A artesã Odete de Carvalho Lopes Mathias, de 62 anos, sentiu dores abdominais na segunda-feira, 30, e chegou a tomar buscopan para aliviar, mas não adiantou. A cólica piorou, ela começou então a ter vômitos e a ficar com o corpo gelado. Segundo a família, eles decidiram procurar atendimento no Pronto-Socorro Municipal “Álvaro Azzuz” (“Janjão”). Como ela estava muito debilitada, não houve tempo nem para esperar o Samu. Seu filho e a nora a levaram para o PS.
Odete deu entrada na unidade, de acordo com os familiares, por volta das 15h. Começava ali um martírio em busca de socorro, que não chegou a tempo. Ela morreu na manhã de terça-feira, 30, após esperar cerca de 14 horas por uma vaga na Santa Casa, onde precisava fazer exames mais detalhados – tomografia, também segundo o relato da nora, Luzimar Costa Mathias, que a acompanhou praticamente todo o tempo no Pronto-Socorro. “Passei a noite em claro com ela, foram momentos horríveis, vi a minha sogra agonizando na minha frente, ela morreu aos poucos, e sem socorro”.
O autônomo Washington Rogério Lopes Mathias, 37, filho único de Odete, e a nora disseram que ao chegar ao PS a enfermeira considerou que o caso não era prioridade. “Ela estava muito pálida e vomitando, qualquer pessoa que visse ela daquele jeito ia ver que não tinha condições de falar que não era prioridade. Nem cadeira de rodas tinha para ela, uma guarda municipal que nos ajudou a conseguir uma”, disse o filho.
Luzimar acompanhou a sogra nos atendimentos. Disse que ela estava fraca e vomitando muito, por isso, até que fossem atendidas, tentou conseguir uma maca para ela se deitar, mas o pedido foi em vão. Odete, que chegou a desmaiar de dor, pediu para ficar no banheiro para deficientes do Pronto-Socorro porque podia usar as barras de segurança como apoio para as pernas.
“Não pude deixar ela deitar nem na hora de morrer. Assisto TV e todos os dias vejo pessoas que morrem por falta de atendimento, hoje eu que vivi isso, foi dentro da minha família. O caso dela era muito grave, se não tinha leito na Santa Casa, fosse atrás do particular. Isso não pode continuar! Se ela tivesse sido socorrida na hora que chegamos, quando estava com a cólica, vomitando e o corpo gelado, ela estaria aqui agora. O problema é que demorou a socorrer. Ela morreu da pior forma”.
Sem vaga
Segundo Luzimar, o leito na Santa Casa só foi liberado por volta das 6 horas, mesmo a sogra tendo piora durante a madrugada. “Ela ficava inconsciente, a barriga dela foi inchando muito, muito mesmo. Era umas 4 horas ela ficou muito ruim, precisaram colocar no oxigênio. Eu pedi ajuda para quatro médicos lá dentro, gritei por socorro porque vi que ela estava morrendo”, contou.
Pela manhã de terça-feira, Odete foi transferida para a Santa Casa, onde realizaria a tomografia, mas faleceu por volta das 8h20 sem fazer o exame. “Creio que ela teve uma infecção que estava no começo e evoluiu rápido. O médico suspeitou de trombose intestinal, mas precisava da tomografia para confirmar, só que quando ela conseguiu leito na Santa Casa, chegou extremamente grave, foi até entubada”.
Odete havia descoberto há cerca de três meses que era portadora de lúpus, uma doença inflamatória autoimune, que pode afetar múltiplos órgãos e tecidos. A causa da morte não foi determinada; a família aguarda laudo do Serviço de Verificação de Óbito para obter essa informação. “Eu sinto uma mistura de raiva, indignação e tristeza. A gente trabalha a vida inteira para pagar impostos e vê gasto absurdo para encher a cidade de luzinha, gastos altos em eventos e um caos no Pronto-Socorro e Santa Casa. A saúde tem que ser prioridade, se for preciso, tem até que deixar de tapar buraco, para ver a questão da saúde”, desabafou o filho dela.
Processo
A família deve processar o município pela demora no atendimento. Odete morreu 17 horas após dar entrada no Pronto-Socorro Municipal e esperou, também segundo a família, 14 horas por uma vaga na Santa Casa. “Tem que ser investigado, está errado. Pensamos em acionar a advogada e procurar a Justiça, vou contar tudo que aconteceu desde a hora que entramos no Janjão, vou falar só a verdade, sem mentir. Quantos casos assim não estão acontecendo e a gente não sabe? Mas o da dona Odete não vai ficar assim”.
Odete Lopes Mathias era bastante conhecida, atuava como monitora nos curso de artesanato na área de Ação Social no Colégio Champagnat, mas estava desligada das aulas por conta da pandemia do coronavírus. Ela será velada nesta quarta-feira, 1º, a partir das 10 horas, na sala 4 do São Vicente. O local do enterro ainda não foi definido.
Investigação
Questionada sobre o caso da paciente, a Prefeitura informou que abriu processo administrativo para apurar o atendimento na Corregedoria Municipal e no Conselho de Ética da Secretária de Saúde.
Confira a nota da Prefeitura na íntegra:
A Secretaria de Saúde informa que a paciente Odete Batista de Carvalho deu entrada no Pronto-Socorro “Dr. Álvaro Azzuz”, no dia 29, às 15h38 e às 15h45 passou por acolhimento. Na unidade, recebeu atendimento médico e realizou exames complementares, sendo encaminhada através do Sistema Cross à Santa Casa de Franca.
Comunica que a paciente foi colocada no toilette da unidade pela própria acompanhante, que não solicitou auxílio à equipe do Pronto-Socorro.
Reiteramos que, em momento algum, a paciente foi colocada no toilette, por qualquer integrante da equipe técnica do Pronto-Socorro.
Informa também que foi instaurado um processo administrativo para apuração detalhada do caso, tanto na Corregedoria Municipal, quanto no Conselho de Ética da Secretaria de Saúde.
Assessoria de Comunicação