Alcançar 500 jogos no NBB CAIXA costuma ser quase o ponto de chegada. Para Lucas Dias, virou mais um marco de uma trajetória que se acostumou a empilhar feitos sem perder o sentido de construção. Aos 30 anos, ao atingir esse número no primeiro jogo da série de oitavas de final dos playoffs contra o Botafogo – vencendo por 94 x 68 -, nesta quarta-feira (22/04), no Pedrocão, ele reafirma algo que vai além da longevidade. O que se vê é a combinação rara entre precocidade, protagonismo e constância em um ambiente que cobra evolução permanente.
Os 500 jogos ajudam a dimensionar o tamanho do percurso, mas ganham ainda mais peso quando inseridos no contexto de tudo o que Lucas Dias já construiu. Campeão do NBB CAIXA ainda jovem, pelo Paulistano, ele rapidamente deixou de ser promessa para se tornar impacto real em quadra. No Sesi Franca, esse impacto atingiu outro patamar. Vieram mais quatro títulos do NBB CAIXA em sequência, conquistas internacionais e o reconhecimento individual que o colocou entre os nomes mais dominantes de sua geração. MVP de finais, eleito o melhor jogador da temporada em diferentes momentos e presença constante na seleção brasileira, o ala-pivô construiu um currículo invejável.
Ainda assim, quando olha para trás, o que mais o marca não são os troféus, mas o caminho percorrido até eles. “Eu fico muito feliz pela família que eu construí e por tudo que eu me vi crescendo, pelos desafios e obstáculos que eu passei na minha vida até chegar nesse momento. Eu sou muito grato por todas as pessoas que me ajudaram, pelos dois clubes em que eu passei antes de chegar aqui em Franca. Hoje, algumas vezes eu fico vendo o meu vídeo de quando jogava na LDB pelo Pinheiros, e vejo a maturidade que eu vim conquistando todos esses anos e todos os jogos que eu joguei no Paulistano e toda a trajetória que eu vim desde chegar aqui em Franca. Eu fico muito feliz por tudo que eu venho construindo, espero construir muito mais coisas, mas uma coisa que eu fico mais feliz é estar construindo a minha família e ela fazer parte de tudo isso”, afirmou.
A trajetória ganha ainda profundidade quando se volta ao início, ainda distante do cenário de decisões e títulos. O primeiro grande desafio não foi técnico, foi emocional. Sair de casa cedo exigiu um tipo de maturidade que não se aprende em quadra. “Cada momento foi uma coisa diferente. Na primeira vez que eu fui embora de casa, foi um momento muito difícil, porque minha mãe me ajudou bastante e ficar longe dela foi difícil. Era o filho do caçula na época e eu era muito apegado à minha mãe, então, desde quando ela me deixou no Pinheiros, eu fiquei chorando e ela falou para mim que precisava fazer aquilo para eu amadurecer e para correr atrás do meu sonho.”
A dor daquele momento acabou se transformando em base para tudo o que veio depois. “A parte do mental de ficar longe da minha mãe naquele primeiro ano no Pinheiros foi muito difícil, mas eu entendi rápido que era uma coisa que ela precisava fazer. E sou muito grato por ela ter feito aquilo para mim naquele momento. Se ela tivesse me levado embora, hoje eu acho que não estaria jogando basquete”, disse.
Lucas Dias com os troféus de campeão, MVP da Final e jogador mais eficiente da LDB 2015. Foto: João Pires/LNB
No Paulistano, onde ganhou protagonismo e conquistou o primeiro título do NBB CAIXA em 2017/18, o desafio mudou de forma, mas manteve a mesma raiz. Era preciso se adaptar a um novo ambiente e sustentar desempenho em outro nível de exigência. “Foi um pouco do mental também ali de mudar de clube, uma outra história, uma outra convivência. Um clube em que joguei por dois anos e sou muito grato por tudo que construí. Ali realmente vi que eu poderia chegar em várias coisas.”
A mudança para o Sesi Franca elevou ainda mais esse cenário. Chegar a um dos ambientes mais tradicionais do basquete brasileiro significava conviver com a expectativa de títulos e com a responsabilidade de corresponder. “Minha vinda aqui para Franca foi uma coisa surreal, porque eu sempre sonhei em fazer parte de uma cidade igual a Franca, por toda a trajetória, pela história que tem em Franca. O mental, para mim, foi a coisa que mais me pegou, porque cada ano foi um desafio de alguém desacreditar de mim ou ficar longe de uma pessoa que eu amo. Então, foi uma coisa que me motivou todos os dias”, relembrou.
É essa dimensão mental que atravessa toda a carreira e ajuda a explicar não só a ascensão, mas a permanência em alto nível. Em uma liga cada vez mais física e equilibrada, manter regularidade por tantas temporadas exige mais do que talento. “Em cada ano, eu tive vários obstáculos, como pessoas duvidando do meu potencial ou pessoas que desacreditavam de mim. Eu sempre tive minha família por perto, o tempo inteiro me ajudando e dando os melhores conselhos para mim”, comentou. “Treinar e ficar bem fisicamente faz parte do processo de quando você tem pessoas boas ao seu redor. Mas a parte do mental, de você estar todo dia motivado e na pegada para dar o melhor nos treinos, nos jogos, é o que mais me pegou, que eu fui evoluindo a cada ano. Sempre acreditei que eu poderia chegar a um nível que eu sempre imaginei”, completou.
Lucas Dias com o troféu de campeão do NBB CAIXA com o Paulistano na temporada 2017/18. Foto: Fotojump/LNB
Aos 30 anos, os 500 jogos são um indicativo de continuidade. A carreira, já marcada por títulos e prêmios, ainda se projeta em expansão. “Cada vez que eu chego numa marca que eu sempre venho batalhando e venho sonhando, eu sou muito grato por minha família fazer parte disso e de tudo que eu venho conquistando na minha carreira. Eu sou muito grato, igual eu falei, pelo Paulistano, pelo Pinheiros, dos quais eu fiz parte antes. Sem eles, tudo isso não poderia ser possível”, afirmou.
O reconhecimento pelo caminho percorrido por Lucas Dias convive com a ambição de seguir avançando. “Bater uma marca como essa é uma coisa da qual eu me orgulho muito, de estar na prateleira dos caras grandes com quem sempre sonhei em estar enfrentando. Sei que tem muita coisa para acontecer e sou muito grato, de coração mesmo, por mais uma marca que eu alcancei na minha vida e, daqui para frente, espero conquistar muito mais coisas”, disse. “Estou tentando evoluir minha parte mental o máximo possível para ficar mais forte. Hoje em dia, quem tem o melhor mental é a pessoa que mais consegue sobressair em qualquer trabalho, em qualquer desafio. É uma coisa que eu venho trabalhando todos os anos para tentar evoluir o máximo possível”, finalizou.
Os 500 jogos ajudam a organizar a narrativa de uma carreira que já se inscreve entre as mais relevantes da história recente do NBB CAIXA. Mas, no caso de Lucas Dias, eles funcionam mais como fotografia de um processo em andamento. Um jogador que começou cedo, respondeu às exigências do caminho e transformou constância em identidade. E que, mesmo já cercado por títulos e prêmios, ainda parece longe de encerrar sua história.
O NBB CAIXA é uma competição organizada pela Liga Nacional de Basquete, com patrocínio máster das Loterias, Caixa Econômica, Governo do Brasil, parceria do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), chancela da Confederação Brasileira de Basketball, bola oficial Molten, marca oficial Kappa, patrocínio Cruzeiro do Sul Virtual e Eurofarma e parcerias oficiais IMG Arena, Genius Sports, EY e NBA.
Fonte: LNB