Nelise Luques
A pandemia ainda provoca graves reflexos como a crise de abastecimento de medicamentos. Em Franca, o problema é registrado desde o começo da pandemia, se intensificou em 2021 e neste ano se agravou ainda mais. Nas grandes redes de farmácia e estabelecimentos menores, faltam antibióticos (amoxicilina), antiinflamatórios, antialérgicos e antitussígenos, além de psicotrópicos. A situação é mais grave com os remédios de uso pediátrico, em forma líquida (xarope); muitos não são encontrados. Quem precisa comprá-los enfrenta uma verdadeira saga.
Para os profissionais que atuam no ramo de farmácias, os principais fatores para a escassez de medicamentos são a pandemia da Covid-19, que provocou escassez de insumos para a fabricação, e a alta procura.
“Cerca de 80% dos sais farmacêuticos são produzidos pela Índia, que fornece para laboratórios do mundo todo e quem exporta é a China, mas a pandemia parou a importação e os laboratórios ficaram desabastecidos”, afirmou Fabrício Pedroza, farmacêutico responsável pela rede Drogafarma, que possui 40 unidades em Franca e outros nove municípios da região e tem enviado medicamentos para outras cidades, como São Paulo, Ribeirão Preto e Brasília.
Uma outra farmácia no Leporace registra o mesmo cenário. Os funcionários afirmam que as distribuidoras têm comunicado que a dificuldade de importar matéria-prima vem afetando a produção.
Segundo Fabrício Pedroza, ao perceber os problemas de abastecimento, a rede Drogafarma ampliou o Centro de Distribuição para um espaço três vezes maior e reforçou o estoque, mas não foi suficiente. “Compramos a demanda referente às vendas de um ano, mas vendemos tudo em três meses. A amoxicilina com clavulanato teve falta generalizada, vendemos o previsto para 12 meses em 60 dias. No caso da azitromicina, que está nos protocolos de tratamento da Covid, a procura foi muito alta e chegou a esgotar”.
Com o surto de dengue enfrentado no país e Franca também vive o problema (são quase três mil casos confirmados apenas neste ano), o soro de reidratação oral também está em falta nas drogarias. Sem o ativo para produzi-lo, os fabricantes não conseguem atender toda demanda.
As perspectivas para normalizar os estoques são preocupantes. “O que deixa a gente mais desesperado é que não tem previsão de normalização. Mantemos os compradores o tempo todo acompanhando o estoque e em contato com as distribuidoras para tentar a reposição, mas está difícil conseguir. Temos uma lista de transmissão em que comunicamos os médicos sobre os medicamentos que temos para garantir o tratamento dos pacientes, para que evitem que eles saiam com receita contendo medicamentos que não vão encontrar”, afirmou Fabrício. “Em 44 anos de empresa nunca vimos isso na história, uma crise de abastecimento tão grave”.