Em ritmo de retomada, a indústria calçadista de Franca enfrenta sérias dificuldades para conseguir repor a mão-de-obra – que é especializada – e acelerar a produção. O problema vem sendo verificado nos últimos dez anos, mas se agravou com a pandemia da covid-19.
Em 2013, segundo o presidente do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), José Carlos Brigagão, o setor calçadista em Franca viveu um ano histórico e empregava 28.500 trabalhadores (chegou a 30 mil em outubro) e produziu 39,5 milhões de pares de sapatos. Para se ter ideia, pelos dados mais recentes, que são de maio deste ano, os números caíram pela metade. A indústria estava com 16.411 trabalhadores e a projeção é fabricar 21,5 milhões de pares até o fim do ano.
“Em 2014, 2015 começou a declinar a produção e em 2020 a crise mundial provocada pela covid-19 atingiu muito o mercado internacional e também o comércio interno. Com o ‘Fique em Casa’, nós nos fechamos, e as compras e a produção caíram muito, além de enfrentarmos dificuldades para conseguir matéria prima. Prejudicou demais”, explicou Brigagão.
A meta é voltar aos patamares de empregabilidade e produção registrados em 2013 e aos índices de exportação da década de 90, auge das vendas para o mercado externo vivenciado pela indústria calçadista francana. “O setor chegou a exportar mais de 250 milhões de dólares em 1993. Neste ano, os sapatos de couro devem vender R$ 87 milhões para o mercado internacional; em 2021, foram R$ 54 milhões.”
Para o presidente do Sindifranca, a paralisação imposta pela crise sanitária obrigou as pessoas a migrarem para outros setores e agora há dificuldade em “resgatar” esses profissionais. “Na pandemia, os trabalhadores precisam procurar alternativas, ir para o segmento de confecção ou outros para poder sustentar suas famílias”.
Muitos trabalhadores da indústria de calçados realmente migraram de ramo, especialmente durante a pandemia. Especialistas em Recursos Humanos, acreditam que as empresas terão que rever suas políticas salariais e de valorização dos colaboradores, para conseguir atraí-los e retê-los em seus quadros de funcionários.
A coladeira de peças Vitória Morais do Nascimento, de 21 anos, moradora de Franca, teve o primeiro contato com o setor calçadista quando tinha 14 anos no curso de Confeccionador Eclético de Calçados no Senai. A sua primeira experiência prática começou por volta dos 16 anos, em uma banca de sapatos. Vitória conta que começou a trabalhar no local passando atacador, mas também fez cortes no balancinho e colocação de solas. Nos últimos anos, ela teve experiências como coladeira de bolsas, babá e na área de telemarketing.
Atualmente, Vitória voltou a trabalhar em fábrica, mas pretende mudar de segmento. “Hoje reconheço que é um serviço onde você trabalha muito e não tem tanto retorno quanto espera. Retornei para o setor calçadista pelo fato de ser minha melhor experiência, mas pretendo me afastar e trabalhar em algo que me sinta mais valorizada”, afirmou ela.
O Sindifranca tem adotado algumas medidas para tentar suprir a falta de mão de obra especializada nas indústrias de calçados. Segundo ele, na visita mais recente feita pelo governador Rodrigo Garcia a Franca, foi entregue um ofício solicitando providências urgentes para ajudar o setor. “A tributação é muito alta, precisamos que a alíquota seja revista, além da necessidade que temos da liberação dos créditos acumulados do ICMS para as empresas. Aguardamos o governo tomar providências”.
Outro projeto para ampliar a rede de trabalhadores para as fábricas é a busca de parcerias entre o Sindifranca, Senai e Prefeituras da região. Nas cidades vizinhas, estão sendo instaladas incubadoras para treinar profissionais e atender a demanda de serviço das indústrias francanas que é levada para esses municípios.
Segundo Brigagão, em Pedregulho já estão em atividade 21 bancas de pesponto. São José da Bela Vista está montando a infraestrutura da incubadora e, até que finalize esse processo, transporta alunos até o Senai em Franca para treinamentos. Cristais, Patrocínio Paulista e Restinga também devem firmar parceria com o sindicato e Senai.
“A Prefeitura assume a infraestrutura da incubadora e o Sindifranca e Senai fazem a seleção, recrutamento e treinamento das pessoas inscritas. É uma alternativa para formarmos mão de obra qualificada e dar cobertura para as empresas conseguirem atender toda demanda, inclusive de exportação. Esperamos reorganizar o setor”, concluiu Brigagão.