Um rápido bate-papo com os atores e produtores Anabrisa Tamaso, a Ana, e Ederson Souza, o Edinho, já é capaz de revelar que são dois apaixonados pelo universo do teatro e donos de grande potencial para atuarem na área. O encantamento pelos palcos e seus personagens os acompanha desde a infância. A vivência com contações de histórias e intervenções artísticas começou na companhia de uma mala, onde guardavam os figurinos das apresentações. Os trajes e apetrechos encorparam, expandiram e ganharam cenários mais pomposos; assim como os projetos, que cresceram e terão mais uma experiência que promete transportar o talento e profissionalismo da Vovó Cachola para outros públicos e outro meio: o online.
A partir do dia 20 de outubro, a companhia teatral francana Vovó Cachola irá proporcionar uma intensa imersão no mundo virtual com um valioso conteúdo sobre brincadeiras cantadas, contação de histórias e teatro.
Sob o comando de Ana e Edinho, a companhia realizará o projeto “O Tempo Mágico das Histórias”, com oficinas para educadores divididas em cinco encontros e o espetáculo TiC TAC Era uma Vez. Todas as apresentações serão online e gratuitas.
As informações sobre as datas, horários e conteúdo das oficinas e do espetáculo TiC TAC podem ser consultados pelo site www.vovocachola.art.br e nas redes sociais da companhia. Mas nesta entrevista ao Jornal Verdade, é possível conhecer a interessante – e importante – proposta dos atores Ana e Edinho, além da paixão e conhecimento para falarem da cultura brasileira.
Gostaria que vocês falassem um pouco da chegada de vocês ao universo do teatro. Como se tornaram atores, produtores e qual a formação de vocês?
Edinho Souza – Eu sempre gostei muito de teatro, assistia a muitas peças no Sesi e sempre me encantava. Então, um dia eu pensei ‘Quero estar no palco junto com o pessoal para viajar por aí!’. Foi quando encontrei o curso do Senac, que era profissionalizante.
Ana – Desde pequena eu inventava peças teatrais sozinha em casa. Então, minha mãe me colocou no Sesc Curumim em São Paulo, um programa que tinha várias atividades para crianças, incluindo o teatro. Depois disso, eu nunca mais parei. Participei de diversos cursos livres onde morei, no Sesc Pompéia, no Indac e na Cia Antropofágica em São Paulo, um grupo independente da faculdade de jornalismo que cursei em Brasília e, por último, em Franca, onde encontrei o grupo Ato, o Edinho e a Vovó Cachola. Como produtores, já fizemos vários cursos e estamos sempre buscando nos aprimorar, mas nossa formação é no dia a dia da Vovó Cachola. Além de produzir e apresentar nossos espetáculos e contação de histórias, desde a pesquisa, a confecção do texto, a criação dos personagens, do cenário e do figurino, nós escrevemos e realizamos projetos e buscamos patrocínio, entre diversas outras atividades.
Antes de criar a Cia Vovó Cachola, vocês tiveram quais experiências na área?
Edinho – Participei do grupo Ato Teatro e Educação, um grupo que já fazia parte da história da cidade há 18 anos. Fizemos vários espetáculos e apresentações em que fui ganhando experiência, até chegar na companhia Vovó Cachola.
Ana – Minha experiência na área foi por meio das montagens das peças e performances de rua realizadas como processo de formação nos cursos livres de teatro. Depois, com o grupo Ato, atuei também em diversas apresentações, eventos e festivais da cidade de Franca.
Como surge a ideia de ter uma companhia de teatro? E com que objetivo vocês criaram a Vovó Cachola?
Ana – Inicialmente, em 2013, a Cia Vovó Cachola foi criada a partir de um grupo de cinco atores que faziam parte do grupo Ato, com o objetivo de facilitar o acesso ao teatro por meio da contação de histórias teatralizadas. A ideia era levar esse formato de apresentações principalmente para escolas e eventos da cidade. Com o passar do tempo, percebemos que, para a companhia se tornar o nosso trabalho principal, precisávamos nos dedicar integralmente, mas essa dedicação só foi possível para nós, que hoje estamos à frente da produção. Por isso, hoje, nós somos os produtores e atores da companhia, embora, sempre que possível, trabalhamos em conjunto com uma equipe técnica de diversos profissionais, diretores teatrais, operadores de luz e som, figurinistas, cenógrafos, são muitos os profissionais dessa área e a companhia sempre procura valorizar a economia da cultura local através dos projetos que realiza.
Vocês comentam que o nome da companhia é uma homenagem às vovós contadoras de história e cheias de ideias na cabeça, na cachola mesmo. Conte-nos um pouco mais sobre essa ideia.
Ana – Sim. A princípio, esse nome surgiu em uma brincadeira, por conta da diretora da companhia, que além de atriz e contadora de histórias, era também uma avó muito inventiva. Além disso, a nossa ligação com as histórias, que nos possibilitam ir a todos os lugares que já estivemos, também começou com os nossos avós. Hoje, a Vovó Cachola, além de ser o nome da companhia, também é uma homenagem a essa figura que sempre esteve presente no imaginário de todos e que é a guardiã dessas histórias que são passadas de geração em geração. Por isso, nós nos chamamos e, também, a todos que gostam de espalhar histórias por aí, de cacholetas!
Vocês costumam dizer que uma das propostas da Vovó Cachola é ressignificar o folclore brasileiro. Que iniciativas já tiveram com esse propósito e qual o objetivo?
Ana – Todos nós, quando entramos em contato com a cultura popular brasileira, temos essa impressão de que é preciso resgatar o que chamamos de folclore. Acontece uma sensação de encantamento, pela beleza e riqueza que existe na nossa cultura, e sentimos essa urgência dentro do peito. É como se a gente encontrasse algo que sempre estivemos procurando. Hoje, sabemos que esse sentimento vem da identidade cultural, que nos possibilita a sensação de pertencimento, de saber de onde viemos. Com o tempo, percebemos que a cultura é viva e que esse conhecimento precisa ser vivenciado. Infelizmente, a palavra folclore faz com que toda essa cultura, que também se modifica com o tempo e de acordo com cada região do país, seja considerada algo ultrapassado. E, para nós, a cultura popular é como uma semente nativa, se ela ficar guardada por muito tempo, vai mofar, por isso só é possível mantê-la viva se estivermos sempre plantando. É isso que procuramos fazer por meio dos projetos que realizamos. Desde 2015, nós atuamos com as leis de incentivo à cultura da Prefeitura, do Estado de São Paulo e também do Governo Federal, a fim de ampliar o acesso à população e, principalmente ao público infantil, a esse conhecimento tão importante para o reconhecimento de quem nós somos.
Neste mês de outubro, a Vovó Cachola dará início a mais um projeto de apresentações online, via Youtube. É possível estimar quantas pessoas serão contempladas com o projeto ‘O Tempo Mágico das Histórias’?
Ana – Sim! Esse é mais um projeto que estamos realizando este ano, que conta com o apoio da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo e empresas parceiras que valorizam e apoiam a cultura aqui da região. É difícil estimar o público online, mas para garantir que o público seja contemplado com as atividades oferecidas de forma gratuita pelo projeto, nós estamos realizando parcerias com as secretarias de cultura, educação, ação social, escolas e instituições das cidades de Piracicaba, São Carlos, Araraquara, São José do Rio Preto e Franca. Sendo assim, nós acreditamos que podemos alcançar um público aproximado de 3,7 mil pessoas diretamente.
O que o público pode esperar do conteúdo que será compartilhado nas oficinas previstas neste projeto e qual a importância desse tipo de trabalho?
Ana – Em 2015, nós fomos em todas as creches de Franca com a primeira montagem desse espetáculo. No final, fazíamos algumas brincadeiras de roda com as crianças com o objetivo de pesquisar como essas brincadeiras eram trabalhadas nas escolas. E nos deparamos com uma realidade que foi assustadora e, ao mesmo tempo, nos motivou ainda mais a continuar com esse trabalho. Mais da metade das creches não trabalhavam com as crianças as brincadeiras tradicionais da infância, em algumas, as crianças sequer sabiam formar uma roda. Por este motivo, neste projeto, nós incluímos essa oficina, de brincadeiras cantadas e ritmadas, voltada principalmente para os educadores. Nesta oficina, que será realizada em cinco encontros, pela artista, educadora, brincante e pesquisadora das artes e cultura da infância, Poliana Savegnago, os participantes poderão vivenciar as diferentes estações da música tradicional da infância, com canções de ninar, brincos, rodas de verso, histórias cantadas e ainda brincadeiras de mão, fórmulas de escolha, adivinhas, trava-línguas, entre outros elementos deste infinito território. É um convite para todos brincarem juntos! Ao todo, serão dez horas de conteúdo e, no final, os participantes que se inscreverem, irão receber um certificado e um material de apoio. A oficina será transmitida ao vivo no nosso canal do YouTube e os participantes poderão interagir pelo chat.
E com o espetáculo TiC TAC, que é baseado em histórias tradicionais, o que vocês prometem levar ao público?
Ana – Já o espetáculo procura levar o público para uma viagem através do tempo mágico das histórias da encantaria popular brasileira. A gente entra no tempo da imaginação, onde as histórias acontecem. É muito interessante perceber como o nosso tempo do relógio passa de forma diferente quando estamos envolvidos com as histórias. Além disso, através do audiovisual do espetáculo, que será transmitido ao vivo, será possível perceber também como essas histórias, que fazem parte da nossa cultura, criam um vínculo afetivo entre as pessoas e as crianças presentes no teatro em que a apresentação foi gravada, embora a maioria nunca tenha se visto antes. Essa experiência é outra consequência da identidade cultural que também é trabalhada a partir das histórias que fazem parte do imaginário do povo brasileiro. Apesar de a apresentação não ser ao vivo, o audiovisual do espetáculo irá reproduzir a experiência de estar em um teatro, o que é bastante interessante de se observar em um momento de pandemia. No entanto, o diferencial dessa temporada é que nós iremos interagir ao vivo com o público e com as crianças antes e após a exibição do espetáculo.
Quais as expectativas de vocês com o projeto?
Ana – Primeiro, a democratização do acesso à cultura. Embora muitas pessoas ainda não possuam acesso à internet, será possível alcançar mais pessoas oferecendo um conteúdo de qualidade no meio online. O audiovisual do espetáculo será traduzido para a Língua Brasileira de Sinais – Libras, tornando este conteúdo acessível para pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Por ser um audiovisual, inserimos ainda a tradução em inglês, para estimular que outras pessoas ou estudantes dessa língua se interessem por estas histórias. Essa será a nossa primeira experiência neste formato. Com a oficina também em formato online, esperamos que um número maior de pessoas tenha acesso a esse conteúdo, que vai ficar disponível no nosso canal do YouTube. No geral, além de fazer aquilo que a gente gosta e acredita, nossa expectativa é contribuir para a promoção da nossa cultura, compartilhando com o público a nossa própria experiência sobre como é importante e possível fazer com que essa cultura, que é gerada e produzida por nós mesmos, brasileiros, faça parte das nossas vidas e do nosso dia a dia.
Vocês já tiveram experiência com apresentações de espetáculos online. Como foram?
Ana – Foi um desafio. Mas, nos surpreendeu. No início nós não víamos sentido em fazer teatro online. A companhia iniciou atuando principalmente em escolas, que é onde nos sentimos em casa. Então, nossos espetáculos costumam ser muito interativos. O que nos move é essa troca com o público. Por isso, mesmo transmitindo um audiovisual produzido a partir da gravação de uma apresentação, nós fizemos questão de entrar ao vivo e, com isso, conseguimos garantir a interação com o público. Essa experiência foi muito gratificante, pois mesmo online, conseguimos manter o contato com o público. Através da interação das crianças e dos pais pelo chat, nós podíamos conversar com eles ao vivo e, depois das apresentações, recebemos fotos, vídeos e depoimentos emocionantes falando da alegria das crianças ao ouvirem a gente falar com elas e também das brincadeiras que inventaram a partir das sugestões que fizemos depois da exibição do espetáculo.
As apresentações do projeto ‘O Tempo Mágico das Histórias’ serão online por conta das restrições com a pandemia da Covid-19. Gostaríamos que vocês comentassem o que mudou na rotina de trabalho de vocês com a pandemia.
Ana – Mudou tudo. Pela primeira vez, ficamos sem nenhuma possibilidade de trabalho. Nem passar o chapéu na rua era possível naquele momento para a gente sobreviver. As apresentações que tínhamos marcadas foram todas canceladas e todos os projetos foram paralisados. Ficou tudo suspenso por tempo indeterminado, tivemos que parar com os ensaios, tudo. Todo mundo foi para o online, mas isso ainda era muito novo para a gente naquele momento. Mas, aos poucos, começamos a nos adaptar e, agora, já temos planos para criar mais conteúdo no formato online.
Como vocês se organizaram para enfrentar esse momento?
Ana – Acreditamos que a primeira coisa que todos os artistas do mundo fizeram foi se questionar sobre a função da arte durante uma pandemia. E, mais do que nunca, tivemos a certeza da importância da existência desse aspecto na vida das pessoas, principalmente em um momento em que é tão fundamental trabalhar as nossas emoções, a alegria, o medo, a tristeza, o questionamento do mundo e da realidade. Então, a primeira coisa foi encontrar o nosso papel e se estruturar para atuarmos nesse sentido, mesmo estando abalados como todo mundo, essa é a nossa principal missão, a de falar com e para a alma, através da sua linguagem, a arte. Mas, como o nosso desafio é concretizar os sonhos em realidade, precisávamos de recursos para tornar tudo isso possível e também para sobreviver.
Edinho – Então, nos unimos à mobilização nacional pela cultura que batalhou para a criação da Lei Aldir Blanc, a lei emergencial da cultura, que tornou possível o recebimento de recursos para a realização de projetos e manutenção de espaços culturais na maioria dos municípios do Brasil. Somos muito atuantes na cena cultural da cidade e, por meio do Conselho Municipal de Cultura, conseguimos que esses recursos também viessem para Franca. E, foi dessa forma que conseguimos realizar alguns projetos, todos adaptados para o online, o que demonstra a importância das leis de incentivo à cultura, para quem não tem acesso, principalmente em um momento difícil como esse. Mas, ainda assim, não é só esse o desafio, ficamos muito abatidos, porque ficamos sem acesso a nossa maior motivação, o público.