*Por Rafael Cervone
15/9/2026 – Em setembro, ao lembrar os 140 anos do nascimento de Tarsila do Amaral, uma das maiores pintoras brasileiras e ícone do Modernismo, uma analogia aparentemente improvável me veio à mente: seu valioso quadro Abaporu (homem que come carne de gente, em tupi-guarani) inspirou o Movimento Antropofágico. Seu manifesto, redigido pelo marido da artista, o escritor Oswald de Andrade, propunha “devorar” as influências internacionais, visando à absorção crítica e à transformação da cultura estrangeira para criar uma identidade genuinamente nacional.
Pois bem, a indústria brasileira, que aprecia a estética da livre, leal e isonômica concorrência, não deseja devorar os produtos importados nem os competidores estrangeiros com os quais disputa o mercado interno e o mundial, mas também não quer ser engolida. Por isso, é preocupante observar que tem sido muito prejudicada, assim como o varejo, por um processo autofágico promovido pelo poder público contra as empresas do próprio Brasil. Sim, aquelas abnegadas organizações que, sempre acreditando no País, alimentam o Estado com impostos, investem, geram empregos e renda e promovem inclusão socioeconômica.
Seriam fundamentais, neste momento, iniciativas capazes de fazer nossa economia crescer de maneira robusta e sustentada e enfrentar com mais desenvoltura a conjuntura global marcada por conflitos bélicos, disputas comerciais cada vez mais acirradas e o endurecimento da política tarifária dos Estados Unidos. No entanto, numa conduta contraditória, o Governo Federal e o Congresso acabam de afetar a competitividade das empresas nacionais, já muito pressionadas historicamente pelo “Custo Brasil”.
Refiro-me à aprovação, no Parlamento, da PEC que extinguiu a jornada 6×1, aumentando os ônus trabalhistas de um país que já convive com encargos elevadíssimos, e à Medida Provisória 1.357/2026. Esta concedeu alíquota favorecida de 30% para importações de até US$ 3 mil e extinguiu a chamada “taxa das blusinhas”, proporcionando total isenção às encomendas internacionais de até US$ 50. Ambos os atos são nocivos para as empresas, os trabalhadores e toda a população. Foram adotados por meio de um acordo político pontual entre os poderes Executivo e Legislativo, sem uma análise responsável e aprofundada de seus efeitos no médio e no longo prazo.
O privilégio tributário concedido às importações, que vinha sendo aplicado desde a edição da MP, em maio último, teve impacto danoso no desempenho da indústria de transformação. O setor recuou 0,4% no segundo trimestre deste ano, conforme apontou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O benefício, que aprofunda a concorrência desigual enfrentada por quem empreende e produz no País, torna empresas estrangeiras devoradoras de empregos, investimentos, renda e tributos que poderiam financiar a saúde, a educação e outros serviços essenciais à população.
Do mesmo modo, o fim da escala 6×1, ao atropelar a livre negociação das relações de trabalho prevista na legislação vigente, pode ser nocivo para todos, inclusive pelo corrosivo potencial de provocar desemprego e queda da produção. Sindicatos patronais e laborais têm plena prerrogativa para negociar e estabelecer, de modo consensual, a jornada mais adequada às características de cada atividade. Não precisam ser tutelados pelo governo. Interferir nessa autonomia é anacrônico e pouco democrático.
Estamos diante de um paradoxo preocupante, pois as duas medidas, com evidente apelo eleitoral, apresentam-se sob o argumento retórico de pretensos benefícios para consumidores e trabalhadores. Seus efeitos práticos, contudo, são opostos: redução da competitividade, aumento dos custos empresariais, desestímulo aos investimentos e ameaça a milhões de postos formais de trabalho.
Conforme defendia o Movimento Antropofágico, inspirado no quadro de Tarsila, deveríamos absorver o que existe de melhor no mundo, rejeitar o que não é adequado, estimular a inovação, elevar a produtividade e tornar nossas empresas mais competitivas. O que não podemos aceitar é a canibalização dos interesses maiores do povo brasileiro, dos empregos e dos investimentos produtivos, estimulada pelo insaciável apetite eleitoreiro daqueles para os quais o futuro do País parece resumir-se às urnas de outubro.
*Rafael Cervone, engenheiro têxtil, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).