O médico da Vigilância Epidemiológica de Franca, Homero Rosa Júnior, fez um alerta sobre a ameaça que o Coronavírus ainda representa para a população. “Nunca houve um vírus desse jeito, tão forte, tão poderoso, tão incerto, com repercussões tão diferentes em cada indivíduo”.
Ele ressaltou ainda que após o lockdown adotado em Franca – de 27 de maio a 10 de junho -, como previsto, houve uma diminuição acentuada de casos e óbitos, o que fez com que boa parte das pessoas se desfizesse dos cuidados essenciais para evitar a contaminação, como o uso frequente de máscaras fora de casa, não aglomerar e não participar de festas. Homero afirma que esse comportamento é temeroso e pode causar outro estresse no sistema de saúde público e particular com a explosão de casos graves e óbitos novamente. “Cabe a nós, como comunidade francana, entendermos que nós precisamos ter um pouco mais de paciência por alguns meses, para que a população seja devidamente vacinada em quase toda a sua totalidade e para que a gente possa entender que o vírus está sob controle, por enquanto nós estamos ainda um pouco longe disso”. Confira a entrevista com ele, que é médico na Vigilância Epidemiológica há 16 anos.
A análise da epidemia desde início nos traz hoje uma visão da grande dificuldade que foi o controle da doença na nossa cidade, diante principalmente do cenário muito restrito para casos graves, de (oferta de) leitos de UTI Covid. Nós sempre tivemos uma enorme dificuldade, nos últimos meses isso ficou bastante evidente, como o Pronto-Socorro referência ter que virar unidade de internação de vários pacientes e isso nos trouxe essa perspectiva do tanto que é difícil controlar um vírus dessa categoria, dessa magnitude toda e desse alcance, é um vírus que pode alcançar toda população. Nunca houve um vírus desse jeito, tão forte, tão poderoso, tão incerto, com repercussões tão diferentes em cada indivíduo. E a gente sabe que o Comitê de Enfrentamento da Epidemia ajudou demais nesse controle, na organização, estratégias, nos direcionamentos, seja para o gestor público ou mesmo para as entidades hospitalares. E a gente entende que, apesar de tudo, de tantos obstáculos, dificuldades e às vezes até falta de apoio, nós conseguimos números epidemiológicos interessantes, expressivos, apesar de lamentarmos todas as mortes, porque gostaríamos que nenhuma tivesse acontecido. Mas ao mesmo tempo a gente entende que o trabalho foi bem feito.
Nós estávamos numa situação crítica, extremamente crítica, até dois meses atrás, quando foi necessário acontecer o bloqueio da circulação das pessoas, o lockdown, que é drástico, que atrapalha todo mundo, mas que foi necessário diante da situação caótica de controle da doença que acontecia aqui na nossa cidade. Então o efeito positivo a médio prazo do lockdown já era esperado, de diminuir bastante a circulação do vírus, com isso nós temos menos doentes e menos casos graves e também coincidiu com o maior avanço da vacinação contra Covid no nosso país. Isso ajudou bastante, só que ao mesmo tempo, nós tivemos claramente na nossa cidade um relaxamento muito grande de muitas pessoas que abandonaram a máscara e também abandonaram o conceito que não se deve aglomerar. Isso já fez aumentar de maneira muito preocupante a quantidade de casos positivos, nós dobramos a circulação do vírus em poucas semanas, isso vai ter reflexo imediato daqui a algumas semanas. A gente torce, espera que não aconteça, mas matematicamente uma epidemia corresponde dessa forma. Então, nós podemos ter uma situação bastante difícil daqui algumas semanas se continuar desse jeito, a população agindo.
A vacina é, num primeiro momento, necessária para quem cuida dos doentes, que são os profissionais de saúde, porque sem eles não tem cuidado e vão ter só mortes. E, em um segundo momento, para pessoas com maior vulnerabilidade a casos graves, então todo ser humano desse planeta era vulnerável realmente a ter a infecção, só que alguns grupos têm um risco muito mais aumentado do que outros, então por isso que não existe ser do grupo de risco ou não ser do grupo de risco. Todos somos. E a gente sabe que algumas pessoas com algumas doenças têm um risco aumentado, nós já tivemos óbitos por exemplo de vários jovens sem nenhum tipo de doença, comorbidades ou disfunção fisiológica. O vírus não escolhe cor, tamanho, peso, idade, ele ataca o organismo e faz o que quer. Conseguindo atingir as vias aéreas, a gente não sabe a repercussão, é uma super inflamação que acontece, que pode ser em qualquer órgão, não sabemos como aquele organismo vai responder à infecção pelo vírus e por isso que a gente fica tão incerto de como será o comportamento em cada um.
Essa opção de não ser vacinado não é inteligente, nós precisamos do coletivo, precisamos ter uma imunidade coletiva, que significa vacinar o mais rápido possível o maior número de pessoas, com vacina de qualquer marca, de qualquer quantidade de doses, de qualquer índice de eficácia para depois a gente entender, com o tempo, como a ciência mostra qual é a efetividade de cada vacina, de cada marca. Então, o momento é a população inteira vacinada e depois nós vamos ter tempo para administrar esses conceitos.
Está tudo muito novo, então nós não podemos fazer escolha (de vacina), essa escolha não é benéfica para o controle da epidemia. Se a gente começar a retardar essa vacinação coletiva nós vamos perder muitas vidas e nós vamos dar chance para as variantes atacar a população inteira e o desastre de vidas vai ser muito grande.
Temos que proteger todo mundo, não é porque a pessoa é jovem e estatisticamente ela não tem uma quantidade muito grande de casos ou de mortes que ela pode se achar imune ao vírus. Isso não existe, é um erro imaginar isso. Tanto é que hoje, neste momento, mais da metade das internações em UTI enfermaria são de pessoas jovens, abaixo de 40 anos, em Franca, mas é uma tendência nacional.
São muito variadas para cada pessoa, é imprevisível saber quais são essas sequelas, ela pode ser desde respiratória, que costuma ser a mais comum, mas pode ser cardíaca, neurológica, no fígado, no baço, no rim, enfim, o vírus pode atacar qualquer tecido do corpo. As respiratórias, perda de olfato e paladar são as mais comuns e duradouras, tem pessoas aí com quase um ano enfrentando esses sintomas. Mas observamos também o cansaço muito fácil, grande perda de massa muscular, fraqueza, dificuldade até para dar poucos passos, porque o vírus devasta alguns tecidos em algumas pessoas.