Nelise Luques
A pedagoga Márcia Gatti, mestre em Psicologia da Educação, comanda a maior pasta da Prefeitura de Franca. Desde janeiro de 2021, ela é secretária municipal de Educação e está à frente da coordenação de 51 escolas municipais, 81 creches e unidades da EJA (Educação de Jovens e Adultos. Ao todo são 30.200 alunos envolvidos nos projetos e metas para a área.
Márcia já iniciou a função com um imenso desafio: cuidar da Educação diante da pandemia da Covid-19. Em entrevista ao Verdade, a secretária informou que em fevereiro deste ano, quando as aulas voltaram integralmente ao formato presencial, foi realizada uma sondagem para verificar as hipóteses de escrita das crianças e detectou-se que 50% dos estudantes do 3º ano não estavam alfabéticos.
Outro dado revelado é que, em média, 40% dos estudantes demonstraram que necessitam de atividades para recuperar ou retomar conceitos não adquiridos para o desenvolvimento das habilidades previstas para o ano que estão matriculados.
As avaliações serão repetidas no próximo mês, para balizar os trabalhos desenvolvidos ao longo do primeiro semestre e período pós-pandemia. Márcia pontua as principais ações nas escolas municipais para recuperar a defasagem gerada pelo distanciamento durante a crise sanitária da Covid. “É necessário que nós educadores estejamos empenhados, focados, obcecados pela recuperação do tempo perdido, para reduzir de forma urgente as desigualdades educacionais que se agravaram nesse período pandêmico.”
Márcia, você tem larga experiência na área da Educação, tendo atuado em diferentes trabalhos, desde supervisora de ensino, professora de educação infantil, coordenadora no Cefam (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) e diretora de escola. Como surgiu seu interesse pela área e o que você destaca das suas atuações?
Tudo começou na década de setenta. Deliciosa década de setenta. Minha vontade de ser professora emergiu precocemente nessa época. Minha mãe é professora aposentada e todas as noites eu representava o papel de uma professora dedicada e ávida pelo ensinar e pelo aprender na garagem de minha casa, dando aulas para os “alunos-vizinhos”. E não parei mais. Aulas particulares, aulas de catecismo, aulas de teatro, aulas de culinária. Conclui o magistério, passei em um Concurso Público na Prefeitura de Cristais Paulista e comecei a trabalhar na Creche Municipal “Cantinho da Amizade”. Não consigo destacar pontos principais em minhas atuações na Educação, vivi tudo com muita intensidade e sempre ofereço o meu melhor independentemente de onde atuo ou qual função ocupo. Meu foco é a educação e melhorá-la no Brasil é o que me motiva. Por exemplo: ministrando aulas na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, pude enxergar ao vivo e a cores como os seres humanos aprendem a ler e a escrever – e olha que eu era e sou avessa ao ba-be-bi-bo-bu – e o estudo que realizei a partir de minha prática me rendeu uma dissertação de mestrado. No Cefam, pude conviver com os adolescentes que se viam diante de um curso profissionalizante e, muitas vezes tive que descobrir junto com eles a importância da Educação para a construção de uma sociedade cidadã, de verdade, verdadeira. Como diretora, me envolvi com a formação continuada de professores e foi outro tema que pesquisei no mestrado e que pude dar continuidade trabalhando como Supervisora de Ensino responsável pelos Anos Iniciais do Núcleo Pedagógico da Diretoria de Franca, de 2009 a 2018, e dos Anos Finais e Ensino Médio de 2015 a 2018. A formação de professores me encanta e a considero tão necessária para o avanço educacional que, onde quer que eu esteja, vou colocá-la como meta de trabalho. Na Seduc, enquanto Técnica de Avaliação e Currículo, me aproximei do ‘lugar onde nascem as ideias’ e foi bárbaro poder fazer parte da equipe que reformulou o material didático que é utilizado em inúmeras escolas públicas do Estado de São Paulo. E recentemente, ganhei a cereja do bolo. Como me realizo com o trabalho que desenvolvo na Secretaria Municipal de Educação e como sou grata pela oportunidade de poder dedicar meu tempo, compartilhar meus saberes e ter a chance de aprender com tantas pessoas. Trabalhar com o prefeito Alexandre (Ferreira), me mostra todos os dias que uma atuação comprometida pode transformar realidades. Muitas coisas que precisavam e precisam ser feitas na educação municipal, dependem de vontade política e o Alexandre é um gestor que participa, sugere, lança ideias, ouve, acolhe e dá autonomia para a gente trabalhar. Aliás, em todo esse percurso profissional posso destacar um ponto: o privilégio de ter escolhido uma área em que aprendo e me transformo todos os dias.
Em fevereiro deste ano, a rede municipal de ensino iniciou o ano letivo de forma presencial após longo período de afastamento integral ou parcial das escolas por causa da pandemia. Como você avalia o primeiro semestre após esse retorno?
Falando sobre aprendizagem escolar, os estudantes dos anos iniciais foram muito afetados pelo afastamento das aulas durante a pandemia. Os alunos que em 2019 cursaram o 3º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, fizeram o 4º e o 5º anos em casa e retornaram em 2022 à escola no 6º ano, com uma rotina totalmente diferente tanto no que se refere ao tempo didático, quanto em relação ao espaço. As crianças que estavam matriculadas em 2020 no 1º ano, tiveram que estudar remotamente o 1º e o 2º anos e retornaram à escola no 3º ano. Os pais não estão preparados, nem devem estar, para ensinar o filho a ler e a escrever. Isso é papel da escola. Ou seja, o 3º ano se tornou uma seara que necessita de muita atenção e precisamos utilizar estratégias certeiras. Não temos o fator tempo ao nosso lado. O afastamento não afetou apenas as questões relacionadas ao ensino, outras questões importantes foram consideravelmente afetadas. Se lembrarmos que foram quase dois anos sem que as crianças pudessem conviver cotidianamente com outras crianças, sem que pudessem aprender com as diferenças, sem que pudessem realizar atividades coletivas e brincadeiras, começamos a delinear o tamanho do problema. Na infância a brincadeira coletiva é estruturante. Os pequenos não conseguiram desenvolver habilidades fundamentais, como, por exemplo, resolver conflitos, organizar as brincadeiras, seguir as regras e, posso estar enganada, mas me parece que os maiores se esqueceram destes conceitos básicos para o convívio em sociedade. Resultado: tivemos um primeiro semestre muito atípico, em que os professores tiveram que resgatar situações, conceitos, princípios que estavam sendo construídos e de repente foram rompidos, e, tudo isso sem abrir mão do processo ensino e aprendizagem que é a principal função da escola.
Diferentes estudos avaliam as consequências da pandemia no sistema educacional. Um deles, divulgado pelo DataSenado, aponta que a crise sanitária provoca o maior risco de abandono e evasão, prejuízos à aprendizagem e prejuízos à saúde mental. Como administrar todas essas questões?
Para recuperar o que foi perdido, adotamos algumas estratégias:
Outro estudo, do Alicerce Educação, revela que após a pandemia, os brasileiros apresentam até 4 anos de defasagem educacional em leitura, escrita e matemática. Como você avalia esse cenário?
O fato é que temos uma emergência pela frente. Precisamos enfrentar defasagens de aprendizagem provocadas pelo longo período de escolas fechadas. Para reconstruir a educação, precisamos de comprometimento, foco, planejamento e muita disposição. É fundamental que o professor priorize em sua prática a utilização de novas metodologias e estratégias a partir dos conhecimentos e dos processos educativos construídos pelos estudantes, a tecnologia a serviço da aprendizagem, atividades de apoio pedagógico, metodologias ativas, reflexivas e de resolução de problemas. Obviamente vamos ver essa defasagem refletida nos resultados das avaliações externas, portanto, é necessário que nós educadores estejamos empenhados, focados, obcecados pela recuperação do tempo perdido, para reduzir de forma urgente as desigualdades educacionais que se agravaram nesse período pandêmico. Para alguns estudantes, o ensino presencial é sua única possibilidade de acesso aos conhecimentos acumulados pela humanidade. Quando acharmos que o que realizamos é pouco, vamos nos lembrar disso e continuar fazendo nossos ‘pequenos nadas’, o mais rápido possível.
E em Franca, o que já é possível mensurar dos impactos da pandemia?
Em relação ao processo ensino aprendizagem, o que temos são os dados iniciais. Na sondagem que realizamos em fevereiro deste ano, para verificar as hipóteses de escrita das crianças, detectamos que 50% dos estudantes do 3º ano não estavam alfabéticos. Realizamos as primeiras avaliações diagnósticas de 16 a 25 de fevereiro de 2022. Os resultados iniciais nos mostraram o que já esperávamos. Em média, 40% dos estudantes demonstraram que necessitam de atividades para recuperar ou retomar conceitos não adquiridos para o desenvolvimento das habilidades previstas para o ano que estão matriculados. Com estes resultados em mãos os professores planejaram ações de recuperação e retomada de conceitos. De 27 de junho até o dia 1º de julho serão aplicadas as Avaliações Diagnósticas de Acompanhamento do Processo. Os resultados serão inseridos pelos professores na planilha digital até o dia 29 de julho. A partir destes resultados poderemos realizar o estudo comparativo, analisar o caminho percorrido no primeiro semestre e planejar os ajustes para o segundo semestre. Quanto ao desenvolvimento socioemocional, como eu já disse, os estudantes estão reaprendendo a conviver. Casos mais graves estão sendo analisados pela médica pediatra que realiza os encaminhamentos aos especialistas. Temos uma aula por semana e materiais adequados para que os professores abordem as competências socioemocionais e contribuam pedagogicamente com estas questões.
Que ações foram ou estão sendo tomadas para recuperar o déficit gerado pelo afastamento das escolas?
Estamos atuando em quatro frentes que vão ao encontro de propostas realizadas por especialistas em Educação que atuam no movimento “Todos pela Educação”. São elas:
Márcia, desde o começo do ano, uma questão verificada nas escolas municipais gerou muitas críticas e descontentamentos: A merenda escolar, com o chamado “lanche seco” servido em algumas unidades. Essa situação será regularizada quando?
Primeiramente é necessário considerar que até 31 de dezembro de 2021, devido ao impedimento previsto pela Lei Federal nº 173/2020, o poder público não pôde realizar contratações de servidores. A falta de merendeiras exigiu uma reestruturação no cardápio das escolas para 2022, pois apesar de termos realizado todas as reposições de servidores(as) que faltavam, a quantidade de merendeiras já estava comprometida, por falta de contratações na gestão anterior. Diante desse cenário e da impossibilidade de contratação de novos servidores (impedimento previsto pela Lei Federal nº 173/2020), iniciamos a cotação de preços e os orçamentos para licitarmos a entrega de marmitas nas escolas. No entanto, não obtivemos sucesso, pois as empresas contatadas não demonstraram interesse em prestar este tipo de serviço, por conta da enorme quantidade de marmitas que deveriam entregar diariamente. Assim, partimos para a ideia de lanche saudável e realizamos o processo licitatório para atendimento às unidades escolares do município, no sentido de assegurar o atendimento aos estudantes. Os lanches foram servidos em unidades escolares, com atendimento em período parcial da rede municipal. Não foram oferecidos lanches em nenhuma escola de período integral ou creches conveniadas, pois, há particularidades nesses dois módulos com relação à faixa etária e quantidade de macro e micronutrientes. Nestes últimos meses conseguimos uma empresa para distribuir marmitex em todas as escolas de educação infantil da Rede Municipal, o que atenuou o problema. Os cardápios foram desenvolvidos pela nutricionista para assegurar a alimentação dos estudantes nas escolas que ficaram com quadro reduzido de serventes merendeiros(as), foram criteriosamente pensados para atender ao percentual de valores nutricionais exigidos pela Lei do PNAE (valores estes que podem ser encontrados no site www.fnde.gov.br), que impõe a obrigatoriedade da alimentação escolar em suprir de 20% a 30% das necessidades nutricionais diárias. O cardápio desenvolvido cumpre à risca a determinação legal, portanto, não houve déficit de nutrientes, nem ilegalidade no atendimento. Foi elaborado para ser utilizado temporariamente até concluirmos o processo de contratação das merendeiras. O concurso para merendeira ocorre em duas etapas, prova objetiva, que já foi realizada e, prova prática, é portanto, um pouco mais demorado. No dia 21 de junho chegarão às escolas 36 merendeiras e o problema finalmente será solucionado.
Qual o déficit atualizado das creches em Franca. Em que frentes a Secretaria Municipal de Educação tem atuado para reduzi-lo?
Na lista de espera do sistema da Central de Vagas, constam cerca de 1.800 crianças. Deste total, 720 crianças estão matriculadas nas escolas municipais, mudaram para outros municípios ou estão matriculadas na rede privada. Temos ainda 288 vagas sem preencher. Desde o início da gestão, reduzimos em 50% a lista de espera. Em fevereiro de 2021, quando assumimos, estavam na lista de espera 3.689 crianças. Realizamos busca ativa, gestão das vagas, ampliamos vagas e realizamos chamamentos. Do início da gestão até o final de 2022, chegaremos a 650 novas vagas. No final deste ano teremos obras a serem concluídas, também estamos em processo de ampliação de mais salas em creches já existentes e construção de novas creches para abrirmos mais 650 vagas até meados de 2023.
À frente de uma das maiores pastas da Prefeitura Municipal, que projetos você destacaria como primordiais para a Educação?
Vejo a Educação como um conjunto de programas e projetos pensados enquanto política pública. Educação é processo e os avanços são percebidos a longo prazo, se priorizarmos ações simples e fundamentais. Vou destacar alguns projetos que considero pilares em nossa gestão, inclusive para que outros possam acontecer e gerar avanços educacionais: