade Nova. Durante o evento, as pessoas terão a oportunidade de conhecer todos os serviços prestados pela instituição, acompanhar homenagens aos que colaboraram com a trajetória de cem anos da casa e confraternizar.
Nesta entrevista ao Verdade, Mario narra sua ligação com a Fundação, que começou com o seu avó ainda na época de José Marques Garcia (1862-1942), os desafios, conquistas e caminhos para prepará-la para os próximos cem anos.
Mario, como surge a sua relação com a Fundação Allan Kardec?
Eu morei no Bairro Cidade Nova a vida toda, sempre passei por aqui, em frente à fundação. Meu avô foi barbeiro na fundação também por muito tempo, na época do José Marques Garcia, do José Russo, então eu cresci ouvindo falar da fundação. Sou espírita, frequento o meio espírita e a fundação sempre foi um ícone, como se fosse a nave mãe da Doutrina Espírita em Franca. Então, começou daí e, um belo dia, eu estava fazendo aqui uma palestra, quando o Wanderley Cintra era presidente e, terminando a apresentação, contei para ele essa história do meu avô, a gente se conheceu e ele logo em 2015, ele me convidou para fazer parte do Conselho. Então, entramos aqui naquele momento, eu e o Fernando (Palermo, atual vice-presidente da Fundação) passamos a fazer parte do Conselho em 2015 e foi assim que a gente se aproximou da casa.
E como foi a sua trajetória até assumir a presidência e qual é o período do seu mandato?
Nós ficamos aqui de 2015 a 2017 no Conselho, passamos uma fase muito difícil. O Wanderley, o Leonel seguraram a fundação naquele momento que quase fechou e no final do mandato dele, ali em 2016, ele me convidou para ser presidente. E aí eu sugeri o Fernando Palermo como vice. Eu disse que só viria se o Fernando viesse, pelas atividades profissionais e até pelo tamanho do desafio que a gente ia enfrentar. O Fernando imediatamente aceitou o desafio e nós assumimos em 2017. Estamos aqui até hoje, completando seis anos de mandato agora.
E o que você avalia como o maior desafio e a maior conquista para a Fundação nesse período?
O nosso maior desafio foi tratar da reformulação da fundação. Quando nós aqui chegamos, ela era um hospital psiquiátrico e assim, já vem desde a década de 70 um movimento chamado Luta Antimanicomial, que visa a fechar os hospitais psiquiátricos. Mas também nós temos, em paralelo, serviços de ordens diferentes atuando no que se chama RAPS, que é a Rede de Atenção Psicossocial, são outros equipamentos que fazem um conjunto com os hospitais. Então, o nosso grande desafio era compreender esse novo momento da Saúde Mental e movimentar esse transatlântico aqui para poder fazer essa adequação ao novo momento e projetar o futuro, mas é uma tarefa extremamente difícil, sobretudo pelo tamanho da fundação naquele momento.
E você já consegue enxergar conquistas dessa mobilização toda?
Sim! Nós fizemos inicialmente várias visitas a outros equipamentos para compreender o que era a Saúde Mental Moderna e o que estava se projetando para o futuro. Então fizemos um planejamento, que nós imaginamos durar em torno de seis anos para realizar a reformulação. Depois teve a pandemia e não foi possível fazer em seis anos, mas a gente está trabalhando e nós tivemos muitas modificações já. Nós estamos no meio desse processo, conseguimos enxergar o planejamento já de como vai ser no futuro, apesar de que essas coisas são um pouco dinâmicas, elas vão mudando, mas de qualquer forma, a gente já enxerga o futuro da fundação totalmente reformulada.

Como a gente define a fundação no contexto da Saúde Mental atualmente, em especial com a transição de uma cultura hospitalocêntrica para a ambulatorial?
É, perfeitamente. Inclusive se falava Hospital Allan Kardec, sempre se falou Hospital Psiquiátrico Allan Kardec. Quando nós chegamos e fizemos o planejamento, a gente já tratou de mudar essa terminologia, a gente hoje chama de Fundação Allan Kardec. Nós temos ainda o hospital e a tendência é encerrar as atividades hospitalares justamente por conta dessas mudanças, mas hoje nós somos uma fundação que visa a trabalhar em várias faces da Saúde Mental. Então nós temos o Desenvolvimento Humano, que são as Oficinas Inspiração, de geração de trabalho e renda, temos os CAPSs, que é o CAPS Florescer e o CAPS Renascer. Nós temos HD, que é o hospital dia, e nós temos agora, que montamos por último, as Residências Terapêuticas. São vários serviços que compõem uma grande rede de atenção psicossocial, uma grande rede de cuidados em Saúde Mental.
As Residências Terapêuticas receberam pacientes egressos do Hospital Allan Kardec, que moravam na instituição havia anos. Como vocês avaliam o processo de desinstitucionalização dessas pessoas, levando-as para “casas de verdade”?
Quando aqui chegamos, a gente tinha um certo receio dessa transferência, porque nós tínhamos naquele momento os 104 moradores no hospital. São pessoas que não têm família e que moraram no hospital a vida toda, elas moravam aqui no nosso ambiente, eram cuidadas por nós, alguns já há 30, 40, 50 anos, muitas pessoas idosas. E quando surgiu essa situação de levar esses pacientes para casas, e cada uma acolheria até no máximo 10, então, seriam necessárias dez residências para acolher todas elas, nós estranhamos muito porque a gente cuidava dessas pessoas, as conhecia, tinha uma relação muito fraternal com elas, mas aí nós começamos a fazer esse trabalho. Em 2018, a primeira residência terapêutica foi aberta em Guará, a prefeitura de Guará que assumiu e o resultado foi muito positivo. Depois nós tivemos cinco residências que foram montadas e são administradas até hoje pela Fundação Judas Iscariotes, também com resultado muito bom, com um ganho de qualidade de vida para essas pessoas que antes moravam num hospital. Hoje a gente entende que o hospital não é um lugar para se morar, elas têm qualidade de vida melhor, têm um tratamento mais individualizado nas suas casas e têm ali os seus gostos, as suas atividades diárias de uma maneira mais parecida com uma sociedade normal do que era possível no hospital. Por último, em julho agora, nós abrimos sob nossa administração cinco últimas residências, em uma parceria com a Prefeitura de Franca, totalizando 104 pessoas que desospitalizamos ou desinstitucionalizamos até o momento. Isso para nós é uma grande vitória. A partir do momento que a gente entendeu como funciona o processo e nós acompanhamos junto com essas instituições que já mencionamos aqui e a gente vê muito ganho de qualidade, as pessoas estão muito bem, é um projeto maravilhoso que compõe essa rede toda que a gente está comentando aqui.
E tem uma curiosidade, Mario, que você e o Fernando costumam comentar sempre, que as residências remontam os primórdios da fundação, porque elas espelham, com um trabalho diferenciado é claro, o que o José Marques Garcia fazia lá atrás.
Perfeitamente. O José Marques Garcia, lá em 1920 mais ou menos, começou o trabalho dele acolhendo as pessoas na sua própria casa. Então ele acolhia as pessoas que tinham transtornos mentais, que viviam na rua e levava para a sua residência. Depois, já em 1922, quando se fundou, começou a estrutura da Fundação Allan Kardec, eram casas também, pequenas casas onde ele conseguia colocar essas pessoas e isso é muito parecido com o que a gente está fazendo hoje. São residências, as pessoas tinham uma vida relativamente normal, mas tinham ali os cuidados com relação às suas especificidades. A gente brinca muito que nós estamos remontando realmente a época do José Marques Garcia levando essas pessoas novamente para as suas casas. Então, esses grupos vivem como se estivessem nas suas próprias casas.
Um outro foco da Fundação tem é o Programa de Desenvolvimento Humano. Eu gostaria que você detalhasse um pouco mais as oficinas e nos contasse também sobre os planos de expansão para atender mais pessoas.
Esse é um projeto que a gente vê com extremo carinho e também vemos esse projeto muito alinhado com os propósitos do José Marques Garcia. Esse projeto trata de oficinas de geração de trabalho e renda, então são oficinas para onde o cidadão que tem algum transtorno psiquiátrico vem para trabalhar, então ele é acolhido aqui, ele é acompanhado, ele é treinado e todo o fruto do trabalho dele – porque nós fazemos a venda dos produtos que ele produz – fica para os próprios oficineiros. Então, além do trabalho, do acompanhamento, da alimentação, ele tem também uma renda, que a gente chama de bolsa mensal, que vai depender do resultado de cada oficina. Mas isso é um trabalho que dignifica demais o ser humano, porque eram pessoas que não tinham condição de trabalhar na iniciativa privada e elas vêm para cá e conseguem manter a sua dignidade, conquistam inclusive uma melhoria em todos os aspectos clínicos da sua vida, não só psiquiátrico. A gente teve processos de melhorias clínicas, de triglicérides, colesterol, então é um resgate da dignidade. Hoje nós temos três oficinas: Reciclagem de Eletrônicos, Costura Manual em Couro e Agrícola. Elas comportam 70 pessoas e nós já temos planos e espaço preparado para a montagem de mais quatro oficinas. A próxima, muito provavelmente, vai ser uma oficina de culinária. Depois a gente tem mosaico e várias outras possibilidades que nós podemos trabalhar e a gente segue estudando, o nosso plano é chegar a 300 pessoas participando do projeto a médio prazo. Esse é o nosso grande projeto filantrópico aqui! Esse projeto não tem financiamento de nenhum órgão público, então tudo o que a gente faz é com recursos próprios da fundação ou parcerias com empresas que a gente vem costurando. E agora nos próximos anos a gente quer ampliar muito esse trabalho, chegando, como eu disse, a 300 pessoas atendidas.
Mario, a gente não consegue falar em Fundação Allan Kardec sem comentar um ponto crítico que é o déficit dos pagamentos feitos pelo SUS, uma questão antiga que gerou inclusive a ameaça de fechamento de mais de 120 leitos psiquiátricos em Franca no mês março deste ano. Como está essa situação?
Isso aí é um caos, porque a gente vem historicamente tendo esse problema de financiamento do SUS. A Saúde Mental, com essa Luta Antimanicomial, é alvo, inclusive, de um sub-financiamento programado, para que se feche as fundações por asfixia financeira. Em 2015, como nós relatamos aqui, ainda na gestão do Wanderley Cintra, teve um problema muito grave, a fundação ia fechar em julho de 2015, nós ganhamos uma ação judicial que garantiu o pagamento do custo que o hospital tinha naquele momento e nos levou até agora, 2022. Em 2022, pós-pandemia, com inflação hospitalar e os valores cada vez mais baixos, nós tivemos de novo a iminência de fechamento da fundação. Nós tivemos aqui que tomar algumas atitudes que a gente até já previa na reformulação, mas precisaram ser mais rápidas, então nós encerramos o serviço da clínica particular, que também estava deficitária depois da pandemia e nós fechamos uma quantidade grande de leitos também do SUS. Conseguimos equalizar no final em 60 leitos e vamos agora completando essa reformulação. Mas o sub-financiamento sempre foi um grande problema aqui no nosso meio, a gente convive com ele diuturnamente.
Que valores vocês conseguiram mapear do rombo que causaria à fundação se não fossem tomadas as devidas cautelas e providências?
Se nós não tivéssemos feito a reformulação que fizemos esse ano, nós chegaríamos no final do ano com algo entre R$ 5 milhões, R$ 6 milhões de déficit de dívidas e nós chegaríamos ao final de 2023 com mais de R$ 100 milhões de dívidas. Então isso seria de fato o final da Fundação Allan Kardec, nós teríamos que envolver patrimônio para poder pagar essas dívidas, enfim, a fundação praticamente se extinguiria. Então, foi necessário agir e agir rápido para poder controlar essa situação.
Mario, a gente vê que a fundação tem uma história de resiliência, desafios, dificuldades e vitórias. Ela chega agora no dia 19 de novembro aos cem anos. Como você avalia esse primeiro século de existência da instituição?
Eu avalio como um século de vitórias mesmo. Como você falou, a resiliência e essa capacidade de se reinventar fazem parte da fundação, não é à toa que estamos completando um século, cem anos não é para qualquer fundação, e a gente está planejando os próximos cem já. Então, essa reformulação propicia que a fundação tenha vitalidade para poder nos próximos cem anos continuar atendendo pessoas com transtornos psiquiátricos fundamentalmente, salvando vidas, porque nós salvamos vidas o tempo todo. Atendemos pessoas que têm processos de depressão, processos de crises em saúde mental, que têm ideação suicida, ideação homicida. Então é um trabalho extremamente importante, realizado principalmente para as pessoas mais necessitadas, que não têm aí recursos para buscar um tratamento particular. Nós não podemos nos esquecer também da questão espiritual, nós estamos agora, também, fazendo um resgate da questão da espiritualidade junto com o tratamento de Saúde Mental. Esse também era o propósito do José Marques Garcia, por isso ela se chama Fundação Allan Kardec, mas com o tempo, por conta desses sub-financiamentos e por conta das questões hospitalares, nós acabamos um pouco desconectados da questão espiritualista, porque nós não podíamos ter atuação do grupo espírita, do grupo espiritualista na questão do hospital. Agora a gente quer resgatar isso e a gente está fazendo essa fusão de novo. É maravilhosa a história até agora e muito nos anima, nos entusiasma muito poder planejar essa história, esses cem anos. Nós vamos passar e a fundação vai estar aqui, ainda vibrante e salvando vidas.
E como serão as comemorações de primeiro século de história?
Nós começaremos no dia 17, na quinta-feira que vem, com uma comemoração no Centro Espírita José Marques Garcia, aqui na Fundação Allan Kardec, com números musicais e um palestrante que virá de fora. Esse evento vai começar às 19h30 e é aberto às pessoas que quiserem participar. No sábado, dia 19, data do aniversário, nós vamos fazer uma grande festa aqui no Bosque, com várias atividades, a nossa festa vai começar às 9h da manhã e é aberta ao público. Todos aqueles cidadãos que quiserem participar conosco, fazer parte um pouco dessa história, comemorar e já olhar o que a gente está fazendo para o futuro, estão convidados. Vai ser uma grande festa em comemoração ao centenário.
Qual é o seu ponto de vista diante dessa missão, assim eu vejo o papel de vocês que estão à frente da instituição?
Então, a gente não vê isso como missão, sabe? Nem eu nem o Fernando Palermo, a gente se coloca como meros instrumentos. Esse é um projeto muito maior do que nós mesmos. Ele é um projeto capitaneado desde o plano espiritual, assim é o nosso entendimento, então nós somos basicamente instrumentos aqui de um plano muito maior, de algo que é organizado em um aspecto muito maior do que nós mesmos, mas nós somos muito felizes e gratos de poder fazer esse trabalho, de poder estar aqui nesse momento, de poder ajudar com as nossas características de empreendedores, de administradores, para conduzir essa casa e permitir que ela entre com vigor nesse centenário. E é algo maravilhoso!