Nelise Luques
A pandemia da Covid-19 atingiu Franca em meados de março de 2020 e, como em outros lugares, veio acompanhada de muitas situações complicadas de se enfrentar. A doença em si, a morte de familiares, as sequelas deixadas pelo coronavírus, o confinamento obrigatório para evitar a contaminação e outras mudanças de hábito. Os reflexos na saúde psíquica da população são quase que inevitáveis.
Estudos que analisaram o comportamento das pessoas frente aos impactos gerados por um vírus extremamente agressivo apontam aumento expressivo dos casos de ansiedade, transtornos psicóticos, obsessivos e também de suicídio.
Em Franca, o psiquiatra Henrique Cassis Ribeiro Santos, diretor clínico e médico assistente do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec atesta o crescimento de casos na cidade. O especialista, que atua na área de Saúde Mental há oito anos, alerta para se atentar aos mínimos sinais dos transtornos e procurar atendimento médico imediato.
Henrique Cassis Santos – Sim, houve. Os transtornos psiquiátricos aumentaram por vários motivos. Primeiro, diretamente pela ação do vírus no sistema nervoso central, também pela má adesão ao tratamento ambulatorial devido ao medo de sair de casa e contrair o vírus. Por último, pela ação estressora da pandemia, como notícias e morte de pessoas conhecidas, precipitando assim transtornos psiquiátricos. Temos observado recrudescimentos dos quadros, novos quadros, não só ansiosos, mas psicóticos, maníacos, depressivos, obsessivos e ligados ao estresse.
Henrique Cassis Santos – Sim. Não sei ao certo, mas há uma percepção de aumento.
Henrique Cassis Santos – Transtorno de adaptação, transtornos depressivos e ansiosos.
Henrique Cassis Santos – Não há perfil, todos estão sujeitos. Há também as pessoas que hoje preenchem critérios para transtorno psiquiátrico, entretanto não têm o diagnóstico por não procurar a ajuda do psiquiatra.
Henrique Cassis Santos – Crianças estão susceptíveis, de modo mais frequente, aos quadros ansiosos e depressivos, mas também obsessivos, tiques. Há aquelas com transtorno de desenvolvimento intelectual, TDAH e autismo que não estão tendo o tratamento adequado pela dificuldade de acessar o serviço multidisciplinar. A maior parte das crianças acometidas se encontra a partir do período de alfabetização, onde o contato social está diminuído, foram privadas de suas amizades e convívio com familiares e já entendem, mesmo que de forma parcial, a gravidade da situação.
Henrique Cassis Santos – Não, o luto é uma reação à morte, que pode evoluir para transtornos psiquiátricos se for desadaptativo e persistente e se houver também presença maior de sintomas, entretanto é uma reação natural.
Henrique Cassis Santos – Uma situação importante e despercebida que indica transtorno psiquiátrico são queixas recorrentes somáticas. Há prevalência de metade das pessoas com queixas somáticas inespecíficas que procuram ajuda em pronto-socorro e estão com transtorno psiquiátrico. Mudanças comportamentais também são indicativas, que são pouco percebidas. A alteração do sono é outro indicativo importante. As mudanças de humor, estados de tensão, preocupações são facilmente percebidas pelas pessoas e, de modo geral, elas procuram atendimento por estes motivos. Devemos ficar muito atentos às alterações que são menos relacionadas diretamente com transtornos psiquiátricos.
Henrique Cassis Santos – Assim que houver tais alterações ou dúvidas.
Henrique Cassis Santos – O tratamento é específico para cada caso, entretanto, se verificada a presença de patologia, é necessário o uso de medicações. Tais medicações são seguras, na maioria dos casos serão usadas por tempo limitado e servem para devolver a funcionalidade e bem estar do paciente. Há desinformação em parte do público, que teme que tais medicações causem dependência ou impeçam a pessoa de ter uma vida normal. É o contrário, a medicação irá devolver a normalidade ao paciente. É necessária também a ajuda psicológica, que aborda os estressores desencadeantes e continuadores de tais transtornos.
Henrique Cassis Santos – Há uma percepção que sim. O suicídio é um desfecho grave, indesejado por todos. Gostaria de passar a informação que mesmo aquela tentativa feita por meios pouco letais são importantes, que comumente são caracterizadas como “chamar atenção”. Não deve ser feita tal rotulagem da situação, porque às vezes a pessoa não conhece meios mais letais. Qualquer tentativa ou menção de ideia de desejo de morte deve ser levada em conta como uma situação perigosa e deve-se buscar ajuda profissional.
Henrique Cassis Santos – Condições que levam a uma diminuição do risco de contágio é muito importante, como isolamento de pacientes infectados, uso de EPI´s (Equipamentos de Proteção Individual) apropriados para o atendimento dos pacientes e melhora nas instalações.