Fernando Lima
A campanha do “Setembro Amarelo” já se tornou tradicional no Brasil, ela talvez seja uma das mais bem sucedidas em repercussão nas mídias, redes sociais e consequentemente na população. Inclusive é tema da nossa entrevista de hoje.
A psicóloga Fernanda Andrian, fala um pouco sobre a discussão do assunto, os tabus que envolvem tanto o suicídio quanto os cuidados com a saúde mental. Para ela o diálogo e a ajuda profissional são caminhos para o sucesso da campanha não apenas em setembro, mas de uma forma permanente.
Confira a entrevista:
Qual a importância da campanha Setembro Amarelo?
Inicialmente é necessário entendermos o motivo da criação do Setembro Amarelo, que foi por uma iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), da Associação de Psiquiatria e do Conselho Federal de medicina, mediante ao crescente número de suicídios, visando o debate sobre o tema e a criação de iniciativas que podem contribuir para diminuição do número de pessoas que compreendem como única saída acabarem com a própria vida. A partir daí passamos a vislumbrar que não se trata de qualquer assunto, mas de um bem precioso e de um direito que todos possuem: a vida.
Como cada um pode colaborar para o sucesso dessa campanha?
Acredito que a condição principal é compreender que não se deve concentrar a preocupação e o diálogo sobre o assunto somente no mês de Setembro, mas levar para o dia-a-dia pequenas mudanças de comportamentos direcionados ao outro, olhar com maior empatia e entender também que não se pode mensurar o que o outro sente com base apenas na maneira em que somos afetados; situações que pouco nos incomoda pode afetar o outro em uma proporção significante e contribuir de maneira negativa para o agravamento de sua situação. Se preocupar e estar disponível também faz toda diferença.
Como os pais, amigos, familiares podem ficar atentos?
O número de crianças e adolescentes que cometem suicídio está crescendo de maneira preocupante e a situação se agrava quando se tem registros de que para cada um suicídio cometido estima-se vinte tentativas em que o sujeito não teve sucesso. A busca de informações para identificar sintomas de depressão em crianças e adolescentes, manter um diálogo aberto e considerar acompanhamento com profissional são imprescindíveis.
Rede social, vida movimentada, contribui para aumento de ansiedade, depressão, entre outras doenças?
Sim. Hoje em dia o que tenho percebido nos atendimentos é uma diminuição exacerbada de aquisição de recursos de enfrentamento. Estamos nos tornando, enquanto sociedade, adoecidos; hoje não conseguimos aguardar a resposta de uma mensagem que enviamos ao outro por aplicativo, logo ligamos para que a resposta venha. Compramos e ao finalizarmos a compra corremos para ver o status de entrega. A banalização da importância do que acontece nos bastidores, que é realmente onde criamos memórias, aproveitamos momentos e companhias nos torna vazios, sem conteúdo e com tempo escasso para ouvir, dar espaço e compreender o que de fato são nossas necessidades individuais e em um minuto passamos a não ver sentido nas coisas e experimentar a diminuição da vontade de prosseguir por essa falta de valores e objetivos definidos.
Para quem está passando por momentos complicados e pensa que não vale mais a pena continuar vivendo, como agir?
Acolher a pessoa, se fazer presente, excluir os julgamentos ou minimização do que quer que esteja vivenciando, manter-se atento a períodos em que os sintomas demonstrem agravamento maior, deixar de lado os pensamentos cristalizados relacionados a banalização do momento, evitar comentários impróprios e o mais importante: incentivar a procura por ajuda profissional, seja para um processo conjunto unindo a terapia medicamentosa quando indicado ou para um processo terapêutico somente com profissional da psicologia.
Hoje o assunto suicídio ainda é um tabu? E como mudar isso no seu ponto de vista?
Falar sobre o suicídio continua sendo um tabu especialmente pela falta de informação, a alusão que carrega contextos religiosos, a falta da compreensão de que na verdade “o não falar” e a tendência cultural de se minimizar a dor que se sente, bem como a dor do outro, corroboram para que o número de tentativas de autoextermínio com sucesso caminhe a passos largos. Trazendo um contexto histórico para que possamos compreender melhor, podemos mencionar um livro que foi lançado em 1774 cujo nome é “Os sofrimentos do jovem Werther”, escrito por Johann Wolfgang von Goethe, ele retrata a vida de um jovem que se mata com um tiro, após experimentar intensa tristeza e depressão pelo término de um relacionamento. Acredita-se que o sucesso dessa história causou uma onda de suicídios entre os jovens na Europa, jovens que reproduziam a situação descrita no livro e a partir de então o livro passou a ser proibido e se orquestrou que a imprensa não falaria mais sobre suicídio, com medo de estimular. Mas precisamos considerar que estudos atuais trazem que os suicídios são evitáveis em sua maioria, que eles acontecem mediante a impulsos, onde o indivíduo quer se livrar da sua dor e não da vida. Mudaremos essa situação falando sobre o assunto, demonstrando que existem técnicas, existem estudos, existem profissionais que podem auxiliar nesse momento, trazer de volta a esperança para as pessoas que enxergam como única possibilidade dar fim a própria vida.
Buscar ajuda, fazer terapia, prevenir e cuidar da saúde mental, é tão importante quanto da saúde física. Hoje ainda existe preconceito quanto a isso?
Com toda certeza! Assim como lidamos com um tabu relacionado ao assunto suicídio, também lidamos com um tabu quando o assunto é a terapia, a procura por um profissional da psicologia que poderá realizar um trabalho junto ao paciente no sentido de compreender o indivíduo como um todo, aumentar o repertório de recursos para lidar com tantas situações que fogem das nossas mãos e provocam essa sensação intensa de desamparo faz toda diferença no processo. O autocuidado não está relacionado apenas com aspectos físicos ou com o uso de medicação, mas em se preservar, verificar quais são de fato as necessidades que temos de maneira individual e responde-las.