Fernando Lima
Essa semana a saúde mental foi pauta aqui no Verdade, especialmente em relação aos adolescentes. O ponto de partida da discussão foi o grande registro de brigas em escolas. Em uma delas, que fica na região central, foram cinco ocorrências em um período de apenas trinta dias.
No nosso bate papo de domingo, o psicólogo Felipe Santos da Silva, de 30 anos, repercute o assunto, mas agora em um contexto geral, principalmente sob o aspecto de que a saúde mental é um assunto ainda pouco discutido, e que infelizmente é um tabu.
Na entrevista, Felipe deu o seu ponto de vista sobre o pós pandemia, auto extermínio, e outros pontos. Confira:
Felipe, a gente vive agora um fenômeno muito novo para todo mundo, a retomada da vida normal no pós pandemia. A saúde mental deve ter uma atenção especial neste processo?
Sem sombra de dúvidas. A pandemia e sua imprevisibilidade desencadeou um olhar necessário para a saúde mental de toda a população. O acometimento de diversas psicopatologias como: a depressão, transtorno de ansiedade, a síndrome de burnout entre outras, foram constantes durante a pandemia, e agora no contexto denominado por alguns, como pós-pandêmico, tal cenário ainda se mantém, e demanda um olhar sensível e cuidadoso para que medidas de cuidado possam ser implementadas, e serem delimitadas estratégias para promoção da saúde mental de todos.
As crianças, os adolescentes, devem ter uma atenção ainda maior?
Com certeza. Afinal uma diferença prevalente entre os adultos e as crianças/adolescentes é a capacidade adaptativa, e para que as mudanças desencadeadas pela pandemia tenham menor impacto, faz-se pertinente o diálogo e uma postura empática, seja no contexto familiar, social, educativo ou laboral.
Qual o impacto na saúde mental de tudo o que a gente viveu nos últimos dois anos?
São inúmeros os impactos negativos desencadeados pela pandemia, entre eles: o esgotamento emocional dos profissionais de saúde da linha de frente no combate ao coronavírus; a sobrecarga laboral (em todos os âmbitos) para garantia de proventos básicos; o medo do desconhecido; ansiedade exacerbada; insegurança, entre outros. Com tudo isso, a consciência de que somos seres humanos, bio-psico-sociais-e-espirituais tem se consolidado e apontado a relevância de tematizar pautas sobre tais especificidades, com finalidade de tratá-las.
Muitos especialistas alertam sobre o autoextermínio, principalmente de adolescentes. Isso se agravou com a pandemia? Quais são os sinais de que isso pode acontecer, como ficar alerta a isso, e o mais importante, como prevenir?
Não há receita pronta para tratar as complexidades que constituem a condição humana, se fosse assim, tudo seria muito mais fácil.
No entanto, o diálogo ancorado por uma comunicação assertiva pode favorecer a identificação de questões que precisam de atenção e cuidado especializado, como; o auto-extermínio; uso e abuso de drogas; ideação e tentativa de suicídio. Os pais, familiares, amigos e professores devem se manter atentos aos sinais de isolamento; embotamento emocional; introspeção e irritabilidade, que combinados com comportamentos não usuais, podem indicar que algo não está bem. E buscar auxílio profissional, sempre.
Como enxerga as políticas públicas voltadas para a saúde mental?
É possível identificar o oferecimento de apoio e atendimentos psicológicos em diversos contextos: seja nas escolas; em clínicas escolas (localizadas em universidades); hospitais; UBSs e centros de apoio; CAPS; centros de convivência.
No seu ponto de vista, o cuidado com a saúde mental ainda é um tabu? Porque?
Durante a pandemia, esse tabu tem passado por uma desconstrução. Evoluímos bastante, e isso se deu, justamente pela própria emergência e os inúmeros casos de adoecimento emocional decorrentes das mudanças provocadas nesse contexto catastrófico.
Qual mensagem deixa para quem está nos acompanhando?
Busque ajuda profissional e uma escuta ativa qualificada. Sabemos que existem diversas pessoas disponíveis para ajudar, e elas podem sim contribuir para os modos de enfrentamento, frente às experiências emocionais traumáticas, mas jamais devem substituir a ajuda profissional, para os cuidados relacionados à saúde mental.