Após a confirmação de que o nódulo pulmonar retirado do Papa Leão XIV era um câncer de pulmão, o caso passou a levantar uma nova questão: por que, em algumas situações, não basta retirar apenas o nódulo?
Segundo informações divulgadas a partir do comunicado do Vaticano, o Papa foi submetido a uma cirurgia minimamente invasiva para retirada do lobo inferior do pulmão direito, procedimento conhecido como lobectomia. A operação foi concluída sem complicações.
Para o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, Professor Doutor de Cirurgia Torácica da FMUSP e Preceptor de Cirurgia Torácica Robótica, a evolução do caso ajuda a explicar uma diferença importante entre investigar um nódulo pulmonar e tratar um câncer de pulmão confirmado.
“Quando a biópsia confirma malignidade, retirar somente o nódulo pode não ser suficiente. Em câncer de pulmão, é preciso remover a lesão com margem adequada. Dependendo do tamanho, da localização e das características do tumor, isso pode significar uma cirurgia menor ou uma cirurgia maior”, afirma Mariani.
No caso do Papa, foi realizada uma lobectomia. O procedimento consiste na retirada de um lobo pulmonar, e não do pulmão inteiro. O pulmão direito tem três lobos: superior, médio e inferior. Quando o tumor está localizado em um desses lobos, a retirada dessa porção pode ser indicada para aumentar a chance de ressecção completa da doença.
“A cirurgia do Papa foi uma cirurgia maior, porque foi necessário retirar o lobo inteiro onde estava o tumor. Isso não significa retirar o pulmão inteiro. A lobectomia busca maior radicalidade oncológica, ou seja, uma retirada mais adequada da lesão, com intenção curativa quando o caso permite”, explica o especialista.
A extensão da cirurgia varia conforme critérios técnicos. Tumores muito pequenos e bem localizados podem, em alguns casos, permitir ressecções menores, como a segmentectomia. Já lesões maiores, com determinada localização ou maior risco oncológico, podem exigir a retirada de um lobo inteiro.
“Pelo que foi divulgado, é possível que se trate de um tumor inicial, mas talvez não na fase mais inicial de todas. Quando um tumor é muito pequeno, às vezes é possível fazer uma ressecção menor. A opção por uma lobectomia sugere que a equipe considerou essa a cirurgia mais segura do ponto de vista oncológico naquele contexto”, afirma Mariani.
A confirmação de câncer durante a cirurgia, no entanto, não encerra a avaliação. O material retirado segue para análise anatomopatológica definitiva, exame que detalha as características do tumor, avalia margens cirúrgicas e pode trazer informações importantes sobre comportamento da doença e possíveis marcadores moleculares.
“Durante a cirurgia, é possível confirmar que se trata de câncer. Mas a anatomopatologia definitiva é que vai dar o nome e o sobrenome do tumor, mostrar suas características e, em alguns casos, apontar alterações moleculares que podem influenciar o tratamento”, explica.
Outro ponto decisivo é a análise dos linfonodos retirados durante o procedimento. Eles ajudam a definir o estadiamento cirúrgico, ou seja, a fase da doença. Essa informação orienta os próximos passos e indica se a cirurgia foi suficiente ou se será necessário algum tratamento complementar.
“A depender do estadiamento, a cirurgia pode ser curativa e não ser necessário fazer mais nada. Em outros casos, para aumentar a chance de cura, pode ser indicado um tratamento adjuvante, que é um tratamento complementar. Hoje, isso pode envolver quimioterapia, imunoterapia ou terapias-alvo, conforme as características do tumor”, afirma o cirurgião.
Segundo Mariani, esse é um ponto essencial para a população entender: o diagnóstico de câncer de pulmão, por si só, não define todo o tratamento. Dois pacientes podem ter a mesma doença em termos gerais, mas precisar de condutas diferentes conforme tamanho do tumor, localização, comprometimento de linfonodos, margens cirúrgicas, condição clínica e perfil molecular.
A técnica utilizada também chama atenção. A cirurgia do Papa foi feita por vídeo, uma abordagem minimamente invasiva em que o cirurgião opera por pequenas incisões, com auxílio de câmera e instrumentos específicos. Essa técnica evita uma grande abertura no tórax e pode favorecer uma recuperação mais rápida em comparação com abordagens convencionais, quando bem indicada.
“Foi uma cirurgia minimamente invasiva, feita por vídeo. É uma técnica válida e consolidada. A cirurgia robótica também pode ser considerada em muitos casos e oferece vantagens técnicas em situações selecionadas, mas uma cirurgia por vídeo bem indicada e bem executada pode cumprir plenamente o objetivo oncológico”, explica Mariani.
Em relação à recuperação, o especialista ressalta que o tempo varia conforme idade, função pulmonar, condição clínica e evolução pós-operatória. Em cirurgias minimamente invasivas sem complicações, a alta costuma ocorrer em poucos dias, com retomada gradual das atividades nas semanas seguintes.
“Em uma evolução favorável, é possível que o paciente esteja bem recuperado entre duas e três semanas, com retomada progressiva de esforços maiores entre três e quatro semanas. Mas isso depende da resposta individual e do acompanhamento da equipe médica”, diz.
Para Mariani, o caso reforça a importância do diagnóstico precoce. O câncer de pulmão pode ser silencioso em fases iniciais e, muitas vezes, só causa sintomas quando está mais avançado. Quando a lesão é identificada antes de se disseminar, a cirurgia pode ter papel decisivo.
“O caso mostra que encontrar um nódulo pequeno não é o fim da investigação, é o começo da decisão médica. Se for benigno, evita-se alarme desnecessário. Se for maligno e estiver em fase inicial, a cirurgia pode oferecer chance real de cura”, afirma.