A decisão de ser um doador de órgãos carrega o poder supremo de salvar e transformar vidas, dando início a novas histórias e trazendo esperança para milhares de famílias. O Brasil possui um dos programas públicos de transplantes mais estruturados do mundo e os avanços na área são constantes, mas há um gesto simples que faz toda a diferença para que esse ciclo de vida se complete: o diálogo em casa.
Embora falar sobre a morte nem sempre seja fácil, ter essa conversa com quem amamos é um ato de amor e clareza para o futuro. Hoje, a falta de informação ou a dúvida sobre a vontade do ente querido ainda faz com que quase metade das famílias (45%) recuse a doação no momento do luto, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT/ABTO).
É por isso que a campanha do Setembro Verde ganha tanta força. Pela legislação brasileira, a doação de órgãos pós-morte depende exclusivamente da autorização da família. Mesmo que você queira muito ser doador, são os seus parentes que darão a palavra final. Portanto, mais do que tomar essa decisão generosa no seu coração, é preciso comunicar sua família. Um momento de conversa em vida é a chave para que o seu desejo seja respeitado e a sua generosidade continue através de outras vidas.

Dr. Rodolfo Moraes Silva – Médico Paliativista e Coordenador da Comissão de Transplantes do Grupo Santa Casa de Franca
“A pessoa que deseja ser doadora de órgãos precisa conversar com sua família. Não é necessário registrar essa vontade em cartório ou em algum documento específico. O mais importante é que os familiares saibam qual era o desejo daquela pessoa. Em um momento de perda, essa conversa anterior faz toda a diferença para que a vontade do doador seja respeitada.”
Mais de 78 mil pessoas aguardam por um transplante
O tamanho da fila ajuda a dimensionar a importância da decisão familiar. Mais de 78 mil pessoas aguardam atualmente por um transplante de órgão ou tecido no Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes. Entre os tecidos, a córnea representa uma parcela expressiva da demanda; apenas esse tipo de transplante chegou a ter mais de 34 mil pessoas na lista de espera em 2025.

Ao mesmo tempo, o país vem registrando avanços. Em 2025, foram contabilizados 15.909 potenciais doadores notificados, e o número de doadores efetivos chegou a 4.023, alcançando a taxa de 20,3 doadores por milhão de população. Apesar do crescimento, o índice de recusa familiar permanece como um dos principais desafios para ampliar a quantidade de órgãos disponíveis.

O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo. Em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 30 mil transplantes, número recorde e 18% superior ao registrado em 2022. Entre os procedimentos realizados naquele ano, os transplantes de rim foram os mais numerosos entre os órgãos, com 6.320 cirurgias, enquanto as córneas lideraram entre os tecidos, com 17.107 procedimentos.
Uma conversa que pode salvar várias vidas
Quando há confirmação da morte por perda irreversível das funções do cérebro, o diagnóstico é realizado seguindo um protocolo médico rigoroso, com critérios definidos nacionalmente. Somente após essa confirmação é que a família pode ser consultada sobre a possibilidade de doação de órgãos.

A família é acolhida por profissionais capacitados, que explicam o processo e esclarecem dúvidas antes da decisão. Caso haja autorização, a Central de Transplantes inicia as etapas necessárias para identificar receptores compatíveis, seguindo critérios técnicos, de urgência e de tempo de espera estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.
O processo também é cercado por critérios de segurança. Após a autorização familiar, são avaliadas as condições clínicas e o histórico do potencial doador para verificar quais órgãos e tecidos apresentam condições adequadas para transplante. Dessa forma, não são retirados órgãos de forma indiscriminada, como ainda acreditam algumas pessoas.
Equipe da Santa Casa de Franca durante processo de captação de órgãos e tecidos para transplantes.
Quem pode ser doador?
A possibilidade de doação é avaliada individualmente pelas equipes de saúde, considerando as condições clínicas do potencial doador e a viabilidade dos órgãos e tecidos no momento do óbito. Por isso, ter idade avançada ou alguma condição de saúde não significa, por si só, que a pessoa não possa ser doadora.
No caso das córneas, a faixa etária padrão aceita no Brasil é de 2 anos até 79 anos, 11 meses e 29 dias, conforme informação repassada pelo Banco de Olhos do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, instituição para a qual são encaminhados os tecidos doados pela Santa Casa de Franca.
Entre os órgãos que podem ser doados após a morte estão rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino. Entre os tecidos estão córneas, válvulas cardíacas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagens, veias e artérias, entre outros.
A definição sobre quais órgãos e tecidos poderão ser efetivamente aproveitados ocorre após a avaliação médica e a análise das condições do potencial doador. Dessa forma, a decisão sobre a possibilidade de doação não deve ser tomada previamente pela própria pessoa ou pela família com base apenas na idade ou em diagnósticos existentes, mas pela equipe especializada responsável pelo processo.
O que realmente é preciso fazer para ser doador?
No Brasil, não é necessário registrar a vontade de doar em cartório nem portar um documento específico para que a intenção tenha validade. A orientação do Ministério da Saúde é clara: converse com seus familiares e deixe explícito que você deseja ser um doador de órgãos. A autorização familiar será necessária quando a doação puder ser realizada.
A conversa pode ser simples: “Se algum dia isso acontecer comigo, eu quero que meus órgãos sejam doados.”
Essa manifestação em vida permite que a família conheça a vontade do ente querido e esteja mais preparada para tomar uma decisão em um momento de grande fragilidade emocional.
Santa Casa de Franca atua há mais de duas décadas na captação de órgãos
O Grupo Santa Casa de Franca participa do processo de captação de órgãos e tecidos para transplantes desde 2003, quando foi criada na instituição a comissão responsável pela atividade. Atualmente, o trabalho é realizado pela Equipe de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (e-DOT), composta por 10 profissionais de saúde, que atuam na identificação de potenciais doadores, no acompanhamento do processo de doação e no acolhimento às famílias.
O trabalho desenvolvido pela equipe também foi reconhecido durante o V e-DOT São Paulo – Encontro das Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes do Estado de São Paulo, realizado nos dias 1º e 2 de setembro. Integrantes da e-DOT do Grupo Santa Casa de Franca participaram do encontro, que reuniu equipes envolvidas na doação de órgãos e tecidos em todo o Estado, e a instituição recebeu um certificado de reconhecimento por sua atuação na área.
Durante o V e-DOT em São Paulo, a Santa Casa de Franca recebeu certificado de reconhecimento pela excelência nas ações relacionadas à captação de órgãos para transplantes

Ao longo desse período, a instituição contabiliza 656 notificações de morte encefálica que resultaram na doação e captação de órgãos e tecidos, incluindo 252 rins, 86 fígados, 10 corações, 10 pâncreas, 10 pulmões, 07 ossos longos e 5.956 unidades de córneas. As doações possibilitaram que órgãos e tecidos fossem destinados a pacientes que aguardavam por um transplante, dentro do Estado de São Paulo.

Somente em 2025, a e-DOT da Santa Casa de Franca registrou 58 notificações de morte encefálica. Desse total, oito famílias autorizaram a doação de múltiplos órgãos e tecidos, resultando em oito doadores efetivos. Foram captados 21 órgãos e tecidos, dos quais 16 foram efetivamente transplantados: 12 rins, três fígados e um par de córneas. Outros cinco órgãos não apresentaram condições para transplante e foram encaminhados para análise anatomopatológica. Segundo o levantamento da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, todos os pacientes que receberam os órgãos captados na instituição em 2025 permanecem vivos e em acompanhamento ambulatorial.
Os números ajudam a dimensionar o impacto de uma decisão familiar. Cada autorização representa a possibilidade de transformar uma situação de perda em uma oportunidade de continuidade para pessoas que aguardam por um transplante. Por isso, para a equipe da instituição, a conscientização sobre a doação começa antes mesmo de uma eventual situação de luto: quem deseja ser doador deve conversar com seus familiares e deixar clara essa vontade em vida.


Neste Setembro Verde, a principal mensagem é simples:
“Não basta querer ser doador. É preciso comunicar à sua família.”
Conversar sobre essa vontade hoje pode fazer com que, no futuro, uma decisão tomada com informação e respeito permita que outras pessoas tenham a oportunidade de continuar suas histórias.