A obesidade já é uma das principais questões de saúde pública no Brasil e exige uma abordagem que vai muito além da perda de peso. Alimentação, genética, sono irregular, saúde mental, sedentarismo, ambiente e alterações metabólicas podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Um estudo publicado em setembro na Lancet Regional Health Americas mostra a dimensão do problema: entre brasileiros com 25 anos ou mais, a prevalência de obesidade passou de 7,8% em 1990 para 27,7% em 2023. Quando considerados sobrepeso e obesidade juntos, o índice chegou a 66,8%, o equivalente a cerca de dois em cada três adultos.
Para a Dra. Elaine Dias JK, endocrinologista e metabologista PhD pela USP, a obesidade é uma das maiores preocupações globais em congressos médicos. “Estamos falando de uma doença crônica, multifatorial e complexa, que precisa ser tratada com responsabilidade e acompanhamento profissional. Não há receitas milagrosas, e sim estratégias baseadas em ciência”, explica a médica.
Com a popularização dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, principalmente os análogos de GLP-1 e GIP, a procura por estratégias de emagrecimento aumentou e, ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o uso sem indicação e acompanhamento médico.
A médica enfatiza essa preocupação com o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento, especialmente as versões sem regulamentação da Anvisa. “Há produtos sendo vendidos com promessas rápidas, sem estudos ou controle de qualidade. Isso pode causar sérios danos ao metabolismo e à saúde. Automedicação não é solução”, adverte. O tratamento da obesidade pode envolver mudanças de estilo de vida, acompanhamento nutricional, atividade física e, quando há indicação, medicamentos. A escolha da estratégia depende das características e das condições clínicas de cada paciente.
O aumento da obesidade não se restringe à população adulta. Segundo o UNICEF, a obesidade se tornou, em 2025, a forma mais prevalente de má nutrição entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos no mundo. A prevalência global passou de 3% em 2000 para 9,4% em 2025. No Brasil, os dados mais recentes disponíveis para essa faixa etária são de 2022 e mostram que a prevalência de obesidade triplicou desde 2000, passando de 5% para 15%. Já o sobrepeso dobrou no período, de 18% para 36%. “Genética, ansiedade e compulsão alimentar estão entre os principais gatilhos para o acúmulo de gordura. Por isso, o foco deve ser na saúde integral, e não apenas no peso da balança. E, para essa faixa etária, cuidados com alimentação são essenciais para a prevenção”, ressalta a Dra. Elaine.
A obesidade também está associada a um risco maior de diversas condições crônicas, entre elas diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, doença hepática e alguns tipos de câncer. O Ministério da Saúde destaca que o cuidado deve ser multidisciplinar e considerar os diferentes fatores biológicos e contextuais envolvidos na doença, sem culpabilização ou estigmatização do paciente.
Para identificar o tipo e o grau da obesidade, a avaliação médica não deve se limitar ao peso corporal. O IMC continua sendo uma ferramenta utilizada no diagnóstico, mas outras informações podem complementar a análise, especialmente a distribuição da gordura e a composição corporal. “É importante incluir a medição da circunferência abdominal, a densitometria corporal e a bioimpedância. São exames que permitem entender melhor a composição corporal e o risco real do paciente”, diz.
A Dra. Elaine aponta que alguns hábitos são fundamentais para melhorar a saúde de modo geral e, consequentemente, prevenir a obesidade. “Uma dica para saber se os alimentos que estão sendo ingeridos são ideais ou não é ter em mente a importância do descascar mais e desembalar menos. Comer o máximo possível de opções não industrializadas, preferir as que sejam frescas e naturais, evitando, principalmente, as ultraprocessadas e ricas em gorduras trans. Esses alimentos levam à inflamação do nosso corpo, piorando o hormônio do estresse, que é um dos principais impulsionadores da compulsão que leva ao sobrepeso e à obesidade, impactando todo o metabolismo. Isso, em pessoas que possuem comorbidades, como diabetes, hipertensão, entre outras, provoca agravamento e eleva os riscos de consequências muito sérias”, ressalta a Dra. Elaine.
Ela reforça que algumas práticas precisam ser incorporadas ao dia a dia, independentemente da idade, da atividade profissional e de ter alguma patologia. Três práticas fundamentais são: