Reportagem Daniel Afonso
Profissão: Palhaço. Ele não é oportunista; é meramente um profissional do riso. Muito mais que brincadeiras, fazer palhaçada é uma arte. Felipe Françoso de Carvalho, 33 anos, mora em Franca e é um palhaço muito conhecido por quem trafega a avenida Major Nicácio. O francano interpreta o palhaço Teco Teco. Além disso, é mágico, malabarista e trabalha com arte circense há mais de 20 anos e três como artista de rua.
Dia desses, logo no começo do mês, Teco Teco viveu um momento triste com a sua arte. Ele estava realizando uma de suas performances no semáforo de costume quando foi abordado por duas viaturas e quatro policiais. Os oficiais informaram terem recebido uma denúncia anônima sobre uma apresentação realizada com facões. “Eles foram muito educados, disseram que estavam apenas averiguando e perguntaram se eu tinha autorização para realizar aquele trabalho. Então, eu expliquei que os facões usados no número eram cegos, não tinham corte e que eram próprios para entretenimento, mas eles me alertaram de que dependendo da denúncia, eu poderia ser chamado à delegacia por porte de arma branca”, revelou.
Diante disso, o Conselho Municipal de Política Cultural de Franca (CMPC) divulgou uma nota de esclarecimento com o seguinte título: “Artista de Rua não é mendigo, nem ladrão”. No texto, o conselho diz que é preciso uma educação cultural da população, e principalmente respeito e não à censura.
Felipe contou a nossa reportagem que aprendeu a utilizar os facões com outro artista de rua que passou por Franca e que por isso defende o direito de livre expressão artística. “Acredito que o denunciante não tenha tido uma boa educação artística para diferenciar um palhaço de um bandido. A pessoa que fez isso precisa ver e rever meus números muitas vezes ainda, pois é apenas arte”, destacou.
Apoio ao palhaço
Anabrisa Tamaso, representante do setor de artes cênicas do Conselho de Política Cultural de Franca, também defendeu o mesmo direito. “Ele é garantido pela Constituição Federal, por isso nenhuma lei municipal pode reprimir a atuação dos artistas de rua. Afinal, de que maneira um artista poderia prejudicar a cidade ao tocar música, realizar apresentações teatrais e circenses? É preciso uma educação cultural da população para compreender e valorizar a arte e a cultura. Podemos citar os inúmeros festivais organizados nos países considerados de primeiro mundo como Itália, Holanda, Espanha, França e Estados Unidos que apoiam e incentivam a apresentação artística nas ruas. E o conselho quer batalhar para que isso ocorra aqui na cidade também”, ressaltou.
A vice-coordenadora do conselho, Marília Martins, também deu seu apoio: “na maioria das vezes o que acontece é que a população menos favorecida da cidade não tem acesso aos teatros ou outros equipamentos culturais e o artista de rua é quem abre as portas para este universo, por isso ele é tão importante. É por causa da luta dele que é possível todos os dias a gente se deparar com as diversas formas de arte pelas ruas da cidade sem precisar gastar dinheiro ou sair muito do local que costumamos passar”.
Martins afirma que a arte está em todo lugar e precisa ser valorizada. “É só prestar um pouco de atenção e podemos ver grafites, stencils, apresentações de circo e teatro, artesanato, músicas, estátuas vivas, performances e manifestações folclóricas. Embora, esses artistas não sejam valorizados e muitas vezes o nome ‘artista de rua’ seja usado para diminuir o valor do trabalho, é o desejo deles em levar a arte para o cotidiano das pessoas que muitas vezes torna o nosso dia mais leve e bonito”, finalizou.
“Meu neto adora, ele fica hipnotizado toda vez que paramos no semáforo e temos a oportunidade de ver uma apresentação”, diz Cristina Limonta, professora de educação física.Já o ator Rafael Bougleux conta: “meu filho é fã do palhaço Teco Teco, ele fica ansioso para ver uma apresentação quando saímos de carro”. Por isso tudo, reforçamos: diga não à censura.