Nelise Luques
Na Capital do Basquete, um extraordinário projeto de inclusão acaba de ser reativado e promete continuar transformando vidas. O Basquete Sobre Rodas é adaptado para jogadores cadeirantes da modalidade e está sendo retomado com grandes expectativas. Entre os planos estão a profissionalização do projeto, apresentações em escolas, empresas e jogos no Ginásio Pedrocão, além da formação de uma equipe paralímpica para competir por Franca.
O projeto foi criado em 2008 com participação do professor de Educação Física Pablo Costa, assistente técnico do time profissional do Sesi Franca Basquete e coordenador e técnico do Basquete Sobre Rodas. Hoje, Pablo, Aldo Rocha Júnior e Rogério Barbosa conduzem o trabalho, que conta com o aval do Instituto Vidativa e outros parceiros para alcançar grandes lances.
Nesta entrevista, Pablo e Aldo compartilham um pouco mais sobre o projeto, seus objetivos e necessidades, como o apoio da comunidade e empresários para que ganhe solidez e conquiste grandes resultados. Confira!
Pablo, você teve a iniciativa de criar o Basquete Sobre Rodas ainda em 2008, quando era universitário. Como surgiu a ideia e com qual objetivo?
Pablo Costa – A ideia inicial foi da então professora Doutora Maria Giorgina, da Unifran, e o projeto se iniciou lá, eu ainda como aluno. Tive uma participação muito efetiva na parte prática e de desenvolvimento das atividades, por minha experiência no basquete. Eu iniciei jogando com o Aldo como meu primeiro técnico e fui formado pelas categorias de base do Franca Basquete. Joguei 10 anos como profissional em vários times e depois iniciei minha carreira como técnico em Franca, sendo assistente do Paulão Berger e do Hélio Rubens inicialmente e depois dirigindo times da base, seleções paulistas e seleções brasileiras de base também.
Como caminhou o projeto até ser oficializado?
Pablo Costa – Naquele momento, foi divulgado e iniciamos as atividades apenas dentro da universidade. Depois de um período, começamos treinos em outros locais e quando precisei sair por motivos profissionais, o projeto não teve continuidade.
O projeto teve uma pausa a partir de 2014, quando você se mudou para Macaé, no Rio de Janeiro, a trabalho. Lá você desenvolveu projeto semelhante? Como foi essa experiência?
Pablo Costa – Foi no período da minha saída. Fui trabalhar com meu irmão em Macaé em um time do NBB e fiquei lá por 4 anos e meio. Ao chegar na cidade, vimos um grupo de atletas de um time de Basquete Cadeira de Rodas que tinha na cidade e eles estavam sem condições de treinar e competir. Incluímos o grupo na nossa Associação e iniciamos um trabalho em conjunto. Esse trabalho atendia pessoas com deficiência em geral e tinha uma equipe de competição, o que estamos tentando fazer com o Instituto Vidativa em um médio longo prazo aqui.
Felizmente, o Basquete Sobre Rodas está sendo retomado agora em Franca. Quais as novidades desse retorno?
Aldo Rocha – O Instituto Vidativa foi fundado em 2019 por mim, pelo Pablo e por pessoas amigas e próximas, com propósitos de vida ligados ao esporte e que acreditam na formação através dele. A ideia é que possamos atender neste Projeto todas as pessoas com deficiência de Franca e região que gostem e queiram praticar o basquetebol, para que tenham uma melhoria na qualidade de vida, seja física, social ou motivacional.
Vocês têm a expectativa de profissionalizar o projeto e envolver entidades sérias e comprometidas. Como está essa fase?
Aldo Rocha – Vimos que no início do projeto em 2008 ele não criou raiz e ficou muito frágil, tanto que não conseguiu ter continuidade com a saída do Pablo. Agora estamos, através do Instituto Vidativa, tentando profissionalizar as ações, envolver mais pessoas, que inicialmente estão de forma voluntária, mas que irão fazer parte do nosso projeto profissionalmente no futuro. Além dos recursos humanos, necessitamos do apoio de entidades e patrocinadores que acreditem neste projeto e possam nos dar solidez e credibilidade para que seja duradouro e consiga crescer de forma gradativa, principalmente oferecendo melhores estruturas para os alunos, atletas e profissionais envolvidos.
Como se deu a parceria com o técnico Aldo Rocha e o fisioterapeuta Rogério Barbosa na criação do Instituto Vidativa? Como funcionará o Vidativa?
Pablo Costa – O Aldo foi meu 1º técnico, é um grande mestre e amigo. Ele sempre me ajudou em todos os momentos da minha trajetória, como atleta e como treinador. E um dos melhores e mais leais profissionais que conheci. E o Rogerinho é um irmão que a vida me deu, sendo um profissional ímpar na Fisioterapia, um dos melhores do Brasil, e que temos muitas ideias e propósitos de vida em comum. Não poderiam dar errado essas parcerias e trabalhar junto com eles é um tremendo privilégio.
Aldo Rocha – O Instituto Vidativa foi fundado em 2019 por mim, pelo Pablo e por pessoas amigas e próximas, com propósitos de vida ligados ao esporte e que acreditam na formação através dele.
Com quantos integrantes o Basquete Sobre Rodas está atualmente e qual o perfil, são homens e mulheres, quais as idades, todos são de Franca?
Aldo Rocha – O Projeto tem 16 integrantes inscritos atualmente e esse número vem crescendo a cada dia, após o lançamento oficial no dia 9 de abril. O projeto atende homens e mulheres, meninos e meninas, de qualquer idade e qualquer tipo de deficiência, moradores de Franca e região.
Mesmo PCDs não cadeirantes podem compor a equipe de vocês. Quem pode participar do projeto?
Aldo Rocha – É um projeto participativo e as aulas são gratuitas. Ele inclui qualquer pessoa com deficiência, principalmente cadeirantes, mas também temos no projeto alunos que não são cadeirantes e a inclusão e a adaptação para as atividades são as mesmas.
Pablo, hoje você é auxiliar técnico do Helinho, na equipe de alto rendimento do Sesi Franca Basquete, e é extremamente cobrado por resultados. No Basquete Sobre Rodas, a cobrança é totalmente diferente. Como é a sua atuação?
Pablo Costa – A responsabilidade e cobrança em time de ponta e de alto nível como o Franca Basquete é muito grande, ainda mais em uma cidade apaixonada por basquete como é Franca. O trabalho é muito intenso junto com o Helinho e toda a Comissão Técnica para dar alegrias e vitórias sempre. Aqui no Projeto, o intuito é outro. A ideia é trazer alegria, motivação e qualidade de vida para essas pessoas. Tenho a certeza que um dia ainda vamos montar uma equipe Paralímpica de basquete em Franca para competir, mas esse processo ainda teremos que batalhar muito para alcançar. E chegando lá, vão entrar em quadra o Pablo, o Aldo e o Rogerinho competidores (risos), mas por enquanto estamos apenas aproveitando a energia fantástica que este projeto e todas as pessoas nos trazem…. sem cobranças (risos).
As cadeiras de rodas usadas para jogar basquete são especiais e o projeto tem outras particularidades. Qual o desafio de conseguir realizá-lo?
Aldo Rocha – O projeto é maravilhoso e muito especial. Mas claro que ele precisa ser autossustentável e poder oferecer a melhor estrutura possível para seus participantes e também para os profissionais envolvidos. E neste aspecto, contamos e estamos comunicando e apresentando para a sociedade e para empresas que queiram estar junto, como parceiros e patrocinadores, para que ele se desenvolva. As cadeiras são especiais e específicas para a prática de basquete, o que propicia maior desenvolvimento e segurança, mas elas têm um altíssimo custo. A manutenção também é muito cara e também queremos que os profissionais envolvidos sejam merecidamente remunerados, pois todos trabalham de forma voluntária. Hoje o projeto conta com o patrocínio da Acif, da Unimed Franca e a parceria do SesiI, Senai e Adefi (Associação dos Deficientes Físicos de Franca), que são empresas e instituições sólidas e de extrema credibilidade, o que mostra a seriedade do projeto, do Instituto e das pessoas envolvidas. Nós do Instituto somos só temos agradecimentos a todas elas, mas infelizmente ainda é muito pouco, se pensarmos nas necessidades para se fazer um projeto e atender todas suas necessidades. Desta forma, a importância de novas empresas e pessoas que queiram e acreditem nessa ideia é de suma importância para o pleno desenvolvimento do projeto.
Vocês já se apresentaram no intervalo de um jogo no Pedrocão. Há expectativas de retomar apresentações como essas?
Pablo Costa – Foram em duas oportunidades. Experiências únicas na vida de todos e uma emoção inesquecível. O projeto sempre estará presente nas necessidades da população e da cidade. Palestras, apresentações em escolas e empresas, eventos e participações são parte do processo pedagógico do Basquete sobre Rodas e a troca de visibilidade para os patrocinadores. Quem sabe em breve voltaremos ao Pedrocão lotado para mais essa emoção e divulgação do Projeto e do Instituto! Vamos trabalhar duramente para que este dia chegue logo.
E por falar em emoção, no lançamento do projeto realizado no começo deste mês, os jogadores do Sesi Franca David Jackson e Ware tiveram uma participação especial. Como foi esse momento?
Pablo – Nossa, foi uma participação muito especial, os cadeirantes ficaram muito felizes por estarem de perto com dois ídolos e eles foram muito bacanas em jogar com eles nas cadeiras de rodas, e conhecer a realidade deles também. Então foi uma troca de experiência muito legal. E ao mesmo tempo, todo mundo ficou bastante feliz de ter ali dois jogadores profissionais naquele dia. Aproveito para agradecer a participação deles. O David e Ware também ficaram muito agradecidos, porque para eles foi um impacto bem legal, eles não tinham tido essa experiência.
Pablo e Aldo, tem mais alguma informação que gostariam de acrescentar?
Nesse momento só temos que agradecer aos patrocinadores e parceiros aqui elencados, a população que de forma muito carinhosa tem nos recebido, a mídia em geral, que de forma espontânea nos auxilia na divulgação, e aos pais e parentes dos atletas que confiaram a nós essa valorosa missão. Gratidão.


Fotos: Marcos Limonti