Fernando Lima
Em comemoração ao dia da padroeira de Franca, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, o Jornal Verdade traz uma entrevista com o Bispo Dom Paulo Roberto Beloto, que contou um pouco da sua rotina, o motivo de Nossa Senhora ser a padroeira da cidade, além dos rumos que a Diocese de Franca está tomando, em comemoração aos 50 anos de fundação.
Dom Paulo relatou ainda como foi a sua caminhada até o sacerdócio, além de outros assuntos que abordou durante a conversa com o Verdade.
Confira:
Jornal Verdade– Como o senhor decidiu pelo sacerdócio?
Dom Paulo- A história vocacional se mistura com a história da vida. Deus pode chamar diretamente uma pessoa, mas Ele prefere o caminho que passa pela mediação de fatos, pela realidade ou mediação de pessoas e instituições.
A minha família e a capela rural, depois a paróquia, quando estava na cidade, tiveram grande influência na minha resposta vocacional. Mas o discernimento mais importante amadureceu no período de formação, três anos de filosofia e quatro de teologia. Após o pedido pessoal, fui aprovado e ordenado diácono e presbítero no ano de 1986.
Sempre tive a ajuda de pessoas que foram me ajudando a dar uma resposta pessoal. A graça de Deus passa por aqueles que fazem parte de nossa vida. Quanta gente está ligada à minha história vocacional! Aproveito para agradecer a Deus por todos esses irmãos e irmãs que tanto me ajudaram e ajudam a viver a minha vocação.
J.V.- Como foi a sua caminhada religiosa?
D.P.– Sou o quarto filho de uma família católica. Até os 16 anos de idade, morei na zona rural. Aprendi a rezar em casa e na comunidade local, principalmente a recitação do Rosário. Na capela, dedicada à Nossa Senhora Aparecida, fiz a primeira comunhão, quando tinha 9 ou 10 anos. Fui crismado criança.
Quando mudamos para a cidade, participava na paróquia Nossa Senhora de Fátima. Era membro de um grupo de jovens e juntos, após a reunião, íamos à Missa. As sementes da vocação começaram a brotar nessa experiência paroquial. Em 1979, entrei no Seminário e iniciei o curso de Filosofia, em Aparecida. Tinha 21 anos.
Estudei Teologia na Faculdade Nossa Senhora da Assunção, Arquidiocese de São Paulo, no Bairro Ipiranga. O nosso Seminário ficava em Guarulhos. Durante quatro anos, de segunda a sexta, tomávamos dois ônibus até à Faculdade. Nos finais de semana fazíamos pastoral nas paróquias da diocese.
Já cursando a Teologia, completei os estudos pedagógicos em Filosofia, para receber a Licenciatura Plena no ano de 1985. Também no mesmo ano, enquanto concluía o quarto ano de Teologia, participei da primeira experiência de Mestrado em Teologia e Estudos Bíblicos, pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção.
A experiência religiosa no período de formação é mais forte, com horários de celebrações e orações programadas, retiros, direção espiritual. Fui ordenado presbítero em 1986, e até ser nomeado bispo, exerci várias funções em paróquias, seminários, assistência espiritual. As atividades pastorais de um padre e o próprio ministério sacerdotal, exigem vida de oração, leitura orante da Palavra de Deus, participação em retiros, formação.
Como bispo, temos também a nossa disciplina de horários em torno das atividades pastorais. A vida de oração, celebrações, leitura da Bíblia e espiritual sustentam a vocação.
J.V.- Como o senhor veio para Franca?
D.P.- Quando fui nomeado bispo da Diocese de Franca, pelo Papa Francisco, no dia 23 de outubro de 2013, já tinha uma experiência de episcopado em Formosa – GO. Nem sempre é fácil uma mudança. Em clima de oração, dei minha resposta de obediência à Igreja, na pessoa do Papa Francisco. A vinda para Franca não foi escolha, mas nomeação.
J.V.- Hoje aqui na cidade, como é a sua rotina?
D.P. Moro na Casa do Clero, uma residência localizada na mesma chácara onde fica o Seminário diocesano Nossa Senhora do Patrocínio e o Centro Diocesano de Pastoral.
Durante os dias de semana, levanto-me a partir das 5 ou 6 horas. Recito a Liturgia das Horas: Ofício das Leituras e Laudes.
Na segunda, terça e quarta-feira, celebro a Eucaristia de manhãzinha. Após o café, dou expediente na Cúria: atendo padres, leigos, funcionários; assino documentos e encaminho assuntos relacionados à Diocese.Descanso um pouco, após o almoço.
Na parte da tarde, costumo ficar no meu escritório, em casa, lendo, escrevendo artigos, preparando homilias. Atendo pessoas, quando solicitam. Faço visitas algumas vezes.
Também à tardezinha, faço minha caminhada e alguns exercícios corporais. Sempre recito o Rosário, enquanto caminho (os respectivos mistérios do dia, como orienta a Igreja).
Tomo um lanche após a recitação das Vésperas, às 18h30.
À noite, assisto o jornal na TV. Leio. Vejo os e-mails e mensagens no WhatsApp.
No calendário diocesano há muitas celebrações à noite: Confirmações, novenas ou festas dos padroeiros, também algumas reuniões. As reuniões dos conselhos diocesanos, fazemos durante o dia, a cada dois meses. Durmo cedo, a partir das 21 horas ou mais tarde, quando tenho compromissos fora.
Aos sábados e domingos tenho compromissos pastorais na diocese: celebrações, reuniões, encontros, visitas. Celebro a Eucaristia nas Irmãs Jesus Maria Jose, aos sábados à tarde, no Carmelo, domingo de manhã e na catedral, às 10h30.
Além das atividades na diocese, os bispos têm outros compromissos: assembleia da CNBB, reuniões e encontros no Regional, na Província, pregação de retiros. Nos momentos vagos, gosto de assistir esportes na TV, ouço boas músicas e cuido do jardim da residência.
J.V.- No dia 8 é comemorado o dia da Padroeira de Franca, Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Por que ela foi escolhida como Padroeira de Franca?
D.P.- Há uma distinção: ser padroeiro da catedral, da cidade sede e da Diocese. Não precisa necessariamente ser o mesmo santo ou santa. Aqui as histórias se unem e se completam: a mesma padroeira, Imaculada Conceição de Nossa Senhora, é da catedral, da cidade de Franca e da Diocese.
Antes da criação e instalação canônica da Diocese, Maria com o título Imaculada Conceição, já era padroeira da Igreja construída na época, assim como da Freguesia, desde o ano de 1805. Este foi o desejo das pessoas da época, acolhido na criação do município e depois diocese. Lembramos que a Igreja atual – mesmo sem os devidos acabamentos, foi inaugurada em 8 de dezembro de 1913. Com a criação da diocese, em 1971, recebeu o título de Catedral.
A festa solene celebrada no dia 8 de dezembro, não é decisão nossa, mas faz parte do calendário litúrgico da Igreja católica. A dedicação a nossa Senhora Imaculada Conceição é significativa, pois temos a intercessão daquela que nos indica o caminho da santidade. Como ao discípulo amado João, aos pés da cruz (Jo 19,26-27), Jesus também nos entregou Maria, com o título de Imaculada Conceição. Jesus chama a sua mãe de “mulher” para dar-nos a todos nós o direito de chamá-la de “mãe”.
J.V.– Também será comemorado o 50° aniversário da Diocese de Franca, qual a importância desta data?
D.P.- O Jubileu é um ano de graça, momento propício para a manifestação de nossa gratidão, alegria e esperança.
A gratidão pelas maravilhas que o Senhor nos concede. Aprendemos com a nossa padroeira a proclamar a sua benevolência, porque o Poderoso realiza grandes coisas em nosso favor (Lc 1,49). A alegria pela certeza de que ninguém nos pode tirar Jesus Cristo. A esperança, pois Ele, na sua imensa misericórdia, nos precede no caminho e ilumina a nossa história.
Estamos colhendo os frutos do trabalho dos “operários da primeira hora”. Deus seja louvado, por tanta gente, ministros ordenados, consagrados e leigos, que lançaram as sementes do Evangelho nessas terras, nos primeiros povoados, dando sua valiosa contribuição na evangelização. Agora somos nós a continuar o caminho.
J.V.– Como surgiu a Diocese de Franca e como ela chega nos dias de hoje? (Quantos párocos, quantas paróquias)
D.P.– A Diocese de Franca foi desmembrada do território da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Em 1930 foi feita a primeira tentativa de criação da diocese, e em 1942 a segunda. A terceira tentativa, que culminou na sua criação, teve início em 1967. Por instrução do Núncio Apostólico, dom Sebastião Baggio, foram iniciados os preparativos remotos, com a criação de novas paróquias, principalmente na cidade de Franca.
Em 1968, o Conselho Presbiteral da Arquidiocese de Ribeirão Preto deu o parecer favorável à criação da nova diocese, e encaminhou o pedido formal à Comissão Episcopal do Regional Sul I, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. No dia 8 de dezembro deste mesmo ano, por um decreto, que foi executado aos 2 de fevereiro do ano seguinte, foi criada a Vigararia Episcopal de Franca. Na mesma ocasião foram nomeados: dom Bernardo José Bueno Leite Miele, Arcebispo-coadjutor de Ribeirão Preto, como Primeiro Vigário Episcopal e dom José Álvares Mácua, Prelado Emérito de Lábrea, como Segundo Vigário Episcopal. No dia 25 de fevereiro foi instalada a Sub-Cúria de Franca. Após reunião com representantes de todas as Paróquias da Vigararia Episcopal, foi constituída a Comissão Central para a organização do patrimônio, que teve à frente, como presidente executivo, o Dr. Hélio Palermo, Prefeito da cidade de Franca, na época.
No dia 17 de julho de 1969 foi adquirida a residência episcopal situada à Rua Campos Sales, 1416. Depois de receber do Núncio Apostólico, dom Humberto Mozzoni, instruções mais precisas para a organização da Diocese, dom Felício e dom Miele levaram à Santa Sé o pedido oficial com data de 29 de março de 1970. A criação da Diocese aconteceu no ano seguinte, no dia 20 de fevereiro, pela Bula papal Quo Aptius.
O primeiro Bispo foi dom Diógenes Silva Matthes, nomeado no dia 18 de março de 1971. Sua ordenação episcopal foi realizada no dia 11 de junho na Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto. No dia 12 de junho, em cerimônia presidida por dom Bernardo José Bueno Miele, tomou posse da Diocese de Franca.
No dia 24 de abril de 2002, foi nomeado bispo coadjutor de Franca, dom Caetano Ferrari, ofm, e bispo diocesano em 29 de novembro de 2006. Permaneceu na diocese até a sua nomeação como bispo de Bauru, em 15 de abril de 2009.
Dom Pedro Luíz Stringhini foi nomeado bispo de Franca no dia 30 de dezembro de 2009. Tomou posse no dia 21 de fevereiro de 2010. Permaneceu na diocese até sua nomeação como bispo de Mogi das Cruzes, em 19 de setembro de 2012.
O 4º e atual bispo de Franca é dom Paulo Roberto Beloto, transferido da diocese de Formosa-GO. Tomou posse no dia 15 de dezembro de 2013.
A Diocese de Franca é composta por 19 municípios. Possui cinco Foranias (Regiões pastorais), 43 paróquias, uma Área Pastoral, 150 capelas, comunidades ou locais de culto, inúmeras pastorais, movimentos, associações e comunidades de vida. Sua população, segundo dados do IBGE de 2020, é de 651.253 habitantes. Um pouco mais de 400.000 fiéis se declaram católicos. As estatísticas apontam de 15% a 20% que frequentam regularmente a Igreja. São 83 sacerdotes, entre diocesanos e religiosos, 32 diáconos permanentes, 20 seminaristas e 60 religiosas.
J.V.- Como está o cronograma de criação de novas paróquias?
D.P.– Mesmo diante das necessidades, a criação e instalação canônica de uma paróquia requer tempo, prudência, análise das condições de sua futura manutenção, investimento em infraestrutura e formação de lideranças. Normalmente, criamos uma Área Pastoral, nomeamos um Administrador Sacerdote que dá uma assistência pastoral a mesma, preparando e organizando os elementos citados, até criar condições para funcionar como paróquia. Temos uma Área Pastoral, dedicada à Nossa Senhora da Rosa Mística, aqui em Franca, no Residencial Meireles. O pedido de criação de uma futura paróquia foi aprovado pelo Colégio de Consultores. Sua instalação canônica será no dia 2 de fevereiro de 2022.
J.V.- A partir do ano que vem Franca terá o seu primeiro Santuário, de Santo Antônio. Qual a relevância para a cidade?
D.P.- A paróquia Santo Antônio já tem uma história eclesial significativa por sua localização, atendimento pastoral e presença de fiéis. Como Santuário, tudo pode ser intensificado, os horários de celebrações, atendimento aos fiéis, dinamização da festa do padroeiro e outras atividades próprias de um Santuário, para acolher bem e oferecer um serviço religioso aos peregrinos.
J.V.- Qual mensagem deixa para os fiéis que nos acompanham?
D.P.– Deus permitiu que cada um de nós vivêssemos neste período da história humana, em nosso país, nosso estado, cidade, diocese, paróquia, família… A humanidade nunca alcançou tanto progresso como nas últimas décadas. Mas também nunca enfrentou tantos desafios. Para onde caminhamos? Que sentido tem esta vida? Por mais que avançamos na tecnologia, nas ciências, as crises persistem e até aumentam, as frustrações não são superadas, provocando sentimentos de insatisfação, vazio e orfandade. Que rumo seguir? Onde encontrar referências? Não se minimiza a inteligência humana. Ela é um valor imprescindível. Mas quando a criatura dirige as coisas sem o Criador, perde-se no caminho, pois perde o amor. É preciso a harmonia entre a capacidade humana e a vontade de Deus.
É a mensagem que deixo a todos: buscar na vontade de Deus a nossa realização. Só seremos felizes se vivermos de acordo com os desígnios do Pai e em sintonia com Ele. A sua vontade é a nossa santificação (1 Ts 4,3), é “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10). Ele é o sentido da existência humana na medida em que veio para salvar e redimir. A vontade de Deus é a nossa vida. É viver bem cada oportunidade que recebemos como dádiva. O sentido da vida é o amor de Deus derramado em nosso coração. Só nos realizamos no exercício do amor doado e recebido, pois o amor é a nossa vocação fundamental.
As pessoas precisam hoje estar preparadas a procurar o diálogo, o respeito, a tolerância, a acolher as diferenças, a conviver e integrar-se em comunidade. É preciso austeridade, pois não há saída para a história humana sem conversão, sem disciplina e educação para o uso regulado das coisas, para um relacionamento justo e fraterno.
É preciso seguir Jesus Cristo, caminho e verdade, nosso Mestre no amor, especialista em qualidade de vida. É preciso seguir Aquele que plantou no coração da humanidade as sementes da tolerância, do perdão, da serenidade, da fraternidade, da justiça e da paz. “Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações, pois sabeis que a prova da fé produz em vós a paciência” (Tg 1,2-3).