O jovem francano Walker Isaac de Sousa, de 25 anos, tem sido um grande incentivador da inclusão e acessibilidade para as pessoas com deficiência no país, especialmente a auditiva.
Ele é bombeiro e presta trabalhos voluntários e foi durante essas “missões” que protagonizou histórias marcantes envolvendo pessoas surdas. A primeira delas foi o start para ele procurar cursos e aprender Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). Ele participava de uma festa no Restaurante Bom Prato de Franca quando percebeu que três jovens estavam em um canto do salão, isolados. Ao chamá-los para se juntarem aos demais convidados, percebeu que eram surdos e sentiu naquele momento a necessidade de aprender a se comunicar com esse público, pois poderia se deparar com situação aparecida durante alguma ocorrência no Corpo de Bombeiros.
Walker fez o curso de Libras e aprimorou os conhecimentos através da internet. E, claro, já aplicou o que aprendeu. Uma das experiências mais marcantes foi quando ele intermediou a comunicação entre uma grávida, durante o parto, e a equipe de saúde que a atendia.
Durante outra ocorrência, a conversa em Libras com um homem surdo que foi vítima de um acidente, na cidade de Leme, teve desdobramentos ainda maiores. O socorro “especial”, registrado em vídeo, inspirou a criação do programa Prática Voluntária e Prêmio Acessibilidade. A primeira edição da premiação ocorreu em Brasília, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, em 3 de dezembro, e Walker recebeu o prêmio da primeira-dama do país, Michelle Bolsonaro.
Nesta entrevista ao Verdade, Walker compartilha um pouco das suas histórias em defesa da acessibilidade e inclusão de pessoas deficientes.
Como nasceu a sua relação com o voluntariado? Que ações você já fez como voluntário?
Meu primeiro trabalho voluntário foi no MC Donald’s, no MC Dia Feliz, sou ex-funcionário de lá, amei participar do evento por dois anos como funcionário, em 2013 e 2014. Em 2017, perdi um grande amigo em um acidente de trânsito. Eu e mais dois amigos, Madson Xavier e Higor Ricordi, fizemos um torneio de futsal em homenagem a ele e o dinheiro arrecadado no evento foi para sua família. Foi incrível, marcou minha vida e meses depois criamos o Grupo Que Bonita a Sua Roupa.
O Grupo Que Bonita a Sua Roupa fez história na cidade e levou alegria a muitas pessoas. Como você define os momentos que viveram com esse projeto?
Momentos incríveis, são minha família, tudo de bom que aconteceu em minha vida, devo a eles.
Tem alguma história que mais te marcou com essas experiências?
Várias histórias (risos), mas em especial, uma apresentação teatral na ESAC no Natal de 2019 e a visita ao Hospital do Câncer de Barretos em setembro de 2021.
Na semana retrasada, você protagonizou momentos com repercussão nacional, ao receber o 1º Prêmio de Acessibilidade das mãos da primeira-dama do Brasil, Michelle Bolsonaro, além de ter incentivado a criação do mesmo. Como você se sentiu com essa oportunidade?
Foi uma sensação incrível, nem no meu maior sonho imaginei tudo isso, ela e toda sua família são maravilhosos, super educados, receptivos, transmitem uma energia muito boa, fico feliz em fazer parte da história desses quatro anos de governo. A presidência da República, através da dona Michelle Bolsonaro, criou o programa Pátria Voluntária. Ele foi criado inspirado naquele vídeo em que eu ajudo no socorro de um homem surdo na cidade de Leme, em 16 de junho de 2019. É o Prêmio Acessibilidade.
Podemos afirmar que nesta ocorrência, que foi registrada em vídeo, os seus conhecimentos em Libras salvaram a vida desse homem, não é?
Sim. Houve um acidente na rodovia Anhanguera, entre moto e caminhão, com vítima sem gravidade, porém ela era surda. Fizemos o atendimento, fiz tudo em Libras e a conduzimos para o hospital. O ponto crucial da ocorrência foi no hospital porque ninguém da equipe médica tinha noções de Libras e o medicamento que estava sendo preparado era justamente um ao qual ele era alérgico e que poderia piorar muito o quadro de saúde dele, levando até a paradas cardiorrespiratórias. Mas ele me explicou sobre a alergia, conversando em Libras comigo, e evitamos que ele tomasse essa medicação.
Você decidiu aprender Libras depois de encontrar um grupo de jovens que precisavam deste apoio para se comunicar. Conte um pouco sobre essa história.
Nosso grupo do Que Bonita a Sua estava animando o aniversário do Restaurante Bom Prato de Franca, eu (Seu Madruga) fui chamar três pessoas para aproveitar a sobremesa e passei vergonha (risos), porque elas eram surdas e eu não sabia nada para poder me comunicar com eles. Foi quando pensei: e se acontecer isso em ocorrência de emergência? Decidi estudar Libras.
Você é bombeiro e também teve um papel importante ao intermediar a comunicação entre uma mulher grávida, que era surda, e a equipe de saúde que a atendia. Que sensação você teve durante a ocorrência e depois que tudo terminou bem?
Foi muito emocionante, chorei junto com a Solange (mamãe) quando a bebê nasceu, sensação de dever cumprido, mas também de que temos um tabu a ser quebrado no Brasil quando o assunto é inclusão e acessibilidade.
Em Brasília, você também viveu forte emoção ao se encontrar com o astronauta Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações. Como foi esse momento para você?
Tive lembranças da minha infância, em 2006, na quarta série, fiz um trabalho sobre ele na escola, tirei nota máxima e desde então sempre o admirava.
Você definiu que o encontro com Marcos Pontes foi a realização de um sonho. Que outros sonhos você ainda quer realizar?
Meu sonho é que tenhamos a população capacitada com o básico de Libras, pelo menos em suas respectivas áreas profissionais e que tenhamos atendimento de emergência 190/193 para a comunidade surda.
Que mensagem você gostaria de deixar para quem tem vontade de realizar trabalhos voluntários?
Experimentem! É viciante, gratificante e muito divertido.